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Mar
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Contos do Bié - Em redor do carro-cinema
Categoria(s): Contos e Poemas |
Sabedoria
Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *
* Poeta Mineiro
A praça em redor do carro-cinema estava lotada, o povo afoito para saber como viviam os americanos, de vez que Tonho Magreza já esparramara por todos os cantos o resumo da programação daquela noite.
Afinal, suas finanças estavam em jogo, toda ela como que na dependência do maior ou menor comparecimento de público à exibição do carro cinema. “Faça das tripas coração”, teriam sugerido a ele os amigos Compadre Jove, João Nogueira e Lalade, durante a conversa ao fim da última exibição.
D. Tieta encarregou Altina, a empregada, que no percurso de sua ida à fonte das Três Bicas, no Caminho do Cemitério, pusesse a boca no mundo. E que também lá na fonte, onde lavava a roupa da família, que não desse trela a outras conversas de comadres, mas tagarelar sobre a função daquela noite.
Tonho virou-se como pôde, a passar alguns momentos nas vendas e outros locais de maior freqüência dos roceiros, como o mercado, e ali, ajudado por Luiz Gorgonho, gerente do estabelecimento, e de Sebastião Sapateiro, o fiscal, motivava os roceiros a ficarem para a grande exibição.
Junto a alguns nem precisou muita conversa, pois já eram assíduos freqüentadores das noites da rua, como Chico Quinca, Manoel Rufino, Gentil Bruno e Tutu Epifânio.
Estes e outros mais, depois de tomarem uns tragos, entregavam seu caminho de volta aos dóceis animais, que postados à porta das vendas onde os cavaleiros bebericavam, sonolentos, cabresto e rédeas soltas e enroladas na cabeça do arreio, aguardavam pacientemente a ordem do dono, que neles montavam já cambaleantes, e os animais, a passos lerdos como para evitar a queda do amigo, tomavam o caminho da casa da roça, onde o roceiro apeava, ou era apeado, a são e salvo.
Junto à boca das fornalhas, tontas de sono e cansaço, vezes sem conta as fervorosas esposas desfiavam as contas do terço, a implorar a proteção da Virgem para o esposo boêmio. A qualquer hora de sua chegada havia a água quentinha, em temperatura ideal, despejada na bacia ou na gamela, para serem lavados os pés do marido retardatário. E também a comida bem feita e aquecida nos crivos do fogão de lenha. Esposas dedicadas, santas e submissas mulheres, que souberam manter a fibra e criar e educar numerosa prole, apesar das dificuldades de toda ordem a se interporem nos caminhos de suas vidas!
Tudo pronto, e dadas as chamadas de costume - o acender dos potentes faróis do carro cinema - surgem na tela os sinais de luta, riqueza e trabalho da nação americana! É a chegada dos colonizadores, os esforços para se fixarem com suas famílias naquele novo mundo tão promissor, mas repleto de desafios. Vem a luta pela independência, a redação da Constituição, o surgimento da moeda, o dólar. São mostradas cédulas de diversos valores, nas quais aparecem as figuras daqueles que imortalizaram a história da grande nação.


Eneida Tagliolatto Pires comenta:
30 Março, 2008 @ 20:40
Gabriel, quando a gente lê algum conto ou romance, costumamos vivenciar o lugar, situações. São viagens imaginárias.
Agora hoje, ao ler o conto “Em redor do carro cinema”, fiquei curiosa; nunca ouvi falar nisso. Mas em compensação lembrei-me da minha adolescência aqui no Cambuí. Aqui frequentei junto com meus pais os cineminhas do bairro. Na rua Bandeirantes, havia o cinema do “seo” Otelo, mas que todos teimavam em chamar Sotelo. Nos fundos do quintal ele colocava uma tela e a gente sentava em cadeiras que a dona da casa esparramava pelos espaços que sobravam entre as árvores frutíferas. O outro ficava nos fundos de uma padaria, na rua Comendado Querubim Uriel. Aí, sentávamos em bancos compridos e o responsável pela transmissão cinetográfica era “seo” Genésio. O preço era uma bagatela, só mesmo para pagar a energia elétrica gastada. E tinha o cineminha de graça em época de eleição. Toda vez que tinha comício, aqui na Vila Estanislau, o povo enchia a pracinha, e era obrigado a assistir o comício primeiro, porque senão ficava sem um bom lugar para assitir o filme (em pé). Não me lembro de nenhum dos filmes exibidos. Deviam ser uma porcaria… Mas preenchiam o tempo… Tempos sem tanta violência e que não voltam mais!
Eneida Tagliolatto