Mar
10

Estudo de caso - Osteoartrose femural

Categoria(s): Caso clínico, Reumatogeriatria


Interpretação clínica

Senhora de 63a com queixa de dores fortes na região do lado direito da bacia e face lateral da coxa direita. a dor piora ao caminhar ou ao deitar-se sobre o lado direito. Esta dor esta períodos que quase desaparece e algumas vezes piora muito. Na última semana a dor tem sido tão intensa que não esta conseguindo deambular. Antigamente a dor aparecia quando iniciava a caminhada e melhorava após alguns minutos, conseguia andar bem durante um tempo, mas em seguida a dor voltava.

Tomou medicamentos para dores (antiinflamatórios) como estava acostumada, mas teve pouca melhora. Tem tido muita dificuldade de se levantar, ficando até 20 minutos com as juntas duras.

A exame a paciente apresentava-se com dificuldades ao caminhar, obesidade IMC = 32, PA 145/95, sistema cardiopulmonar normal. varizes em ambas as pernas desde a raiz das coxas. Referia esta em controle da hipertensão arterial e do diabetes. Os últimos exames há 1 mês foram normais. Exames cardiológicos e dos lípides normais. O exame articular revelou pontos dolorosos na região trocantérica e crepitação grosseira nesta articulação e nas dos joelhos.

Foi feito um radiológico (Figura anexa).

Qual é o diagnóstico e como entender a doença.

Osteoartrite femural
Figura - Rx com lesão da articulação coxofemural, deformidade das cartilagem e diminuição do espaço articular. Na figura superior do lado direito uma articulação normal com cartilagem íntegra. Abaixo, ilustrações de uma articulação deformada com diminuição do espaço articular e irregularidade na cartilagem protetora, semelhante ao caso.

Resposta do caso

O quadro acima é característico de osteoartrose (OA), pois o que traz o paciente ao médico é a dor ou algum tipo de deformidade. A dor tem características mecânicas, aparece ou se exacerba no início dos movimentos (dor protocinética), melhora após alguma movimentação, podendo voltar, se o uso da articulação persistir por tempo prolongado (fadiga articular). Como a cartilagem é aneural, a dor tem origem nos estímulos sofridos pelos receptores nociceptivos de qualquer estrutura relacionada a articulação. Nos estágios mais avançados não é incomum o paciente ter dor, mesmo quando está em repouso, acordando algumas vezes durante a noite. Uma das explicações, pesquisada em quadris, é que possa ocorrer aumento da pressão venosa intra-óssea. A rigidez matinal do segmento afetado pode ocorrer, porém na OA, diferentemente do que ocorre na doença reumatóide, é de curta duração, sempre inferior a 30 minutos.

O RX simples continua sendo um fator chave na avaliação objetiva da extensão do dano articular, porém não é obrigatória a relação direta entre alterações radiológicas e sintomas. Cerca de 80% dos indivíduos, a partir de 40 anos, podem apresentar características radiológicas compatíveis com OA em articulações que sustentam peso, embora apenas 30% apresentem dor.

Comentários do caso

A osteoartrose (OA) é a doença reumatológica ambulatorial mais comum. Representa 40% do total das consultas e 7,5% dos casos de afastamento do trabalho, incluindo aposentadoria por invalidez. A OA, atualmente, pode ser considerada como um grupo de doenças superponíveis que, do ponto de vista biológico, morfológico e clínico, vai evoluir com características finais similares. Procurar uma única causa para a doença é esforço infrutífero. Ela é resultante de um processo degradativo cartilaginoso complexo e multifatorial. Aparece, particularmente, em pessoas ao redor dos 40 anos e sua incidência vai aumentando à medida que a idade avança. Mais de 80% da população de idosos, principalmente mulheres, apresentam sintomas.

Os primeiros estudos na compreensão da OA, voltaram suas atenções para os estímulos mecânicos, pois sabe-se que sobrecargas aplicadas em cartilagem normal ou forças normais, sobre cartilagem alterada, desencadeiam a doença. Embora a lesão mecânica esteja na base da artrose, estão presentes inúmeras alterações bioquímicas que contam com a participação de condrócitos, sinoviócitos tipo B (fibroblasto), enzimas e citocinas. De alguma forma, fatores bioquímicos, genéticos e mecânicos contribuem para lesar a matriz, expondo os condrócitos a estímulos que alteram o seu comportamento metabólico. Estas células, sem a proteção da matriz, multiplicam-se no local da lesão e aumentam seus mecanismos de síntese, tentando uma regeneração. Esta tentativa é fugaz, pois logo predomina a ação de proteases que iniciam, de modo progressivo, a degradação da cartilagem.

