Mai
20

Contos da Eneida - As Bonecas de Angélica

Categoria(s): Contos e Poemas


Emoções

Colaboradora: Eneida Tagliolatto *

* Poetisa Paulista

“AS BONECAS DE ANGÉLICA”

Angélica pára de fazer crochê, seus dedos estão um pouco doloridos. Olha para o alto e visualiza um pequeno pedaço do céu, aquele pedaço que lhe é permitido ver através da janela de seu quarto. Fica um tempo olhando, observa que tem nuvens embaçando o azul. Dá um impulso com o corpo e a cadeira de balanço geme parecendo que tem a mesma idade de Angélica, idade avançada. Agora ela fecha os olhos por uns instantes, mas sua neta mais nova, uma pré-adolescente, que ainda brinca de casinha, a chama mostrando a nova boneca que ganhou da madrinha.
_ Olha vó, que coisa mais linda, ela fala mamãe, papai, escorre lágrima de seus olhos, faz xixi; é só apertar esse botão aqui debaixo do vestido. Não parece um nenê de verdade, vó?
Angélica pega a boneca e diz: - É mesmo, como o mundo está avançado, acho que logo as bonecas serão robôs que obedecerão as ordens reconhecidas pela voz de sua dona. A jovenzinha pega a boneca de volta e sai correndo. Angélica novamente olha para o céu, só que agora não enxerga nada, porque seus pensamentos a impedem, tanta é a sua volta ao tempo.
Primeiro ela lembra das bonequinhas que sempre que podia sua mãe comprava na loja “Americanas”. Eram pequeninas, de plástico cor-de-rosa e teve uma vez que a mãe comprou uma pretinha. Elas eram tão pequenas, tão magrinhas, no máximo teriam uns dez centímetros de comprimento. Moviam os bracinhos e as perninhas e vinham sem roupas.
Angélica esboça um leve sorriso ao lembrar-se das roupas que fazia com retalhos de tecido que a mãe lhe dava. Era só fazer dois buracos para passar os braços, só que nunca saiam do mesmo tamanho. Era aberto nas costas, e Angélica fazia um buraco em um dos lados e no outro pregava um botão. Bastava isso e estava pronta a roupa.
Angélica continua com os olhos fechados e seus lábios ainda demonstram a satisfação que essa lembrança lhe trás. Segundos após seu pescoço dá um alerta que ela está começando um cochilo. Mais que depressa Angélica abre os olhos e os arregala bem, pensando que assim terá certeza de não pegar no sono. Olha para o trabalho de crochê em seu colo, nota que a agulha e o novelo de linha estão no chão, abaixa-se, pega-os e em seguida guarda tudo na sacola de costume e deixa ali mesmo aos seus pés.
Deixa seu olhar se perder no infinito e retorna às suas recordações. Uma única recordação ficou dos seus quatro anos; a festa do seu aniversário. Seus pais compraram de presente para ela, um bonecão feito de papel amassado, pintado de cor-de-rosa e com roupa de papel crepom na mesma cor, somente um pouco mais escuro. Ela apaixonou-se imediatamente por esse boneco, que apesar de estar de vestido, ela achava que era menino.  Ela intitulou-o de bonecão.
Na festa que sua mãe lhe preparou, não faltou nenhuma das meninas ali da quadra onde morava e de menino, só mesmo dois: o Nêgo e o Carlinhos.
Depois de saciarem-se de bolo, docinhos e refresco de groselha, partiram para as brincadeiras. Magali uma das filhas de dona Carminha, pegou o boneco, saiu com os braços para o alto e fez com que todos os demais fizessem uma fila indiana, e a acompanhassem.
Novamente os lábios de Angélica esboçam um sorriso. Que recordação boa essa…
O trenzinho puxado pela Magali foi a todo vapor pelo corredor, entrando num quarto, saindo, entrando no outro e assim pela casa toda. E o boneco feito um estandarte abria o espaço, para passarem, e as mães dando boas risadas dessa invenção da Magali.
Bem, esse boneco não durou muito. Logo no primeiro banho já perdeu a cor, deixando a água na bacia, toda cor-de-rosa. Mais um banho e desmanchou-se, e lá foi todo o papel para o lixo, deixando a tristeza no semblante de Angélica, que hoje ao recordar, seu olhar deixa transparecer uma leve névoa.
