Mai
04

Contos do Bié - Fazendo um caixão em casa

Categoria(s): Contos e Poemas, Gerontologia


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Falecera um roceiro, cuja morada situava nas bandas da Fazenda Gangorra.
Entrante a noite, parentes e amigos do morto se achavam na marcenaria onde meu pai trabalhava, modo encomendar o caixão para o sepultamento. Meu pai, receoso de permanecer sozinho, e de noite, na tenda a forrar o caixão, deu de levar para casa a armação de madeira, os panos e outros acessórios para o acabamento. Diante do inesperado, apossou-se de mim um medo desmesurado, e não me deu ânimo de permanecer em casa e ficar a presenciar sua lida com a peça funerária! O jeito foi pedir a Sa Maria que deixasse eu passar a noite em sua casa, do que não fez questão, ajeitando-me a cama no quarto de um de seus filhos, Biléu.
O tal Biléu era competente e habilidoso alfaiate, vestia-se bem, mas sistemático e carrancudo. Quase não sorria e não dispensava um gole. Chegava a casa sempre tarde da noite, ali pelas nove e dez horas.
Após me servir café com leite e quitandas, Sa Maria inventou de recitar o “Ato de contrição e bom propósito”, lendo-o uma, duas, três e mais vezes, vagarosamente, para que eu decorasse aquela latada confusa e complicada. Senti-me contente por se tratar de uma reza nova para mim. À primeira vista me pareceu mais fácil do que a Salve Rainha. “Quem sabe? - assuntava comigo - me acalmaria o espírito e me deixaria feliz e livre de maus pensamentos”. Ânimo no geral, aquela alegria solta, esparramosa, eu me tornando mais íntimo de Deus.
- Preste atenção! – insistia ela - vou ler mais uma vez: “Ó meu Deus, reconheço o triste estado de minha alma. Pequei, Senhor, pequei muitas vezes. Quanto vos fui ingrato, quanto vos ofendi. Tornei-me abominável aos vossos olhos por minha culpa, por minha tão grande culpa. Onde estaria eu agora, se tivesse morrido em meus pecados? No fogo do purgatório, ou talvez nas chamas do inferno. Que grande mal, ó meu Deus, é o pecado, que castigais eternamente pela Vossa divina justiça. Perdoai-me e não me castigueis conforme o rigor de Vossa justiça”.
- Vamos parar por aqui. Agora é a Salve-Rainha – arrematou.
Rezou a Salve Rainha repetidas vezes e mandou que eu a recitasse.
Eu ia indo muito bem, mas ao chegar no trecho em que aparecia a expressão “os degredados filhos de Eva”, aí a coisa ficava feia e eu empacava.
A principio tinha paciência comigo, mas depois de fracassadas tentativas zangava-se, mostrava-se brava mesmo, a dizer que eu trazia o diabo no corpo, me tentando modo eu não aprender a oração da santa Mãe de Deus. Vinha-me um grande pavor, e naquele instante eu preferiria ter ficado em casa, apesar da presença do caixão de defunto. O trecho me despertava lembranças e comparações. Os degredados me lembravam os agregados, e eu ia em pensamentos às roças por onde sempre andava, solto e livre de amarras de qualquer espécie, a viver a vida em pleno viço e sem me preocupar com os pecados de Adão de Eva. Via, paupérrimos, vestidos de trapos rotos, a vegetar em míseras choupanas, os agregados dos fazendeiros, que eu imaginava serem os filhos de Eva. “E ela, Eva, onde estaria?”
Ela quase bradou comigo, e me trouxe de volta, de volta para o meu pequeno e estreito mundo, mundo povoado de demônios e pecados, o mundo da Rua das Almas!
Passava das oito da noite, hora de ir para a cama.
Na cozinha de chão batido, sentado no aterro do fogão de lenha, lavei os pés numa bacia de água temperada, enxuguei-os num trapo e fui para o quarto. Acompanhou-me até a porta e ficou ali, a lamparina acesa até que me deitasse. Chegou até o meio do quarto, iluminou um dos quadros dos inúmeros santos que ali havia, benzeu-se e eu também. Falou boa noite e cerrou a porta.
