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11
Mai
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Contos do Bié - Cabelos igual aos de Castro Alves
Categoria(s): Gerontologia |
Sabedoria
Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *
* Poeta Mineiro
- Zé Erasmo era meu freguês cativo e bom de prosa. Conversava pouco, mas o que falava valia pela conversa de todo o povo desta cidade. Eu gostava de fazer-lhe o cabelo, um corte especial, o único da cidade. Eu nunca disse isso a ele, mas achava bonito o penteado de seus cabelos, parecido com o de Castro Alves, o imortal poeta baiano, que adotava um corte daquele.
- Castro o quê? - apressada, Sa Maria.
- Castro Alves, Maria!
- Filho de quem?
- Sei lá de quem era filho, Maria! Não é do nosso tempo, morreu no século passado, e dizem que muito novo, moço de tudo. Aliás, os poetas nunca têm vida longa. Morrem cedo. O exemplo está aqui em nossa cidade. Não viu o Zé Erasmo?
- E como é que você, Virgolino, sabe o jeito do corte do cabelo do tal moço, se não o conheceu? – era Sá Maria, voltando à carga.
- Vi a estampa dele nos almanaques. Por falar nisso, o último almanaque que ganhei de seu Venâncio da Farmácia trás uma pequena história desse tal senhor Castro Alves, que lutou pela libertação dos escravos.
- Então era um bravo, um guerreiro, deve ter morrido na guerra!
Nova interferência de Sa Maria sobre o famoso poeta baiano.
- Nada disso, Maria! Sua luta era no bico da pena, mais valiosa que as baionetas e os bacamartes. Pegue lá, Isaltina - falou com a filha - está na gaveta da mesa do nosso quarto o almanaque sobre a vida desse moço. Busque depressa, busque!
Seu Virgolino, enquanto falava, folheava o livro, e me sentia feliz da vida pelo interesse que nele despertara, o assunto espichando cada vez mais, a prosa ganhando fôlego, ânimo no geral! Mas lá no fundo, bem no fundo do meu Ãntimo, alguma coisa me espetava de fininho como a pontinha de uma agulha: a figura de meu pai!!! E via em tudo aquilo uma história estranha.
- É mesmo, era dele! Olhe a assinatura aqui, olhe! Isso vale ouro, menino! Só mesmo um grande amigo poderia dar-lhe um livro deste!
Nisso, Dasdor trouxe-lhe o almanaque, que abriu e deitou a mostrar para todos a figura do poeta baiano.
- Repare bem! – falava Seu Virgolino.
De fato o corte do cabelo era igualzinho ao de Seu José Erasmo. Não tinha por, nem tirar!
Somente Salatiel, um dos filhos de Seu Virgolino, ainda não havia examinado o livrinho, e tampouco se interessou pelo almanaque e pela figura de Castro Alves.
Entretanto, até àquelas alturas indiferente ao que se passava, aconchegou-se no tamborete, consertou o corpo, pôs-se a prumo, tal a postura de uma coruja: calado, calado, mas a prestar uma atenção danada.
Em dado momento quis ouvir direito o que o pai acabara de ler, e meio afobado avermelhou-se todo e pediu ao pai que repetisse a leitura, que todo mundo estranhou, pois nunca participava de nadinha, de nenhuma conversa, aquilo de entrar mudo e sair calado.
Lido mais uma vez o trecho, Salatiel levantou-se, colocou o prato no aterro da fornalha e, estranho, não lavou a boca, nem escovou os dentes, como sempre fazia, seu ritual, e pediu para ver o livrinho e ficou a examiná-lo em detalhes, tal como se pega uma peça desconhecida para observar o funcionamento de suas engrenagens.
Leu repetidamente os tais versos, fechou o livro e mo entregou, dizendo:
- É, nunca ouvi dizer que um poeta conhecesse um neto, porque sempre morrem cedo.
Fui para casa impressionado com o que ouvira a respeito dos poetas, levando-me a um estado que eu não sabia bem definir.
Não era tristeza, creio, mas séria e responsável preocupação, um trem esquisito que eu nunca me lembrava de ter sentido.
Fiquei a imaginar que se Seu José Erasmo não tivesse sido poeta, quem sabe ainda estaria vivo, feliz a lidar na sua tenda de seleiro a riscar, cortar e costurar os couros, transformando-os em belas peças artesanais de arreios de animais e em outras utilidades.
Sentado sob um frondoso pé de condessa nos fundos do imenso quintal, vinha-me à lembrança a figura do homem que morrera cedo, ainda em pleno vigor, mas se fora pela simples circunstância de ter sido poeta, com certeza uma existência de padecido viver.
Ao chegar da marcenaria, logo depois do jantar meu pai se dirigiu para a horta e deu inÃcio à rega dos inúmeros canteiros de verduras.
Fiquei a reparar, bispando à distância, estudando-o em detalhes, a me certificar se a sua fisionomia e os cabelos eram como os de um poeta.
Não, não tinham nada a ver com os de um poeta!
Bem lisos, penteados para trás, ficavam acima das orelhas, e, quanto à fisionomia, nada que traduzisse um espÃrito pensativo, e também não era dado a escrever. Pelo menos nunca o surpreendi sentado à mesa, de caneta e papel à mão. Às vezes, meio de longe eu ficava a assuntar, e observava com discrição que se punha a desenhar uns trens numa folha de papel, mas nada que se pudesse ler, como fazia Seu José Erasmo.
Não, meu pai não era um poeta.
E ainda bem, e por isso me sentia aliviado.
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