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Mar
16
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Contos do Bié - Diabetes? Coitado do compadre!
Categoria(s): Contos e Poemas |
Sabedoria
Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *
* Poeta Mineiro
Cheguei a casa pouco mais de oitos horas da noite.
Meu padrinho, junto com a esposa D. Zezé haviam acabado de despedir-se de meu pai, que continuava desanimado, as dores no corpo, especialmente nas pernas.
Na manhã seguinte o compadre apareceu de novo, agora acompanhado de dois médicos, o Dr. Carlos Vieira, e um outro que via de passagem pela cidade, hospedado em sua casa.
Abriram uma das bandas da janela do quarto em penumbra, modo clarear o ambiente.
Meu pai ficou todo sem jeito, meio sem graça diante daqueles médicos tão bem vestidos, chegados assim de surpresa.
Não imaginava fosse tão grave seu estado de saúde.
O primeiro a examiná-lo foi o Dr. Carlos. O outro fez quase os mesmos exames de toque, mas nenhuma pergunta. Ao notar a presença do urinol debaixo do catre, o Dr. Carlos me pediu que o pegasse e levasse à janela.
Ficou a examinar o líquido, franziu a testa e deu sinal para que o colega também olhasse aquilo. Perguntou se era apenas urina ou se havia sido jogado resto de chá ou outra substância. “Sim - falou meu pai – joguei aí um resto de chá de fubá”.
O Doutor mandou que eu lavasse bem o urinol, e que nenhum outro líquido fosse ali depositado, mas somente a urina de meu pai. E de quatro em quatro horas, de posse de uma tira de taquara, remexesse o liquido e prestasse atenção se tomaria aspecto de água com fubá. E fosse à casa dele, ou ao hospital, dar notícia de minha experiência, a partir da manhã de terça-feira.
Despediram-se sem nada receitar a meu pai, e meu padrinho saiu com eles. Acompanhei-os de longe, e quando ganharam a rua fiquei a observá-los pela fresta da janela e a ouvir parte do diálogo entre eles.
- O que o senhor achou, Dr. Carlos? - perguntou meu padrinho.
- Amanhã, depois que o menino me levar a notícia da urina, posso afirmar com toda certeza o que acomete seu compadre. Por enquanto, não posso dar o diagnóstico, mas tudo leva a crer que esteja com uma diabetes bastante adiantada.
- Diabetes? Coitado do compadre!
- Isso mesmo, o Carlos tem razão! Nem precisaria fazer o teste da urina, mas que é, é! - completou o colega.
-E tem cura, Doutor?
-Depende de muitos fatores: alimentação, repouso, sossego e remédio. E tem um outro, mais importante que todos.
Virou um pouco a cabeça e dirigiu o olhar ao colega.
Meu padrinho, afoito, perguntou qual era o outro.
- Fé, Antônio, fé em Deus e em Nossa Senhora!
- Ah, isso ele tem, e muita, graças a Deus!
- Então ele vai ficar bom, finalizou o Dr. Carlos.
-
Passava das sete e meia da manhã quando me encontrava em frente à portinhola de acesso ao jardim da residência do Dr. Carlos, localizada no Largo da Igreja.
Ele e o colega conversavam tranqüilos lá em cima no alpendre, e vez por outra consultavam o livro aberto sobre a mureta do recinto, como a tirar dúvida a respeito do que estavam a discutir. Quando me viu, o Dr. Carlos deu sinal para eu subir. Meio arredio, fui subindo as escadas, encarando com timidez os dois “doutores” lá em cima, elegantemente trajados com terno de “gasemira”, colete e gravata, barba feita e os cabelos bem penteados.
- Então, menino, fez como recomendei?
- Sim, senhor, do jeito que o senhor mandou.
- E aí, como ficou a urina ao mexer com a varinha dentro do urinol?
- Parecia um chá de fubá - respondi firme.
- Foi assim sempre, ou uma ou outra vez?
- Não, doutor, sempre que eu ia lavar o urinol eu mexia com uma taquarinha e ficava do jeito que estou falando.
- Era só urina ou seu pai jogou sobra de algum chá lá dentro?
- Não, só urina mesmo.
- Não há mais dúvida, Carlos - falou o colega - o diagnóstico está correto.
- Pode ir! – falou o Dr. Carlos. .
Quando eu ganhava a rua, me chamou de volta, e de onde estava me pediu para dizer a meu pai e a meu padrinho que à tarde passaria em casa.
Segui pela Rua do Quenta-Sol, onde morava meu padrinho. Estava para montar o Banjo, cavalo marchador, e ir para o “Suassuí Pequeno”.