Aplicando o PBL ( Problem Based Learning )

No sistema músculo-esquelético a articulação pode ser considerada um órgão cuja função principal é dar estabilidade e movimento ao esqueleto. Como no caso da osteoartrose, um doença degenerativa todos os tecidos que formam a articulação sinovial podem estar comprometidos, como : cartilagem, osso subcondral, sinóvia, cápsula, ligamentos, tendões, músculos e líquido sinovial. Todos estes elementos devem ser estudados no PBL, desde sua composição, suas interrelações e os fatores que causa sua degeneração.

Fisiopatogênia -

A primeira alteração da doença aparece na cartilagem, que começa a perder material metacromático, os sulfatos de condroitina. A metacromasia diminui e geralmente se acompanha de falha também na afinidade pela hematoxilina. Em seguida, com a destruição gradativa da substância fundamental as fibras colágenas emergem irregularmente na superfície, dando a esta um aspecto fibrilar. Nesta fase, denominada fibrilação, vão formar-se soluções de continuidade que começam por descamação, seguidas por formação de linhas de fissura e, finalmente, fendas. Os condrócitos, tentando uma regeneração, aglomeram-se ao redor das fendas, principalmente nas áreas mais profundas. À medida que o processo atrósico progride, a cartilagem vai sendo destruída, deixando descobertas determinadas áreas. O osso subcondral fica diretamente exposta a ações mecânicas que, estimulando seu metabolismo, vão determinar a formação de camadas compactas, densas, eburnizadas. Abaixo destas camadas podem formar-se os pseudocistos, que se comunicam, com a cavidade articular. Sua formação dar-se-ia pela intrusão do líquido sinovial, que sob forte pressão alcançaria o interior do trabéculado ósseo, causando microfraturas. Neste local o tecido medular sofre degeneração fibromixóide, iniciando ao seu redor uma reação que se organiza em três camadas: uma interna fibrosa, uma fina lâmina óssea medial e uma tênue camada externa vascularizada. No seu interior há líquido sinovial e muitas vezes diminutos fragmentos de cartilagem e osso, assim como pequenas porções de fluido mucóide.

A anatomia articular se modifica em virtude da remodelação óssea no decurso da doença. A resposta óssea mais característica é a formação de osteófitos, que se inicia por uma proliferação fibroblástica, aumento da atividade osteoblástica e neoformação vascular, culminando em um processo de ossificação. Tomam parte, estímulos mecânicos e humorais. Parece que citocinas anabólicas influenciam sua formação. Estudos realizados em camundongos demonstraram que uma única injeção intra-articular de TGF-b induz sem aparecimento.

Um sinal importante para o diagnóstico é a crepitação que pode ser fina ou grosseira. É um achado habitual, atribuído à presença de irregularidades na superfície da cartilagem (fissura, descamação, fibrilação). Isto dificulta o deslizamento viscoso (lubrificação) e, conseqüentemente, aumenta o atrito entre cartilagem e líquido sinovial. A creptação é palpável e, em poucos casos, chega a ser audível.

Há indícios que a diminuição estrogênica está fortemente implicada na OA generalizada, o mesmo acontecendo com a obesidade, o sedentarismo, a genética familiar (hereditariedade) e aspectos nutricionais. Fatos estes que parecem esta ocorrendo com nossa paciente.

Referências

Felice JC, Costa LFC, Duarte DG, Chahade WH - Osteoartrose (OA). Temas de Reumatologia Clínica. vol 3, n 3,68-81,2002.

Araujo NC, Fernandes JA - Reumatismo de partes moles - II. Membros inferiores. Temas de Reumatologia Clínica. vol 5, n 1, 32-42,2003.

