Arquivo de Maio, 2008

07
Mai

 Alcachofra

Categoria(s): Gastrogeriatria, Nutrição, Plantas medicinais, Saúde Geriátrica

Fitoterápico


A alcachofra é originária das regiões mediterrâneas e cultivada desde a antiguidade como alimento e produto dietético. Seu cardo tem propriedades terapêuticas para o fígado.

Na raiz e na folha da alcachofra se encontra uma substância amarga (cinarina), com fracos princípios aromáticos, mucilagens, taninos, relativamente muita pró-vitamina A, um pouco de B1, uma enzima (cinarase) que coalha o leite: ela começa a digestão das proteínas do leite, mesmo na proporção 1:150.000, e é utilizada nos países meridionais, na fabricação de queijos. Além disso, graças às substâncias amargas e carboidratos, essa planta age energicamente nos órgãos digestivos, principalmente no fígado; ela favorece a formação da bile e seu escoamento, mas igualmente os processos construtivos do fígado; ela estimula a ação desintoxicante desse órgão; abaixa a taxa de açúcar no sangue e aumenta a diurese.

Ele forma, de início, quando sai da semente, uma raiz e uma roseta de folhas. Depois ascendem do rizoma vivaz folhas grandes, longas, profundamente e muitas vezes divididas, que se curvam em forma de arcos, com extremidades espinhosas. No começo do verão, vemos amadurecer de seu bouquet uma haste floral relativamente curta, que contém grandes capítulos azuis ou violáceos. As pequenas flores tubulares têm um odor fino, mas forte, suave e seco. A base das folhas do invólucro, assim como o receptáculo, se tornam carnudos, inchados. A variedade próxima, denominada cardo, desenvolve e torna carnosas as nervuras das folhas.

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06
Mai

 Poemas da Eneida - Cotidiano Cruel

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoções

Colaboradora: Eneida Tagliolatto *

* Poetisa Paulista

“COTIDIANO CRUELâ€
Vermelho,
sangue no espelho,
boca pintada,
mancha deixada,
mostrando desprezo,
pela vida descarada.

Flagelo,
lanho indigesto,
carne marcada,
toda esfolada,
expondo domínio,
sobre a pessoa escravizada.

Ãgua estagnada,
lágrima derramada,
deixando na boca,
uma marca salgada,
indicando em segredo,
um soluço com medo.

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06
Mai

 Instituições de Longa Permanência para Idosos - ILPI

Categoria(s): Gerontologia

Resenha

Colaboradora: Ana Cristina Tosta *

* Enfermeira e pós-graduanda do curso Saúde e Medicina Geriátrica da Metrocamp. Enfermeira da Casa de Repouso “Alan Kardec”.

INSTITUIÇOES DE LONGA PERMANENCIA PARA IDOSOS: o que é, e como funciona.

A velhice sempre esteve relacionada a pobreza, ao abandono, e a perda de laços familiares. Além do que a maioria dos idosos brasileiros vivem em precárias condições de vida, quer do ponto de vista social, quer do ponto de vista financeiro. Enormes são as carências nas áreas de saúde, previdência, educação, cultura e lazer, entre outras (Annunziato,2007). Com o passar dos anos a pessoa idosa esta precisando ainda mais de atenção e cuidados, mas, agora a falta de atenção esta em seus familiares, por não estarem tão mais presentes no seu cotidiano, fato este, devido a uma vida tumultuada e corrida dos membros da família. Na relação pais e filhos, esses últimos, inicialmente numa situação de dependência total vão aos poucos se tornando independentes. Ao chegar à velhice a tendência ao aumento de limitações e incapacidades, faz com que os filhos sejam levados a dispor maior atenção e cuidados a seus pais, invertendo-se os papeis anteriores a relação de autoridade. (Annunziato,2007). Então, optam em acomodá-los em instituições de longa permanência para idosos (ILPIs), ou alguns asilos ou clinicas. Para muitos idosos a ILPI é considerada uma nova família, onde pode resgatar o respeito, segurança, ter novas oportunidades, amizades novas e assistência em suas necessidades.

