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Mai
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Contos de Mardegam - Bernardo Ermitão
Categoria(s): Contos e Poemas |
Emoções
Colaborador: Ricardo Mardegam *
* Poeta Paulista
BERNARDO ERMITÃO
(Clibanarius vittatus)
Bernado Ermitão é um bichinho muito simpático e curioso que vive nas profundezas do oceano. Ele vive vagando por entre as maravilhas do fundo do mar procurando (e achando) moradia para se proteger dos predadores.
O curioso é que ele não possui “casa própria” (no caso uma concha) e passa a vida apropriando-se de casas que foram de outros de sua espécie - ou não.
Essas casas-conchas que são abandonadas por seus donos quando morrem são as moradias do Ermitão, só que tem um probleminha: ele também cresce e suas casas momentâneas tornam-se desconfortáveis. Quando isso acontece, ele sai à procura de outra mais adequada.
Fico pensando nesta história através de outro prisma - o da Psicanálise.
Estas conchas, que são deixadas, referem-se às histórias ou estórias e mitos que, muitas vezes, delas nos apropriamos para “morarmos” e que vão deixando de ser confortáveis a partir do momento em que crescemos (a todo momento).
Estamos sempre a procura de um lugar onde possamos ser proprietários ou donos, mesmo que isso “passe” com nosso desenvolvimento/crescimento.
Estamos sempre a procura de abrigo, de proteção, de colo, em última análise, de um útero, onde possamos nos sentir protegidos e satisfeitos.
Esta procura torna-se um tanto quanto impossível a partir do momento em que nascemos (perdemos o lugar original). E lidar com esta falta é o que angustia e também o que nos move nesta busca eterna e não possível.
Ora nos agarramos em pessoas que supomos que possam dar aquilo que não possuem, ora nos alojamos em idéias e fantasmas que nos dão uma falsa segurança de satisfação.
Assim, como o Ermitão, estamos sempre a procura de um “lugar” há muito já perdido e não possível de ser reencontrado.
Apesar desta não possibilidade temos que continuar nossa peregrinação em busca de um conforto - psíquico. Achando, aproveitando e deixando para que novas “conchas” nos abriguem até chegar o momento de acharmos outras e outras…
Assim é o desejo. Nunca é satisfeito plenamente, sempre há uma lacuna a (não) ser preenchida para que possamos continuar desejando outras coisas. Essas falta é que nos impulsiona.
Somos todos Bernardos Ermitões a procura de um lugar seguro dentro ou fora de nós memos.
Façamos como ele. Procurar e não achar nunca o perfeito… e nesta não possibilidade sermos felizes pelos achados efêmeros e necessários.
METADE - Contos Crônicas - Ricardo Mardegam Edições Burity Setembro 2004


maria comenta:
1 Agosto, 2008 @ 16:08
olá
Adorei o texto. É muito interessante e com uma desenvoltura literária bastante grande. parabéns.
Onde encontro os livros dele?
att
maria
arnaldo comenta:
16 Outubro, 2008 @ 15:17
gostei muito do texto e acredito que somos assim mesmo.
gostaria de mais coisas dele aí no site.
um forte abraco
arnaldinho