Mai
25

Contos do Bié - Primeiro dia de aula

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

 

       Infelizmente, teve início o ano letivo. Agora teria que ficar quatro horas longe da Rua das Almas e seus arredores
Livre como os pássaros, descalço corria ao vento, o sol a me castigar o rosto; cabelos soltos,  a mente a sonhar com as alturas  que  as aves povoam. A inocência ainda morava em mim, mas também a solidão e as incertezas, eternas companheiras, que dia e noite me assaltavam o espírito inquiridor, e eu queria saber a razão de tanta saudade a me apertar o peito, alma ingênua a pesquisar o espaço, não à procura de astros desconhecidos ou de artefatos pelo homem fabricados, mas à busca da resposta de Deus para o castigo impingido a nossos pais Adão e Eva. Eu queria voar e, mais que isso, conviver com as onças e cobras, falar e cantar com os pássaros, enfim, viver em harmonia com a natureza que nos cercava e com as pessoas com quem convivíamos.
 Aquelas quatro horas no grupo escolar eram um tempo longo e precioso para mim, que iria ficar privado de ir admirar o majestoso coqueiro no vale do sítio de Seu Landim.
        Eu descia pelo caminho do cemitério, passava ao lado da Fonte das Três Bicas, subia a ladeira e chegava à divisa com o vale. À beira da cerca, os braços cruzados e apoiados no arame, aí ficava a ver os movimentos das folhas da majestosa palmeira. Como que tocadas por mãos invisíveis, balançavam para lá e para cá, lenta e suavemente, como se obedecessem à batuta de um maestro.
        Perpassava como que uma doce melodia, que me enchia de gozo  e me fazia experimentar  uma paz difícil de explicar..  Eu simplesmente sorria. Sorriso que vinha lá de dentro, mansamente, do fundo de mim, e que me fazia tão bem…        

 Vinha o crepúsculo, rápido intervalo entre o dia que declina e a noite que se avizinha, quando a natureza, no estertor de suas forças derradeiras, tudo faz para mostrar sua exuberância e graça. É como o homem a se despedir da movimentada e alegre juventude a caminho de outra etapa da vida. Chora e lamenta a claridade que fenece, temor da noite e seus mistérios. É a vida que passa…
        Vinha a brisa por sobre as grimpas dos arvoredos, afagando-os manhosamente, trazendo consigo, como a lhes dar carona, os sons das badaladas do sino da igreja. Era o momento do “Ângelus”. Quando dava conta de mim, estava, no meu íntimo, a rezar a Ave-Maria, tantos os murmúrios e lamentos da tarde que se despedia.
                                            