O primeiro asilo para idosos foi fundado no Rio de Janeiro, em 1782, pela Ordem Terceira da Imaculada Conceição, com capacidade para 30 leitos (Born, 2005). De acordo com a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (Seção São Paulo, 2003), a palavra Asilo define-se (do grego ásylos, pelo latim asylu) como casa de Assistência Social onde são recolhidas, para sustento ou também para educação, pessoas pobres e desamparadas, como mendigos, crianças abandonadas, órfãos e velhos. Considera-se ainda asilo o lugar onde ficam isentos da execução das leis, os que a ele se recolhem. Relacionam-se assim, a idéia de guarita, abrigo, proteção ao local denominado de Asilo, independentemente do seu caráter Social, Político ou de cuidados com dependências físicas e/ou mentais.

Por definição, segundo o manual de funcionamento da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) Seção São Paulo, Biênio 2002/2003. Atualmente as ILPIs ( Instituições de Longa Permanência para Idosos), são estabelecidas para atendimento integral institucionalizado em cuidados prestados a pessoas de 60 anos e mais, dependentes ou independentes, que não dispõem de condições para permanecer com familiares ou em seu domicilio. Essas instituições, são conhecidas por denominações diversas: abrigo, asilo, lar, casa de repouso, clínica geriátrica e ancianato. Elas devem proporcionar serviços na área social, médica, psicológica , enfermagem, terapeuta ocupacional, odontologia, entre outras, conforme necessidades desse segmento etário.

Esse atendimento é realizado em locais, fisicamente adequados e equipados para proporcionar cuidados aos idosos, mediante pagamento ou não, durante um período indeterminado. Estes locais devem reproduzir um ambiente residencial, mantendo as características de um lar. Não devem ser marcados pelo isolamento, afastados da vida urbana, nem ser espaço de uniformização da vida de seus usuários.

Devem prever, na medida do possível, a participação dos usuários na qualidade individual dos ambientes, especialmente naqueles mais íntimos e reservados – os quartos, por exemplo, (Annunziato, 2007). Além disso, esse local deve fornecer o uso de elementos que atuem de forma positiva sobre a memória física dos idosos e,ocasionando uma relação e aprendizagem com o novo lar e novo espaço, deve ser facilitado incluindo objetos que sejam capazes de resgatar antigos hábitos, experiências, recordações, fazendo com que seu cotidiano atual seja o mais parecido com a sua antiga residência. Deve dispor de um quadro de profissionais capacitados para atender às necessidades de assistência social, alimentação, higiene, repouso e lazer dos usuários e desenvolver outras atividades que garantam sua qualidade de vida. Sempre que possível, as atividades deverão ser planejadas em parceria e com a participação efetiva dos idosos, respeitando suas demandas e características sócio-culturais, (Annunziato, 2007). Do que se pensa as ILPIs não ficam omissas diante de certas ausências e apatia do familiar. Procuram estabelecer contatos entre familiar-idosos, justificando que são fundamentais para o bem-estar dessa população (Creutzberg,2007).

Hoje as ILPIs devem estar adaptadas e regulamentadas perante as leis para manter um padrão mínimo de funcionamento. A ANVISA (Agencia Nacional Vigilância Sanitária) estabelece normas a serem aplicadas em todas ILPIs, governamental, ou não, destinadas a moradia coletiva com pessoas de 60 anos ou mais, com ou sem suporte familiar. Atendendo pessoas idosas com variações de dependência, ou seja, aquelas que requerem o auxilio de outras, e equipamentos especiais para realização das atividades da vida diária (AVDs).

Para se manter uma assistência adequada em cuidados específicos para os idosos, as ILPIs, segundo a RDC,2005, devem manter um quadro de profissionais capacitados dependendo do grau de dependência de cada paciente:

- grau de dependência I – são independentes, mas precisam de equipamentos de auto-ajuda, portanto, um cuidador para cada 20 idosos, com carga horária de 8 horas/dia;
- grau de dependência II – são dependentes com ate três atividades de autocuidado para AVDs, portanto, um cuidador para cada 10 idosos,ou fracionado por turno;
- grau de dependência III – são idosos com dependência que necessitam da assistência em todas as atividades de autocuidado para as AVDs, ou com comprometimento intelectual, portanto, um cuidador para cada 6 idosos, ou fracionado por turno.

A Política Nacional do Idoso, promulgada em 1994 e regulamentada em 1996,
assegura direitos sociais à pessoa idosa, criando condições para promover sua autonomia, integração e participação efetiva na sociedade e reafirmando o direito à saúde nos diversos níveis de atendimento do SUS (Lei nº 8.842/94 e Decreto nº 1.948/96) MINISTÉRIO DE ESTADO DA SAÚDE.

