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Abr
20
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Contos do Bié - No confessionário
Categoria(s): Gerontologia |
Sabedoria
Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *
* Poeta Mineiro
Cecília. Era este seu nome.
Fomos liberados mais cedo das aulas no grupo escolar, de onde nos dirigimos em fila até à igreja, onde as catequistas e o vigário nos esperavam para a confissão. Alegres e tagarelas como maritacas na fruteira, nossa passagem pela Praça do Coreto e pela Rua da Coletoria do Zé Vieira chamava a atenção das pessoas que se postavam às janelas das casas ou às portas dos negócios e das vendas, despertadas pelo barulho que fazíamos, barulho gostoso de meninos satisfeitos com a vida., que já antegozavam as delícias dos cafés com leite, chocolates e quitandas na manhã da primeira comunhão, tendo a festa por cenário o aprazível parque da “Mãe D’água”.
Antes da confissão era obrigatório recitar, individualmente e em silêncio, o “Ato de contrição e bom propósito”, que, entre tantas outras coisas, dizia: “..Onde estaria eu agora, se tivesse morrido em meus pecados? No fogo do purgatório, ou talvez nas chamas do inferno. Que grande mal, ó meu Deus, é o pecado, que castigais eternamente pela vossa divina justiça….Peza-me no íntimo de minha alma de vos ter ofendido, desprezando os vossos preceitos. Aborreço e detesto o pecado de todo o meu coração. Antes morrer, ó meu Deus, do que ainda pecar…”
Na parte que dizia “antes morrer do que ainda pecar” eu ficava apavorado. O pior que a menor bobagem era considerada pecado. Por isto mesmo eu imaginava que a qualquer hora eu poderia morrer, pois o pecado estava em tudo: no modo de pensar, no comer um pouco mais ou na indisposição para as tarefas de casa e da escola. Ou no acordar mais tarde e na pouca vontade de ir à missa ou freqüentar as intermináveis seções de catecismo,. Tudo isto e mais um elenco de supostas faltas constituíam pecado..
Após recitar o “Ato de contrição e bom propósito”, as mãos postas, nos dirigíamos para o confessionário, e aí, de joelhos, humildemente dizíamos: “Padre, dai-me a vossa bênção, porque pequei” e contava ao padre todos os pecados. Após a confissão recitava-se o “Ato de agradecimento” cuja parte forte era a que dizia “…Quero reparar os meus pecados pela oração, pela mortificação dos meus sentidos, pelo zelo no vosso serviço”.
Após a confissão tínhamos que estar vigilantes para não cometer nenhuma falta que pudesse ser considerada pecado - venial ou mortal.
Aliviado por já me haver confessado, animado tomei o rumo de casa, e tão logo guardei o caderno da escola fui de imediato para a casa de Sa Maria lhe passar a boa notícia e ver Cecília, que me recebeu aberta em sorrisos, a me dar os parabéns.

