Abr
27

Contos do Bié - Seu Nagib

Categoria(s): Contos e Poemas


 Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

SEU NAGIB.
Dos estrangeiros que havia na cidade,
Seu Nagib era um deles.
Já passava dos setenta anos, mas bem disposto, forte
feito um touro.
Sempre de terno e gravata, além do costumeiro colete.
Só teve três filhos, homens. Todos fizeram avançados
estudos na Capital, e por lá ficaram.
Sua venda de ferragens e armarinhos; secos e molhados
situava numa das ruas principais bem ali no que chamávamos de Largo da
Igreja.
O estabelecimento, de muitas portas, daquelas de duas
bandas que se abrem em par, via-se em constante ebulição, pois até
ferraduras ali se vendiam, e os animais eram ferrados no pátio dos
fundos da propriedade.
Casou-se com moça do lugar, e parecia um dos nossos, tal
a sua participação nos acontecidos do cotidiano da cidade.
Havia um senão.
Era, como se dizia, cristão ortodoxo, e não freqüentava
nenhuma liturgia na igreja local, cuja presença formal se restringia
aos eventos ditos sociais, casamentos e passagens fúnebres.
De tempos em tempos viajava à Capital, onde, diziam,
participava dos ritos da religião de seu povo.
Mas não era motivo para a inexistência de um bom
relacionamento com o vigário, cujas obras sociais e religiosas
contavam sempre com as generosas contribuições do respeitável libanês.
Entretanto, no sermão da “Descida da Cruz”, o Largo da
Igreja lotado de fiéis, o vigário desandou em terríveis ataques ao
“ganancioso do sangue de Cristo”, referindo-se com todas as letras ao
comunicativo negociante.
Tudo porque na Sexta-Feira Santa ele atendera alguns
roceiros, que vieram de grotas distantes para o rito sagrado. E ali na
venda, apenas meia porta entreaberta, cerrada, como se costuma dizer,
fizeram umas compras de nada, e daí a pouco Seu Nagib já se recolhia,
feliz pelo atendimento àquelas simplórias criaturas.
Apesar do pesado das palavras, Seu Nagib não mudou de cara.
Continuou na lida como se nada tivesse acontecido. Trazia consigo uma
tristeza, a de ter perdido a amizade do vigário.
Percebeu, com o correr dos dias, que os freguês rareavam, mas
não a ponto de causar um baque danoso às finanças do estabelecimento.
Num domingo de importante celebração litúrgica os fiéis se
surpreenderam com a sua presença inesperada à missa daquele dia.
À hora do sermão, no momento em que o vigário vinha do altar
em direção ao púlpito, que ficava num dos lados da nave da igreja, Seu
Nagib se adiantou e escalou as escadinhas em direção ao que também
poderíamos chamar de parlatório. Abriu a portinhola, entrou e a fechou
de novo com o trinco.
A igreja como que levitava, e o vigário, tomado de surpresa,
estacou no meio do caminho.
Perdeu a cor e a fala, e inventando tosse e engolindo seco
ficou a esperar pelo que viria após.
- Esta aqui é a bíblia do meu rito, a bíblia da religião do
meu povo, a bíblia que todos nós podemos ler. Não é a que os
católicos, apostólicos e romanos estão proibidos de ler, que pode
levar as pessoas à loucura. Essa também nos leva à loucura, mas à
loucura de Deus, não à loucura dos homens, homens como o Sr. Vigário,
que parece nunca ter tido acesso à passagem do Evangelho em que o
samaritano, originário de um povo odiado e menosprezado, foi quem
acudiu o viajante assaltado e maltratado quase à morte pelos ladrões,
enquanto um levita e também um sacerdote passaram à larga, eis que era
dia de sábado. Digo isso, Senhor Vigário, porque vi naqueles roceiros
a figura do viajante. O lucro que obtive na transação daquela
sexta-feira não chegou a um centésimo do que apuro no meu cotidiano.
Foram coisas simples e de insignificante valor que eles compraram, uns
sortidos de pouca monta: querosene e creolina para a cura dos
machucados de suas criações. Sal para o tempero de suas refeições, e
macarrão para os almoços dos domingos festivos. Não pense que a sua
fala não me trouxe angústia. O Senhor podia ter-se alongado mais e
mais, porém nunca mencionar que dispensava a minha amizade. Para o meu
povo, a amizade é um dom de Deus. De que vale a flauta, por mais
recursos de que disponha, se não puder contar com o sopro do músico?
Assim, a amizade é para o homem como o sopro é para a flauta e os
dedos são para a cítara. Considero-me, de fato, um homem de fortuna, e
a minha maior fortuna são os amigos. O que faria de minha fortuna, se
de amigos eu não dispusesse? Por tudo isso, confesso-lhe, Senhor
Vigário, lamento perder a sua amizade, mas o meu coração permanece
aberto e a minha estima pelo Senhor continuará viva até os fins de
meus dias.
Fechou a bíblia, cerrou os olhos e orou contrito.
O vigário, ainda imobilizado por tudo que ouvira, a
passos lentos e trôpegos retornou ao altar.
Após a consagração, virou-se para a assistência e falou:
- Deste lugar em que estou e até onde o Senhor Nagib se
encontra há uma distância razoável. Daí até a mureta que divide o
átrio sagrado do restante da igreja é a metade do caminho. Que cada um
de nós dois faça o seu trajeto, e o nosso encontro se dará ali, na
mureta onde os fiéis se ajoelham para receber a comunhão.
O vigário principiou por descer as escadas do altar,
enquanto Seu Nagib ia pedindo passagem por entre os fiéis.
Enfim, viam-se frente a frente.
Veio a cena derradeira quando o vigário, acolitado pelo
sacristão, e pegando uma hóstia do Cibório, elevou-a como mandava o
rito, e diz:
- Senhor Nagib, peço-lhe que aceite a minha amizade em
nome de Cristo, cujo corpo agora lhe ofereço.
Era o momento em que todos os fiéis se achavam
ajoelhados em sinal de respeito ao Corpo de Deus.
Como tocados por um só e mesmo pensamento, ergueram-se
em bloco, e num silêncio respeitoso e benzendo-se repetidas vezes,
presenciaram, caso inédito até então, a Primeira Comunhão - no rito
romano - do próspero e prestimoso libanês ortodoxo Nagib Naked Tannus.
Por muito tempo ainda a cidade se perguntaria: quem
converteu quem?

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1 Comentário »

  1. Eneida Tagliolatto Pires comenta:

    27 Abril, 2008 @ 15:31

    Muito bom o seu conto.
    A meu modo de ver as coisas, ali ninguém foi convertido, somente uma demonstração de amor fraternal, onde diferenças religiosas são o que menos importa, porque Deus é um só e todos somos seus filhos, basta que sigamos os dois primeiros mandamentos: Amarás o Senhor teu Deus sobre todas as coisas e amarás a teu próximo como a ti mesmo. Foi isso que os dois fizeram. Uma bela demonstração de amor a Deus e também a seu próximo.
    Eneida

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