“As ILPIs são considerada um sistema social organizacional†(Creutzberg,2007), promovendo uma assistência que atende as necessidades mais amplas possíveis, desde os cuidados básicos da enfermagem à integração da equipe multidisciplinar, que também está envolvida no planejamento e execução dos cuidados, levando ao bem-estar e satisfação dos idosos.

As ILPIs adaptadas e regulamentadas estão cada vez mais em evidencias vem se empenhando para os serviços prestados aos idosos,e em, profissionais capacitados especializados na área de geriatria.O objetivo não é substituir as famílias ,mais sim em garantir e proporcionar uma qualidade de vida aos idosos satisfatória e digna. Porem, algumas instituições são carentes de recursos financeiros, com isso, procuram mão-de-obra não-qualificada na área por serem mais barata, os chamados cuidadores formais (BORN,2006). Particularmente, ficam muito comprometedor os cuidados designados pelo enfermeiro geriatra a esse pessoal não qualificado, em relação ao processo inevitável do envelhecimento, pois a capacitação e o conhecimento técnico-teórico são de real importância para os cuidados oferecidos aos idosos, principalmente se esses profissionais forem especializados na área de saúde na função de técnico/auxiliar de enfermagem ao idoso. â€

Referências:

Annunziato, MPHL - Atividade Física com idosos em Instituições de longa Permanência. 2007. Disponível em: <http://www.google.com.br

Born, T. O que é uma ILPI? Portal do envelhecimento, 29 de nov.2005.

Born, T. A formação de cuidadores formais e informais: acompanhamento e avaliação. Portal do envelhecimento, Caldas, nov. 2006.

Creutzberg, M.; et al. A comunicação entre a família e a Instituição para Idosos. Revista Brasileira Geriatria Gerontologia,v.10,n.2.Rio de Janeiro,2007.

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05
Mai

 Atenção ao idoso: Papel da enfermagem - Parte 1.

Categoria(s): Programa de saúde

Resenha

Colaboradora: Ana Cristina Tosta *

* Enfermeira e pós-graduanda do curso Saúde e Medicina Geriátrica da Metrocamp. Enfermeira da Casa de Repouso “Alan Kardec”.

Enfermagem

História

A enfermagem, inicialmente era praticada por freiras que prestavam assistência por caridade aos doentes e miseráveis nas santas casas, portanto, os cuidados prestados aos pacientes eram de cunho religioso, não tendo assim nenhum embasamento científico, mas apenas empírico. A assistência era realizada sem o uso de uma metodologia de trabalho para orientar suas ações, conforme as necessidades surgiam às decisões eram tomadas. A enfermagem ao longo do tempo vem se desenvolvendo, tornando uma profissão honrada, digna, técnica e científica, e para isto, passando por várias fases desde os tempos das civilizações mais antigas, onde as pessoas que prestavam cuidados aos doentes o faziam apenas por caridade.
A partir do séculos XIX, com FLORENCE NIGHTINGALE, iniciou-se um modelo assistencial estruturado no trabalho executado com os soldados durante a guerra da Criméia. Florence já se baseava em uma assistência holística, do corpo humano, tendo um olhar dimensional do ser.

A enfermagem hoje é uma área que está voltada também para bases cientificas, fato que Florence já fazia em seus cuidados como higienização, isolamento, na época. Porém, desde o início, algumas dificuldades foram encontradas como o desconhecimento dos sintomas, das necessidades básicas alteradas e da nomenclatura destas necessidades, dentre outros motivos. O processo de enfermagem por ter origem nas práticas de atenção ao doente, possui fases interdependentes e complementares e quando realizadas concomitantemente resultam em intervenções satisfatórias para paciente (Foschiera e Viera, 2004).

Atualidade

A American Nurses Association (ANA) definiu enfermagem, em 1995, como “o diagnostico e tratamento das respostas humanas à saúde e à doençaâ€. Dentro da área de pesquisa em enfermagem do cuidado, seguimos os processos fisiológicos e fisiopatológicos, como: conforto, dor e desconforto, saúde-doença, tomadas de decisões e escolhas, orientações sobre os cuidados do corpo humano e o ambiente, processo do nascimento, crescimento, desenvolvimento e morte, e também sistema ambientais.