Tags: , ,

Indique esse artigo Indique esse artigo


6 Comentários »

  1. marilu comenta:

    17 Março, 2008 @ 00:56

    queria saber sobre tratamentos adequados sobre essa doença de osteoartrite femural
    obrigada

  2. Dalva Cannone comenta:

    21 Março, 2008 @ 00:52

    Depois que operei a coluna, colocando prótese, fiquei com dores horríveis na união do femur com a bacia, já fiz aplicações (8) de cada lado. O lugar é intocável, dores horríveis, não consigo caminhar, não consigo pegar minha neta no colo, se eu for lavar uma louça, tenho que ficar debruçada em cima da pia. Conversando com o neurocirurgião que me operou, ele mandou eu procurar um ortopedista para ver a minha femural. Essa dor é tão grande que afeta até a musculatura de minha coxa das duas pernas. Tenho 61 anos, a impressão que eu tenho é que vou parar de caminhar, pois a dor é insuportável. Não existe remédio ( antiflamatório) que eu não tenha tomado. Desde o tramal , dexacitoneurim injetável, até ao remédio mais simples como dipirona ( tres comprimidos por vez). Não estou aguentando mais. Já pensei até em dá fim em minha vida, pois não estou aguentando mais. Tenho 16 prótese, a minha cirurgia demorou muito, não sei se esse tempo de cirurgia foi o causador de tamanha dor pelo tempo que fiquei em uma posição só. Moro no Rio. Gostaria de saber se existe algum outro remédio que dê fim nessa dor?
    Obrigada

  3. marilurdes comenta:

    22 Março, 2008 @ 15:36

    Pois é. Há um mês eu fiquei sabendo que estou com isso tb …artrose nessa região e que meu caso seria uma operação mais tarde. por isso estou entrando agora nesse site para informações do que e de que modo tratar agora para evitar isso. Parece que sua cirurgia foi pior para vc. as dores não param… é aí que eu queria SABER DE TUDO SOBRE ESSA DOENÇA. TENHO 60 ANOS. sempre fui ativa e esportista, e agora me aparece isso. não consigo fazer adução nem abdução das coxas e estou sentindo como se raspasse nas articulaçãoes do femur com o quadril. se alguém puder me diga o que posso fazer para não chegar a ficar como Dalva Cannone. me receitaram condroflex por um ano … mas não estou vendo melhora. nem sei se devo ou não fazer exercícios…se melhora ou piora… agradeço quem possa me responder. obrigada.

  4. Regina comenta:

    22 Outubro, 2008 @ 22:45

    Eu tenho 25 anos e sempre tive as pernas meio tortas, mas somente agora fui ao medico por sentir dor nas pernas na regiao da coxa e pelvis, quando começo a andar sempre doi, tenho sentido problemas de circulaçao sanguinea tambem e varicoses tem aumentado, a minha perna direita esta um dedo mais curta que a perna esquerda.
    Consultei um medico ortopedista e relizei, radiografia das articulaçoes coxo-femuraes, foi constatado - Intrusão acetabular bilateral, eu nao consigo abrir as pernas mais que 30 graus. O medico falou que aconselha usar, protese somente com 60 anos e ate lá nao tem o que fazer, tenho medo de nem conseguir caminhar mais e nao me conformo de nao ter outra solução.
    Gostaria de saber se tem algum tipo de tratamento ou exercicio ou ainda informacoes sobre proteses mas duraves que essa que ele indicou de no maximo 17 anos.

  5. marilu comenta:

    23 Outubro, 2008 @ 09:03

    Tomei por um ano condroflex diariamente. estou melhor das dores nos quadris …porém não consigo fazer muito adução e abduçaõ da perna direita. parei com o condroflex e com exercícios de peso . comecei a nadar ….mas agora me apareceram dores nos ombros , principalmente no direito e adução é terrível de fazer… e não posso mais nadar com energia que disponho . já fiz até ressonância magnética e não acusa nada… me indicaram tomar de novo o condroflex. se alguem souber de algum medico especialista mesmo ou de um tratamento que seja aliado ou alternativo favor entrar em contato. estou com 61 anos agora e gostaria de voltar e preciso e tenho energia para atividades físicas se…não fosse essas articulações… obrigada

  6. silvio santiago comenta:

    4 Novembro, 2008 @ 10:11

    oi,tenho (oa) nos dois femos e sinto muita dor ja a bastante tempo tenho 44 anos ja fui em varios especialistas, tenho medo da operação que tenho que submeter me, queria saber se este tipo de doença pode trazer uma mais grave ou letal, e aproposito esta pagina é super interessante ja que nos da o intendimento dos nossos objetivos,muito obrigado.

RSS Feed for comments on this post · TrackBack URI

Deixe seu comentário aqui !