Mai
18

Contos do Bié - O tatu

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

D. Georgina, a servente, assomou à porta, pediu licença e entrou para colocar na parte frontal do quadro negro monte de folhas de cartolina com gravuras. Ao entrar, nos levantamos, mas ao sinal do mestre nos sentamos novamente. À sua saída, outra vez nos colocamos de pé, ao que ela agradeceu, inclinando discretamente a cabeça. Logo nos acomodamos, o mestre se dirigiu para o quadro negro.
Cada folha trazia a figura de um animal com legendas explicativas. Servindo-se de uma varinha, o mestre apontava para a figura, lia calmamente e acrescentava alguns comentários sobre o animal. Falou sobre o cavalo, o cachorro, o boi e outros animais domésticos. Veio depois a série de animais silvestres, e o primeiro a aparecer foi um tatu.
Quando vimos a figura do bichinho, eu e o Lindolfo, meu companheiro de carteira, arregalamos os olhos e demos um “cutucão” um no outro. O mestre, que parecia alheio ao que se passava na classe, percebeu logo nossa reação ao aparecimento da figura do animalzinho. Mas nada disse, porém ficou atento à nossa curiosidade sobre o que discorria a respeito do pequeno bicho. Depois de muito falar, chegou afinal ao ponto em que iria abordar o regime alimentar da criaturinha, o número de crias e o tempo de gestação. Fizemos, eu e o Lindolfo, ao mesmo tempo e afobados, uma saraivada de perguntas.
- Um de cada vez! - recomendou o mestre.
Antes de responder às nossas perguntas, o rosto cansado mostrando um tênue sorriso, e batendo de leve com a varinha em nossa carteira, como a fazer do gesto uma forma de criar saudável intimidade, principiou::
- Vejo que minha percepção ainda está funcionando bem. Pensei que eu já fosse uma “bananeira que já deu cacho”, porém sinto que minha intuição está melhor que nunca. Vocês dois aí - e apontou a varinha em nossa direção - acabam de me deixar muito contente!
A princípio imaginamos que tivéssemos sido imprudentes, indisciplinados e mal “procedidos”, mas quando o mestre afirmou que o havíamos deixado contente, recobramos o ânimo, mas sem entender o porquê daquela observação.
- Vejam só - retomou - logo que apresentei a figura deste bichinho, os únicos que tiveram reação diferente de todo o restante da classe foram vocês dois. que não disseram uma só palavra, mas vi nos seus olhos, e na contração de seus rostos, que algo de especial lhes chamou a atenção. Tive dúvida, mas fiquei atento. Agora, com as perguntas que acabam de fazer, os dois ao mesmo tempo, vejo que eu estava certo em minhas observações. Minha cabeça anda boa, e vocês muito me ajudaram a chegar a esta feliz conclusão. Isto é muito bom para uma pessoa na minha idade.
Na verdade o mestre talvez tivesse no máximo uns quarenta e cinco anos, ou até menos. Foram as estripulias que lhe minaram a saúde, segundo sua humilde confissão.
-Vamos! Que desejam saber? - paciente, falou o Mestre. - Ele come feijão e arroz cozidos, casca de batata, banana, massa de fazer quitanda? Perguntei rápido e afobado, quase a me levantar da carteira, como se meu gesto ajudasse o mestre a entender melhor minhas perguntas.
A gargalhada na classe foi geral, com exceção do Lindolfo, que procurava me ajudar nas perguntas, a olhar sério para mim, a voz presa na garganta, doidinho para dizer alguma coisa.
-Silêncio! - falou o mestre.
Podia-se ouvir o cantar dos bem-te-vis lá fora nas árvores da rua, tal o silêncio que se seguiu à ordem do mestre.
- O Arcanjo tem razão - ele me chamava de Arcanjo - sua curiosidade tem fundamento. Vamos que um dia queira criar um tatu, e não saiba como alimentá-lo. Pois fiquem sabendo que este bicho, inofensivo ao homem, come de tudo, desde raízes, frutas, ovos, até feijão e arroz cozidos. Há uma espécie, chamada “canastra”, que dizem se alimenta também de carniça.
Diante de nossa inquietação e do claro interesse pelo assunto, indagou sobre o que mais queríamos saber.
-Ele dá filhotes, mestre? Falei ligeiro e sem receio.
-Ele, não. Ela, sim. Dá no máximo duas crias em cada gestação, que dura mais ou menos quatro meses. O normal é uma cria por vez.
-E como faz para “ela” dar o filhote?
-Isto são segredos de Deus e da mãe natureza, menino. “Vamos devagar com o andor, que o santo é de barro”.
Olhei de soslaio para Lindolfo, que parecia já adivinhar meus pensamentos. Cochichamos, um cochicho animado. “E se o tatu da despensa desse cria?” Neste caso ele tinha que ser “ela”. Para nós o problema era este: ele ser “ela”, e descobrir quem era a tal “mãe natureza” a que o mestre se referira.
Via-se que o mestre estava encafifado diante de nossa curiosidade, enquanto o restante da classe se mostrava apática e sem nenhuma motivação a respeito dos hábitos do tatu.
- Digam-me uma coisa, vocês dois - falou o mestre - abeirando-se da nossa carteira - o que os leva a ter tanto interesse no sistema de vida deste bicho? Estou surpreso e curioso, pois em todo o meu tempo de magistério nunca, nunca mesmo, que eu me lembre, aluno algum mostrou tanto interesse pelo modo como vive este animalzinho. Agora quem está curioso sou eu. Vamos, digam o que os leva a fazer tantas perguntas?