A enfermagem é uma atividade e uma ciência relacionada ao cuidado do ser humano, individual ou coletivo, porem, de modo integral e holístico, atuando sempre na promoção, proteção, recuperação, e na reabilitação do individuo, respeitando os preceitos éticos e legais. Essa profissão hoje tem uma autonomia própria editada pelo Conselho Internacional de Enfermagem, designada por Classificação Internacional para a pratica de Enfermagem, guiando enfermeiros na formação de diagnósticos de enfermagem, planejamento das intervenções e avaliações dos resultados aos cuidados prestados. Ainda esta com padronização do manual em diagnósticos de enfermagem North American Nursing Diagnosis Association (NANDA), listados com suas caracteristicas definidoras e seus fatores relacionados.

Papel da enfermagem

O enfermeiro é um profissional qualificado de nível superior, responsável pela promoção, prevenção, recuperação, e reabilitação dos indivíduos a quem comete os cuidados, seja individual, coletivo ou comunitário. Estando apto para atuar nas áreas da saúde assistencial, administrativa, ou gerencial. Ainda dentro da área, encontramos pessoas capacitadas como, auxiliares e técnicos de enfermagem, possuindo funções especificas designadas pelo enfermeiro. Contudo, a figura principal e central relacionado aos serviços e atuações profissionais de atenção á saúde é o paciente. Este, variando de individuo para individuo, pode depender de vários cuidados, e necessidades, tendo a enfermagem que identificar e tomar medidas que aliviem seu sofrimento. Para certos indivíduos/pacientes algumas necessidades básicas são essenciais para manter a satisfação pessoal e quando há limitações para a realização dessas práticas diárias, o paciente necessita de cuidado mais próximos.

Atuação junto aos idosos

Os enfermeiros são profissionais de saúde com um papel prioritário no apoio aos idosos, patológicos ou não, independentes ou não, com autonomia ou não. São profissionais determinantes, principalmente no processo de reabilitação fazendo com que a assistência seja sistematizada permitindo assim que se identifiquem os problemas dos idosos de maneira individualizada, colocando seus conhecimentos teóricos-prático no controle do processo do envelhecimento, e sempre mantendo sua formação em continuidade para os estudos clínicos preventivos, curativos e paliativos a essa população.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cuidados paliativos são uma abordagem que objetiva a melhoria na qualidade de vida do paciente e seus familiares diante de uma doença que ameaça a vida, através da prevenção e alivio de sofrimento, através da identificação precoce e avaliação impecável, tratamento de dor e outros problemas físicos, psicológicos e espirituais.

A enfermeira também tem como papel avaliar cuidados da assistência, dar acessoria, planejar e coordenar serviços prestados pela enfermagem, orientações e avaliações das ações relacionadas á saúde dos idosos, comandar no tratamento de feridas, úlceras de pressão, planejando ações de proteção ao surgimento de escaras e complicações das doenças do idoso, estimulando deambulação precoce, e gerenciando procedimentos em saúde, deve saber investigar e identificar os casos em prioridade, abordar corretamente o idoso, agir coordenadamente com outros profissionais, traçar intervenções eficazes para cada caso.

Preventivamente, pode utilizar-se de estratégias educativas a saúde, em todos os níveis de complexidade. Deve ainda estimular o autocuidado, atuando na prevenção e não na complicação das doenças inevitáveis, individualizando o cuidado a partir do princípio de que todos os idosos vão apresentar um grau diferente de dependência, diferindo assim a maneira de assistência.

A equipe de enfermagem deve zelar para que o idoso consiga aumentar os hábitos saudáveis, diminuir e compensar as limitações inerentes da idade confortar-se com a angustia e debilidade da velhice, incluindo o processo de morte. No entanto, observa-se em muitas instituições a ausência do enfermeiro, assim como da equipe multiprofissional (Aires, Paz e Perosa, 2006). Fato justificado pela falta de recursos financeiros, e da consciência dos governantes para tal problema presente, que futuramente nós, provavelmente vamos enfrentar.

Referências:

Aires, M; Paz, AA.; Perosa, C.T. O grau de dependência e características de pessoas idosas institucionalizadas. Revista Bras. De ciências do Envelhecimento Humano, Passo fundo, 79-91-jul./dez.2006.