                ___________________                                             

        O horário das aulas era do meio dia às quatro da tarde, mas tínhamos que estar presentes pelos menos dez minutos antes de o inspetor escolar, seu Manoel Lalanda, tocar a sineta, pendurada do teto da ampla varanda em forma de U, que dava para a clarabóia. O grupo dispunha de inúmeras salas de aula, portas e janelas enormes, pátio coberto, e área gramada e arborizada. No recreio, às duas horas, nos espalhávamos pelo pátio e a área gramada, e brincávamos a valer, uma gritaria sem fim, a dar um toque todo especial ao ambiente de seriedade que caracterizava o estabelecimento, por muitos chamados de “sabão preto”, por ser pobre e descalça a maioria dos alunos, cujo uniforme, doado pela “caixa”, era de brim cáqui, e a merenda, com a qual nos regalávamos, feita pelas próprias professoras, que consistia de mingau de fubá com leite, adoçado com rapadura. Já os alunos da Escola Normal, os “sabonetes”, uniforme azul e branco, sempre bem calçados, traziam a merenda de casa, ou compravam as quitandas ali mesmo, no pátio da escola, quando se deliciavam com os famosos pastéis da Chana “quente”, os doces de canudo de Mariinha de Clarimundo, os pés-de-moleque e brevidade de Sa Maria, quando não os biscoitos de farinha e de goma de Sa Mariquinha Victor, tudo de dar água na boca.
        Só que o prédio da Escola Normal não ostentava a mesma galhardia e imponência que o do grupo em que eu estudava, e já apresentava sinais de cansaço.   Tanto assim, não levou muito tempo seus alunos precisaram de se incorporar aos do “sabão preto”, que recebeu os “sabonetes” de braços abertos. Nesta fusão, o resultado foi o surgimento de novas e duradouras amizades, e até casamentos, de que resultaram inúmeras gerações.
        Total silêncio, ao toque da sineta, e a entrada para o salão de canto e oração se fazia na mais perfeita ordem. Dadas as boas vindas naquele primeiro dia, perfilados no salão, rezávamos três Ave-Marias e entoávamos os hinos cívicos, o “Hino Nacional” e depois do “Hino do Soldado”, em que se diz: “Nós somos da pátria amada, fiéis soldados, por ela amada… Nas cores de nossas fardas rebrilha a glória, surge a vitória…”   Entusiasmo no geral, caras alegres, contentes com a vida!  Na possante voz do diretor, ouvíamos os direitos e deveres dos alunos, que orientados para as respectivas classes ficávamos à espera da professora, e todos, com bons modos e educadamente nos erguíamos das cadeiras à aproximação da mestra. O corpo docente em sua maioria era de professoras. Só havia um professor, Seu José Braga, que naquele período iria lecionar no primeiro ano, que dizia não ser de sua especialidade, pois que estava em vias de tirar licença para tratamento de saúde.
        O primeiro dia era para conhecer melhor os novos colegas, a professora, receber avisos, recomendações e leitura de trechos de livros sobre educação moral e cívica.
        Admirávamos Seu José Braga pelo jeito paternal e carinhoso de lidar conosco.
        Apesar de sua dificuldade em se locomover, era hábito, durante as leituras e nas explanações, andar de um lado para outro entre as carteiras. Vez por outra, parava e ficava a conversar com este ou aquele aluno, sem nunca deixar de fazer considerações sobre os pais ou  parentes da criança, que se sentia deveras  prestigiada  pelo elogio feito  em público.                
        Levávamos apenas um pequeno caderno: “AVANTE”. 
        Nada de mochilas e volumosas pastas de couro. Tudo se resumia num único caderno, em cuja contracapa havia a letra do Hino Nacional e do Hino à Bandeira para serem cantados “de cor e salteado”, tão logo aprendêssemos a ler.  
 Seu José Braga levava somente um livro - “Contos Pátrios”. Era dele e de sua vida de  pai de família honesto, homem honrado e religioso, que tirava a maioria dos assuntos  para as aulas do dia a dia.  Seus causos nos fertilizavam a mente.
        Logo no primeiro dia travei conhecimento com o Lindolfo, meu companheiro de carteira.  Filho de D. Genoveva, senhora humilde e trabalhadora, lavadeira e por demais religiosa, morava nuns quartinhos de meia água com fundos para a chácara de seu Carnot, o carteiro, para os lados da Rua da Bomba de Baixo. Ao fazer a chamada, o professor falou:
        - Lindolfo Justo de Albuquerque!
        - Presente, professor - respondeu, levantando-se.
        Sentado por trás da cátedra, o professor ajeitou os óculos par baixo, no meio do nariz, e, a olhar por cima, esticou os olhos e indagou::
        - Você é justo mesmo? 
        Fez cara de riso - não irônico, mas carinhoso.
   - Pode sentar-se - acrescentou.
        O Lindolfo ficou todo sem jeito.
        Aquela foi a primeira brincadeira que fez, a criançada à vontade, mas  disciplinada e respeitosa. E depois de ler calmamente “Quem tudo quer, tudo perde”, da página 215 do livro “Contos Pátrios”, de Olavo Bilac e Coelho Netto, comparou o que aconteceu com as personagens do conto com o que sucedeu a um seu amigo de caçada. Verdade ou não o que narrou, serviu para nos impressionar e formar nossa mente ainda livre de qualquer maldade.  Certa ocasião – começou - seu amigo de longa data o convidou para ir a uma caçada muito importante, e que iria render a ele, o amigo, fortuna imensa. Não saía da cabeça do caçador ser muito rico um dia, custasse o que custasse. Viajaram um bom tempo a cavalo, e finalmente pararam à borda de grande mata onde o amigo pretendia  levar avante seu intento: matar um urubu-rei, ave de plumagem e bico coloridos, possuída de magia e encantamento.. Em muitos despertava a cobiça; em outros, o medo e arrepio, e dela sempre mantinham distância, pelo receio de serem dominados pela ganância e avareza, e de se envolverem em seus mistérios. A posse de determinada pena, somente uma, daria ao  portador uma sorte sem limites para angariar fortuna, que, de tão grande, a pessoa não precisaria trabalhar nunca, nunca mais.  Mas não imaginara, seu José Braga, que o amigo estivesse à procura de tal ave, pois do contrário não teria aceito o convite para a caçada.    Mas já havia viajado um bom pedaço, e o jeito era deixar o amigo tentar realizar seu projeto, e ele, seu José Braga, se contentou em se distrair a piar nambus, capoeiras, mutuns e outras aves. Ao longe, numa frondosa fruteira, o amigo avistou a cobiçada ave.  Pegou a capanga, conferiu o estoque de munições, examinou a espingarda chumbeira de carregar pela boca, uma de dois canos, “La Porte”; ajeitou o facão na cinta e o chapéu de aba larga; respirou fundo, enchendo o peito; bateu forte nos ombros do amigo José Braga, e, confiante, saiu em direção da valiosa caça. Bem que seu José Braga  ainda tentou,  em vão, dissuadi-lo de seu intento. E lá foi o amigo.  A determinada distância do alvo, bem na mira de sua “chumbeira” estava a ave. E quando o gatilho, preste a disparar o cão sobre a espoleta para o tiro fatal, eis saiu a ave em vôo suave, e pousou adiante, em outra esguia fruteira, mais para dentro da floresta fechada.  Nova caminhada, o tempo a correr célere, e o caçador mais uma vez tem o poder de vida e morte sobre o pássaro que cobiça. Agora, sim, o alvo estava mais próximo, o sol já não lhe ofuscava a visão. Prendeu a respiração, firmou a coronha da chumbeira no ombro, mirou bem, conferiu o alvo, e mais uma vez desapareceu da mira, num planar tranqüilo, aquela que, para ele, o caçador, iria constituir sua redenção financeira. 
        Seu José Braga continuava a piar os nambus e capoeiras, que respondiam longe e, na seqüência de novos pios, iam-se aproximando, até chegar bem perto, à distância de um “tirinho de espingarda”. Bem que teve muitas oportunidades, mas Seu José Braga não disparou um só tiro. Chegou a fazer pontaria. A caça estava na mira. Mas teve dó.  Baixou o cão e não puxou o gatilho. O dia ia morrendo, veio o pôr-do-sol, e o amigo não voltava. Gritou. Disparou a chumbeira para o alto, tocou a corneta de chifre de boi, e nada, nada de o amigo responder.  Sentou-se num monte de folhas secas e ficou a esperar, a esperar o amigo que nunca mais voltou…  O amigo, a mente fixa na fortuna fácil, só queria ir em frente, mata a dentro, levado sem  pressentir pela ave misteriosa. 
- Não quis ouvir os apelos que lhe fiz e os conselhos que lhe dei - desabafou o mestre, que continuou: as pessoas gananciosas, que querem sempre mais, mais e mais, não se importam com amigos, a família. Só pensam em ir em frente, sem olhar para trás, para os lados, nem para o alto, onde Deus está - finalizou.
       Com o toque da sineta para o fim da aula, mandou que todos se levantassem, e, em ordem, nos dirigíssemos para o salão de canto.  Não levamos nenhuma tarefa para casa. Nada de mochilas volumosas. Nada de montes de livros e cadernos.  A grande tarefa era não ser ganancioso, ouvir os amigos e se  lembrar de Deus.