Angélica balança a cabeça como a espantar a nostalgia, ajeita uma almofada nas costas e volta  ao passado. Agora é a lembrança de sua segunda boneca.
Essa chegara no natal em que Angélica tinha sete anos. Era linda, tinha cabelos louros, divididos ao meio e duas tranças amarradas por uma fita rosa. Na testa uma franja encaracolada. O vestido era de organza também rosa, enfeitado com rendinhas branca. Uma fita mais larga que a das tranças, envolvia a cintura, terminando num lindo laço nas costas. Sapatos pretos e meias brancas encerravam a toalete.
Uma coisa que deixara Angélica tão emocionada ao pegar a boneca que Papai-Noel deixara debaixo da cama, foi quando fez um movimento para ver se os olhos fechavam e a boneca soltou um gemido como choro.
Agora a Angélica que está sentada na cadeira de balanço sorri ao lembrar o quanto ficara espantada e como olhara para a mãe como a perguntar: “O que foi isso?” E lembra-se do sorriso da mãe que lhe aponta para algo que não coubera debaixo da cama… Um carrinho de bebê feito de vime.
Essa também não durou muito. Era de louça e quebrou-se ao cair no chão. Tempos depois, quando não acreditava mais em Papai-Noel, a mãe conta-lhe que a boneca tinha um defeito, por isso que eles puderam comprá-la. Essa boneca fora comprada na seção de refugos da fábrica de brinquedos “Estrela”, lá em São Paulo. Nem vestido tinha, quem fizera aquele que ela trajava fora uma vizinha. Quando a mãe lhe conta isso, Angélica recorda-se desse dia na fábrica de brinquedos, só não se lembra da compra, tão bem seus pais tinham disfarçado o pacote.
Agora Angélica lembra-se da terceira e última boneca que possuíra. Tinha nove anos quando sua mãe fica sabendo que uma senhora que morava na rua Barão de Jaguara, queria vender uma boneca de segunda mão, pois a filha ganhara uma muito chique. Angélica foi junto com a mãe para fazer a tal compra, e a alegria era tanta que ia pulando na frente. A mãe compra a boneca. Não chega nem aos pés da outra; tem o corpo de pano bem encardido de tanto manuseio pela antiga dona, a cabeça, os braços e pernas são de louça, também com uma cor que não agradava. Não tinha cabelos e logo ganhou o nome de Beto, porque Angélica achou-a com cara de menino. Foi a boneca que Angélica mais brincou. Nunca lhe deu banho, tanto era o medo de que estragasse mais. E roupa também nunca teve. Vivia enrolado em panos que a mãe de vez em quando lhe dava, quando algum lençol rasgava. Mas Angélica foi muito feliz com Beto.
Angélica fecha os olhos e pensa consigo mesma: “Só ficou me faltando ter uma daquelas bonecas feitas de pano, bem magrinhas, mas tão perfeitas e luxuosamente vestidas com roupas de veludo e enfeites dourados, que aquela moça da rua Francisco Glicério fazia para vender. Fiquei só com a vontade de possuir uma, mas como, eram muito caras, e meus pais não tinham dinheiro para comprar. Acho que se eu tivesse uma daquelas bonecas, certamente estariam nesse momento em minhas mãos…  Eram lindas demais!”
Nesse momento sua neta entra no quarto, pára por uns instantes, olha para trás, faz sinal para a mãe, que viesse. A mãe se aproxima bem devagar porque percebe que não é para fazer barulho, pois sua filha está com o dedo indicador colado na boca em sinal de silêncio.
- Psiu, mãe! A vovó está dormindo, mas olha que engraçado, ela está sorrindo.
- Está sim, minha filha. Decerto minha mãe deve estar sonhando com suas recordações felizes. Coisas que ela viveu e que ficaram em sua memória. Coisas que não voltarão nunca mais…
- Venha querida, deixe sua vó sonhar e ser feliz com seus sonhos.

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