Diogo, MJ; Delboux. O papel da enfermeira na reabilitação do idoso. Revista latino-am.enfermagem, Ribeirão Preto,v.8,n.1,p.75-81,jan. 2000

Foschiera, F; Viera, C S - O diagnóstico de enfermagem no contexto das ações de enfermagem: percepção dos enfermeiros docentes e assistenciais. Revista Eletrônica de Enfermagem, v. 06, n. 02, p.189-198, 2004. Disponível em www.fen.ufg.br

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04
Mai

 Contos do Bié - Fazendo um caixão em casa

Categoria(s): Contos e Poemas, Gerontologia

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Falecera um roceiro, cuja morada situava nas bandas da Fazenda Gangorra.
Entrante a noite, parentes e amigos do morto se achavam na marcenaria onde meu pai trabalhava, modo encomendar o caixão para o sepultamento. Meu pai, receoso de permanecer sozinho, e de noite, na tenda a forrar o caixão, deu de levar para casa a armação de madeira, os panos e outros acessórios para o acabamento. Diante do inesperado, apossou-se de mim um medo desmesurado, e não me deu ânimo de permanecer em casa e ficar a presenciar sua lida com a peça funerária! O jeito foi pedir a Sa Maria que deixasse eu passar a noite em sua casa, do que não fez questão, ajeitando-me a cama no quarto de um de seus filhos, Biléu.
O tal Biléu era competente e habilidoso alfaiate, vestia-se bem, mas sistemático e carrancudo. Quase não sorria e não dispensava um gole. Chegava a casa sempre tarde da noite, ali pelas nove e dez horas.
Após me servir café com leite e quitandas, Sa Maria inventou de recitar o “Ato de contrição e bom propósito”, lendo-o uma, duas, três e mais vezes, vagarosamente, para que eu decorasse aquela latada confusa e complicada. Senti-me contente por se tratar de uma reza nova para mim. À primeira vista me pareceu mais fácil do que a Salve Rainha. “Quem sabe? - assuntava comigo - me acalmaria o espírito e me deixaria feliz e livre de maus pensamentosâ€. Ânimo no geral, aquela alegria solta, esparramosa, eu me tornando mais íntimo de Deus.
- Preste atenção! – insistia ela - vou ler mais uma vez: “Ó meu Deus, reconheço o triste estado de minha alma. Pequei, Senhor, pequei muitas vezes. Quanto vos fui ingrato, quanto vos ofendi. Tornei-me abominável aos vossos olhos por minha culpa, por minha tão grande culpa. Onde estaria eu agora, se tivesse morrido em meus pecados? No fogo do purgatório, ou talvez nas chamas do inferno. Que grande mal, ó meu Deus, é o pecado, que castigais eternamente pela Vossa divina justiça. Perdoai-me e não me castigueis conforme o rigor de Vossa justiça”.
- Vamos parar por aqui. Agora é a Salve-Rainha – arrematou.
Rezou a Salve Rainha repetidas vezes e mandou que eu a recitasse.
Eu ia indo muito bem, mas ao chegar no trecho em que aparecia a expressão “os degredados filhos de Eva”, aí a coisa ficava feia e eu empacava.
A principio tinha paciência comigo, mas depois de fracassadas tentativas zangava-se, mostrava-se brava mesmo, a dizer que eu trazia o diabo no corpo, me tentando modo eu não aprender a oração da santa Mãe de Deus. Vinha-me um grande pavor, e naquele instante eu preferiria ter ficado em casa, apesar da presença do caixão de defunto. O trecho me despertava lembranças e comparações. Os degredados me lembravam os agregados, e eu ia em pensamentos às roças por onde sempre andava, solto e livre de amarras de qualquer espécie, a viver a vida em pleno viço e sem me preocupar com os pecados de Adão de Eva. Via, paupérrimos, vestidos de trapos rotos, a vegetar em míseras choupanas, os agregados dos fazendeiros, que eu imaginava serem os filhos de Eva. “E ela, Eva, onde estaria?â€
Ela quase bradou comigo, e me trouxe de volta, de volta para o meu pequeno e estreito mundo, mundo povoado de demônios e pecados, o mundo da Rua das Almas!
Passava das oito da noite, hora de ir para a cama.