Os degredados não me saíam da mente, por mais esforço que eu fizesse para afastá-los.
A qualquer movimento, as palhas do colchão rumorejavam de dar gastura! A custo, mantinha-me imóvel, mas o pulsar do coração, forte e rápido, repercutia em todo meu corpo e nas palhas, que respondiam às batidas e desencadeavam uma serie de estalos, como o crepitar das brasas no fogão de lenha.
Acudiam-me à lembrança as inúmeras figuras trazidas do inferno pelo retratista Dante.
Nem era bom pensar! O coração acelerava cada vez mais, e o suor me corria pelo corpo inteiro, como a levar o medo a todas às suas extremidades. A esperança era que Biléu chegasse logo. Carrancudo, sistemático, bebia um trago, mas eu gostava dele.
Sentidos atentos, respiração reprimida, invadia-me os ouvidos, no profundo silêncio da noite, o trilar dos grilos lá fora, entremeado do latido compassado e desanimado de um vira-latas solitário.. Ficava a imaginar como seria o vira-latas: preto, malhado, branco? Não havia dúvida de que era raquítico, bem miúdo, que o latido assim o revelava. Depois de desenhá-lo em minha mente, fiquei a assuntar em que posição ele se colocava para latir.
E muitos outros sons iam surgindo num desarranjo sem medida, formando uma latomia danada em meus pensamentos, deixando-me como que desentendido, um trem difícil de explicar.
E o medo mais e mais se agigantava! E assim fui me enveredando por uma enormidade de pensamentos tolos, modo passar o medo.
Por fim, recorri aos santos, cujos quadros pendiam das paredes do quarto, e um deles, São Sebastião, todo cravado de flechas, parecia me segredar: “Você aí tão bem aconchegado nesse colchão de palhas macias, cobertas quentinhas, e se julga infeliz? Olhe quantas flechas me cravaram, as cordas que me amarraram, e estou aqui, de pé, e não me queixo de nada..
.”Ai, meu Deus, perdoe-me se estou pecando. Sou um ingrato, e amanhã pode dar-me o castigo que quiser, mas agora de noite faça com que eu durma…”.
Teve hora que mal conseguia balbuciar as preces, e no redemoinho de tantos pensamentos, ruídos quase imperceptíveis foram-se fazendo ouvir, e parecia vir de um dos cantos do próprio quarto.
Depois, como que estivessem bem perto de mim, vi, com escancarada nitidez, à minha frente, do lado da porta entreaberta, uma serpente de muitos rabos a querer soltar-se das mãos de um dos capetas em pose nos retratos tirados pelo Dante. Na outra mão ele portava uma espécie de ferro em brasa! Fazia cara de riso, a comprazer-se com a maldade que fazia ao apertar com força a cintura da serpente. Alargando o riso, chegando sempre mais para junto da cama, tinha a firme intenção de jogar a serpente em mim! Soltei um tremendo grito, que ecoou pela casa inteira, ouvido até pela vizinha da casa de cima, D. Mafalda de Seu Antero Trigueiro!
- Que foi? - chegou de pronto Sa Maria, seguida de Seu Virgolino.
Com a lamparina à altura dos olhos, iluminou o quarto todo e, virando-se para o filho, perguntou:
- Que é isso, Biléu?
- Um tatu! - respondeu, sorrindo.
Biléu, na vinda para casa, pegara um tatu rabo mole à saída do bambual, às margens da Rua do Funda, na periferia da cidade, e quis me passar um susto. Dirigiu-se para o quarto, segurando com uma das mãos o tatu pelo meio da barriga, que se esperneava todo; e com a outra mão alumiava o quarto com o candeeiro. Para minha mente povoada de serpentes e demônios, Biléu era o próprio, e o pobre bichinho se me apresentou como a grande serpente de muitos rabos. A bruxuleante chama do candeeiro se transformara no ferro em brasa portado pelo espírito do mal!
Passado o susto, nos encaminhamos para a despensa de chão batido, colocando o tatu debaixo de um grande pilão usado para pilar arroz, café e preparo de paçoca de amendoim com rapadura.

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