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5 Comentários »

  1. geiza nazareth aguilar de aquino comenta:

    25 Maio, 2008 @ 10:28

    “Primeiro dia de aula”, do Bié, me fez lembrar quando aluna do Colégio Salesiano em Corumbá, Mato-Grosso do Sul, ao se aproximar a Irmã Diretora, ficávamos em pé como sinal de reverência e respeito. Que saudade!!! Hoje, na cidade grande de Campinas, SP, com neto estudando no Liceu Salesiano N.Sra.Auxiliadora, observo que muita coisa mudou…
    Sempre leio os Contos do Bié, tenho grande admiração por êle.

  2. geiza nazareth aguilar de aquino comenta:

    25 Maio, 2008 @ 10:48

    Sempre leio os Contos do Bié.
    “Primeiro dia de aula” bateu uma danada saudade do Colégio das Irmãs Salesianas de Corumbá, Mato-Grosso do Sul, onde estudei.
    Parabéns Bié.
    Geiza N. A. Aquino

  3. Eneida Tagliolatto Pires comenta:

    25 Maio, 2008 @ 13:48

    Ao ler o seu conto lembrei-me do meu primeiro dia de aula no “Grupo Escolar Francisco Glicério”. Quando minha mãe me pegou na saída da escola, eu desabei num pranto terrível e disse que não queria mais estudar. Minha mãe me perguntou o porquê, e eu simplesmente respondi que a professora era muito brava, que gritou muito. Realmente Dona Odila Santucci era muito brava, e causou-me um medo que custou muito a passar.
    Mas o Grupo Escolar Francisco Glicério, tem uma importância muito grande na vida de minha família; meu pai, meu irmão e eu estudamos lá. Doces recordações…
    Eneida Tagliolatto

  4. neusa comenta:

    25 Maio, 2008 @ 17:15

    Grupo Escolar José Candido, em Araçatuba, quanta insegurança, quanta timidês, quanto medo de não conseguir aprender. Lá se vão tantos anos!!!! Bié vs. me levou de volta ao passado que parece que foi um sonho!!!! abs. neusa

  5. Silvia Trevisani comenta:

    26 Maio, 2008 @ 07:05

    Olá amigo-prosador Bié…

    Pude vê-lo menino correndo pelas pradarias, e pelos pátios da escola. De rosto suado, cabelos desalinhados e coração saltitante de alegria. O menino Bié conseguiu superar o tempo. O tempo passou, mas as tripulias do menino Bié permanece iluminando o seu coração azul.

    Bié, como se não bastasse todas as outras razões para admirá-lo, diria que sua escrita me cativa à alma de uma forma especial.

    Parabéns por representar através das palavras, outro significado da ” Felicidade”.
    Poetisa Silvia Trevisani

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