Na cozinha de chão batido, sentado no aterro do fogão de lenha, lavei os pés numa bacia de água temperada, enxuguei-os num trapo e fui para o quarto. Acompanhou-me até a porta e ficou ali, a lamparina acesa até que me deitasse. Chegou até o meio do quarto, iluminou um dos quadros dos inúmeros santos que ali havia, benzeu-se e eu também. Falou boa noite e cerrou a porta.
Os degredados não me saíam da mente, por mais esforço que eu fizesse para afastá-los.
A qualquer movimento, as palhas do colchão rumorejavam de dar gastura! A custo, mantinha-me imóvel, mas o pulsar do coração, forte e rápido, repercutia em todo meu corpo e nas palhas, que respondiam às batidas e desencadeavam uma serie de estalos, como o crepitar das brasas no fogão de lenha.
Acudiam-me à lembrança as inúmeras figuras trazidas do inferno pelo retratista Dante.
Nem era bom pensar! O coração acelerava cada vez mais, e o suor me corria pelo corpo inteiro, como a levar o medo a todas às suas extremidades. A esperança era que Biléu chegasse logo. Carrancudo, sistemático, bebia um trago, mas eu gostava dele.
Sentidos atentos, respiração reprimida, invadia-me os ouvidos, no profundo silêncio da noite, o trilar dos grilos lá fora, entremeado do latido compassado e desanimado de um vira-latas solitário.. Ficava a imaginar como seria o vira-latas: preto, malhado, branco? Não havia dúvida de que era raquítico, bem miúdo, que o latido assim o revelava. Depois de desenhá-lo em minha mente, fiquei a assuntar em que posição ele se colocava para latir.
E muitos outros sons iam surgindo num desarranjo sem medida, formando uma latomia danada em meus pensamentos, deixando-me como que desentendido, um trem difícil de explicar.
E o medo mais e mais se agigantava! E assim fui me enveredando por uma enormidade de pensamentos tolos, modo passar o medo.
Por fim, recorri aos santos, cujos quadros pendiam das paredes do quarto, e um deles, São Sebastião, todo cravado de flechas, parecia me segredar: “Você aí tão bem aconchegado nesse colchão de palhas macias, cobertas quentinhas, e se julga infeliz? Olhe quantas flechas me cravaram, as cordas que me amarraram, e estou aqui, de pé, e não me queixo de nada..
.â€Ai, meu Deus, perdoe-me se estou pecando. Sou um ingrato, e amanhã pode dar-me o castigo que quiser, mas agora de noite faça com que eu durma…â€.
Teve hora que mal conseguia balbuciar as preces, e no redemoinho de tantos pensamentos, ruídos quase imperceptíveis foram-se fazendo ouvir, e parecia vir de um dos cantos do próprio quarto.
Depois, como que estivessem bem perto de mim, vi, com escancarada nitidez, à minha frente, do lado da porta entreaberta, uma serpente de muitos rabos a querer soltar-se das mãos de um dos capetas em pose nos retratos tirados pelo Dante. Na outra mão ele portava uma espécie de ferro em brasa! Fazia cara de riso, a comprazer-se com a maldade que fazia ao apertar com força a cintura da serpente. Alargando o riso, chegando sempre mais para junto da cama, tinha a firme intenção de jogar a serpente em mim! Soltei um tremendo grito, que ecoou pela casa inteira, ouvido até pela vizinha da casa de cima, D. Mafalda de Seu Antero Trigueiro!
- Que foi? - chegou de pronto Sa Maria, seguida de Seu Virgolino.
Com a lamparina à altura dos olhos, iluminou o quarto todo e, virando-se para o filho, perguntou:
- Que é isso, Biléu?
- Um tatu! - respondeu, sorrindo.
Biléu, na vinda para casa, pegara um tatu rabo mole à saída do bambual, às margens da Rua do Funda, na periferia da cidade, e quis me passar um susto. Dirigiu-se para o quarto, segurando com uma das mãos o tatu pelo meio da barriga, que se esperneava todo; e com a outra mão alumiava o quarto com o candeeiro. Para minha mente povoada de serpentes e demônios, Biléu era o próprio, e o pobre bichinho se me apresentou como a grande serpente de muitos rabos. A bruxuleante chama do candeeiro se transformara no ferro em brasa portado pelo espírito do mal!
Passado o susto, nos encaminhamos para a despensa de chão batido, colocando o tatu debaixo de um grande pilão usado para pilar arroz, café e preparo de paçoca de amendoim com rapadura.

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