Fiquei à vontade e me senti no centro das atenções da classe e do paternal mestre. Não sabia por onde começar. Nervoso, entrelaçava as mãos uma na outra, cruzava e descruzava as pernas, procurando melhor posição para me acomodar na carteira, àquela altura já pequena demais para comportar a mim e o Lindolfo.
Fiquei como que acuado! Começar por onde? Mirava o mestre, depois o forro da imensa sala de aula, que parecia vir abaixo. Dirigia o olhar em direção às imensas janelas escancaradas, e divisava a verdejante mata da chapada. Minha emoção não tinha limites, e um mundo de recordações me invadiu por inteiro, desde a noite do aparecimento do tatu até sua fuga e o retorno à despensa, quando revirou a gamela de massa.
Era muito para mim. E o mestre, pacientemente, ficou a me olhar como que das alturas. Parecia um homem de todo tamanho, bem alto, que dava para alcançar o teto da enorme sala. Mas um gesto seu fez que sua estatura fosse diminuindo, diminuindo… até voltar ao tamanho normal, e, por incrível que pareça, se nivelasse à minha insignificante estatura de criança, criança ingênua ainda envolta nos sagrados mistérios da concepção da vida.
Foi quando, colocando mansa e calmamente a mão em meu ombro, pediu, quase sussurrando, que contasse, só para ele, se eu quisesse, aquilo que considerava fosse um segredo. De tal modo agiu, que o encarei como se meu velho amigo e companheiro fosse, e o nó se desatou de minha garganta. Disparei a falar, um tagarela!
- Uma noite fui dormir na casa de sa Maria, mulher de Seu Virgolino, o barbeiro. O senhor sabe, né? A mãe de Nicanor - o sapateiro –; de Biléu - o alfaiate -; de Isaltina e de Salatiel, aquele que deixou o seminário e foi trabalhar em São Paulo.
- Sei, sei - falava o professor e abanava a cabeça - vamos, está interessante, continue!
Fiz uma pausa, sem atinar como chegar ao momento do aparecimento do tatu. Minhas mãos não paravam, como a buscar, com os dedos, uns a segurar os outros, a explicação para a continuidade da narrativa. O mestre, já acomodado numa cadeira rente à carteira, sem pressa limpava os óculos, mas atento ao que eu contava.
- Então – prossegui - já era tarde da noite, quando Biléu apareceu no meu quarto com um tatu vivinho “da silva”, e me deu um susto danado. De início fiquei aborrecido com ele, mas depois me acalmei e fomos prender o bicho debaixo de um grande pilão na despensa, onde ele fez um buraco e está morando nele até hoje…
- Que caso interessante, seu “Arcanjo”… - falou o mestre.
Deu um suspiro profundo, ajeitou-se na cadeira, e continuou:
- E o que tem o Lindolfo a ver com essa história?
Antes que eu respondesse, o Lindolfo tomou a frente e foi logo dizendo:
-O Zé Balão me levou lá e eu vi a casa do tatu, que toda noite sai para comer os trens colocados à beira do buraco que ele fez. Ele ou ela… Eu não sei - corrigiu o Lindolfo.
O mestre meneou a cabeça, incrédulo com aquela coisera toda. Levantou-se da cadeira, foi até a mesa, colocou um comprimido na boca e o tomou com um copo dágua. Voltando-se para mim, compenetrado, indagou:
- Quando foi que o puseram debaixo do pilão, faz muito tempo?
- Foi uns dias antes da procissão de São Sebastião.
- E o que você e o pessoal do…
- Seu Virgolino! - apressei-me em falar.
- Sim, o que o pessoal de Seu Virgolino pretende fazer com o bichinho, ou bichinha?
Quando demonstrou não saber ao certo se era bichinho ou bichinha, me deu um frio, e um redemoinho de incertezas me envolveu o espírito. Mas fui sincero em minha resposta. Tinha que ser honesto. Nada de mentiras ou subterfúgios.
- Estamos tentando pegar à noite - preferi deixar o sexo indefinido - quando sair para comer. Vamos matar e fazer um bom guisado.
A classe caiu na risada! Menos o mestre, que ponderou:
-Tatu tem carne saborosa. Digo isso porque já provei inúmeras vezes. Parece carne de frango, e é muito sadia. Vocês - referindo-se a mim e à família de seu Virgolino - não vão fazer, até certo ponto, nada de mal, porque vão aproveitar a carne para comer. Só que existe um porém. O bichinho está preso, não tem como se defender, correr para escapar da morte.
O certo seria soltá-lo no meio do mato ou do pasto, deixar que faça lá sua casa, e, depois, sim, ser caçado por vocês. É diferente quando o caçamos ao ar livre, onde tem espaço para correr e fugir da perseguição. Matá-lo ali na despensa não é justo. Não é mesmo Lindolfo?
O Lindolfo ficou vermelho e desajeitado, sem saber o que falar e para onde olhar Minha vontade de fazer um guisado do bichinho se desfez como um montículo de areia à passagem do vento forte. Passei a ter pena dele, e não sabia como transmitir a Biléu e Seu Virgolino a mudança de minha atitude, tal o receio de desagradá-los e cair na antipatia deles. Sá Maria e Isaltina ficariam do meu lado, pois desde o início eram contra sacrificar o indefeso fuçador.
Fez-se silêncio na classe e foi o mestre que nos tirou daquela situação incômoda. Desajeitado, levantou-se da cadeira e se dirigiu para a mesa. Mais que depressa eu o Lindolfo,eu de um lado e ele de outro, pegamos a cadeira e a levamos até seu lugar de costume, para que o mestre se acomodasse, que, surpreso e sensibilizado, respirou fundo e falou solene:
-Tenho plena convicção de que nenhum de vocês dois tem coragem de sacrificar o pobre bicho indefeso. Vocês são de bom coração.

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