Pedi-lhe a bênção e passei o recado do Dr. Carlos. Que eu dissesse a meu pai que à noite passaria por lá. Em disparada, acabei de subir a Rua do Quenta-Sol, dobrei à esquerda, e ao passar em frente à casa do Seu Carlos Amantino, sua esposa, D. Cândida, estava no alpendre. Quando me viu, quis saber notícias do compadre. Mandou dizer a meu pai que à noite iria vê-lo.
Passei todos os recados a meu pai, e de imediato peguei a caixa do engraxate e fui direto para o Hotel Didi.
O carro cinema estava estacionado e ainda não se esgotara a curiosidade do povo do lugar em ficar a admirar o que continuava sendo uma grande novidade.
Ao me aproximar, observei já estarem ali outros meninos que, como eu, faziam o mesmo serviço.
Zé Buraco, filho de Saul, muito brincalhão, veio me dizer que eu chegara tarde e que os outros meninos já haviam engraxado os sapatos dos “cinemistas”. Enquanto estava a explicar-llhe que eu ainda devia umas engraxadas ao “Doutor”, este assomou à porta e deu sinal para ir até ele. Parei aos pés da escada e fiquei a olhá-lo postado lá em cima, aquela figura imponente, respeitável, digna de um “Doutor”. Ao ver minha indecisão em entrar no corredor, fez um rápido gesto com a mão, já me indicando o local onde estava a cadeira de palhinha. Nisso, chegou Didi, que para minha surpresa me deu um tapinha na cabeça, e sorridente falou que se eu seguisse os passos de meu pai, iria longe. Aproveitou para saber como meu pai estava de saúde e se havia melhorado. Senti-me confortado pelo modo como me tratou e pelo interesse em relação à saúde de meu pai.
Incrível como a notícia corria, e mais incrível ainda a solidariedade entre as pessoas. Mas, quanto ao Didi, fiquei em dúvida sobre a sinceridade de seu ato. Teria sido para agradar ao “Doutor”, de quem eu era o engraxate preferido?
Naquela manhã o “Doutor” calçava outra bota, tão grã-fina quanto à outra. Terminado o serviço, chegou Luthero, o chofer, que tomou assento na cadeira.
A exemplo do colega, também usava bota. Fiquei radiante, feliz da vida. Fiz as contas e ficariam faltando apenas duas engraxadas de bota para completar os cinco mil Réis. O “Doutor” foi até o refeitório, de onde voltou com umas rosquinhas, a tecer elogios ao seu sabor. Luthero provou e falou o mesmo. Terminada minha empreitada, Luthero indagou quanto era. Meio sem graça, comecei por lhe explicar que não era nada, pois estava devendo umas engraxadas ao “Doutor”, mas este interveio e disse que o que ele tinha pago estava já liquidado, e que eu cobrasse as engraxadas daquela manhã. Os olhos arregalados, sem condições de dizer qualquer palavra ante aquela inusitável situação, cada um deles, já sabedor de quanto era o serviço, colocou uma prata de um mil Réis em minhas mãos sujas de tinta e de graxa, acrescidas de mais algumas rosquinhas.
De repente, o “Doutor” me tomou de volta as rosquinhas, mandando que antes de come-las eu devia lavar as mãos.
Encaminhou-me a um corredor à esquerda do refeitório, e ali fiz certinho o que me ordenara. De volta ao corredor, as mãos limpas e enxugadas, me devolveu as rosquinhas, das quais comi duas, e as outras, guardadas na algibeira, levei para casa, oferecidas a meu pai, junto com as duas pratas de um mil Réis.

Silvia Trevisani comenta:
18 Março, 2008 @ 08:29
Olá Bié, este é o seu momento de Fé. Que remove montanhas e amolece corações. Somos seres humanos e como tal, agimos e ferimos as pessoas e vice-versa. A cura da alma é muito mais complicada do que a cura do corpo. Mas com amor e Fé, alcançamos objetivos e vencemos obstáculos.
Bjs poetamigo,
Silvia Trevisani
Eneida Tagliolatto Pires comenta:
23 Março, 2008 @ 10:04
Gabriel, medicação e oração sempre andaram juntas. Não é só o remédio que cura, mas a confiança no médico e a fé.
Você mostra isso nesse conto.
Eneida Tagliolatto
maria celia melo comenta:
25 Abril, 2008 @ 17:45
tenho um filho com nome de Gabriel , e lendo este ::conto de bié,este nome simboliza´´enviado de deus´´q mensagem linda