Mar
02

Contos do Bié - D. Dorothea

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

D. DOROTHEA

Não só meu pai, como também algumas das famílias com quem eu mantinha estreita intimidade, não viam com bons olhos minhas idas ao sobrado da Rua da Fonte, residência de D. Dorothea, para oferecer-lhe meus serviços de engraxate e vender os doces e quitandas elaboradas por Sa Maria Amélia.
Eu não entendia o motivo do que seria uma velada proibição, eis que inúmeras das famílias que a boca pequena faziam comentários maldosos sobre o proceder da ricaça, vez por outra se aprontavam com os melhores trajes e comiam e bebiam nas festas que ela dava, e que se prolongavam até altas horas.
Assim, muito raramente eu lhe batia à porta, e podia contar nos dedos os trocados que obtive com o serviço de engraxate e a venda dos saborosos quitutes da Rua das Almas.
Até que um dia dei conta do que se falava a seu respeito.
Eu aguardava na porta da entrada do consultório médico do Dr. Sidônio o pagamento que ele me devia pela engraxada de um par de sapatos e de uma polaina de cano comprido.
Tal a demora em ser atendido, deu-me a veneta de forçar a porta entreaberta.  Fui entrando, sorrateiro, quando me vi numa sala repleta de quadros com figuras de esqueletos, e lá num canto uma caveira que parecia de verdade era conservada num líquido dentro de um vidro grande de boca larga.
Apavorado ante tal visão, e tamanha a afobação para abandonar o recinto, tomei outro caminho, abrindo a porta errada.
Não sei quem mais se assustou, se eu, o Dr. Sidônio ou a D. Dorothea.
Rolavam descontroladamente, ora um por cima, ora por baixo, como aqueles lutadores que se viam nas exibições dos circos que vez por outra apareciam na cidade.
Num átimo de tempo ele tomou daqueles camisolões brancos e folgados e se cobriu com um deles, e ela fez o mesmo.
Tal o pavor de que me vi tomado, senti as pernas travadas, e a língua também,  imaginando que os dois iriam me passar o maior dos pitos ou até mesmo me dar uma surra.
Pelo que pude ver, os dois tinham igualmente a língua travada, e gaguejando ele pediu que passasse mais tarde, pois havia muitos e muitos outros sapatos para engraxar.
Ela, tentando mostrar naturalidade, insistiu para que eu fosse à sua casa engraxar os sapatos do esposo e dos filhos, e ainda quis saber os dias das fornadas de quitanda de Sa Maria Amélia.
Fui para casa envolto num dos maiores dilemas de toda minha existência.
Era-me custoso entender, e só tempos depois me veio a clareza necessária.
Num constante assuntar me perguntava como podia ela, D. Dorothea, estar sempre presente nos importantes momentos litúrgicos das celebrações religiosas, ao lado das filhas de Maria e dos irmãos do Santíssimo que acolitavam o vigário se, como nos era ensinado, o privar-se da convivência com o sagrado era um privilégio dos  que levavam uma vida santa e sem mácula de nenhum pecado.
Seguindo a regra geral do povo do lugar, guardei tudo comigo, pois ali era “onde todos conheciam todos e todos sabiam de tudo, mas fingiam que não sabiam”.
A partir de então já não mais me intrigava aquilo que me era recomendado em relação à  matrona ricaça, comentada figura vinda de antiga e abonada família, que se dividiu em duas: a rica, muita rica, e a pobre. Ela era a mais aquinhoada, cuja fortuna tomou maior vulto ao desposar o próspero minerador Salomão Viana.
Por receio de suas trapaças – tinha até fama de feiticeira -  pelas festas que dava, e ser íntima do vigário – que vale lembrar era também prefeito, dito nomeado -   muitos a tratavam bem, trocavam gentilezas e se chamavam de compadres e comadres, resguardados, entretanto, certos limites nessas intimidades.
Seu já famoso e comentado casarão encheu-se de júbilo com a notícia de que o casal aguardava o nascimento de um menino, mas a cidade se interrogava sobre a virilidade de Salomão, tendo em vista alguns acontecidos.
As pessoas ficaram em dúvida, e se indagavam se era menino homem ou menina mulher.  “Coitada, ela que sempre desejou uma menina mulher, tomara que desta vez acerte”.
Salomão viu-se restaurado em seu orgulho machista.  A novidade injetou-lhe ânimo, e se mostrava aos outros em sua falsa virilidade. E assim foi indo, e as gentes no seu silêncio teciam conjeturas sobre a paternidade da criança.
Nasceu! Era uma menina mulher, e não se parecia com nenhum daqueles a quem recaía a suspeita de cavalo comedor de pasto alheio.
Não ficou só naquilo, e meses depois outra prenhez e mais uma menina mulher, o povo se interrogando, mas nada dizendo, a vida correndo solta e devagar, sem nada que a atropelasse.
Tudo já caíra na rotina, o povo acostumado com os acontecidos, eis que mais uma fornada dá novo alarme, e  também agora outra menina.
O intervalo de tempo entre a derradeira gestação e a de agora foi mais espichado, quando todos imaginavam que a fonte secara. Entretanto, olhe só a abundância do ventre, os cochichos se multiplicando, todos apostando num menino homem, e foi o que nasceu.
Veio carimbado, cópia exata e bem acabada das feições do Dr. Sidônio!

Há tempos Salomão vinha engendrando vingança nos escuros de sua mente.
Vingança contra o despojamento de sua virilidade, e por extensão contra toda aquela gente que o sabia um garanhão fracassado, mas o tratava com reverência, aquilo de palminhas nas costas e convites para aniversários, batizados e casamentos, mas os olhos nele cravados se tornavam cegos ante tantos e repetidos absurdos do dia a dia, e somente a ele davam a carregar a pecha de corno manso.
Tinha mais, que ele não esquecia, mas fingia que não sabia.
Era um belo de um cão, e via-se que se achava perdido da dona, ia e vinha sem atender a ninguém.
Ela pensava que Salomão não tivesse tomado conhecimento do acontecido. Logo ali, vejam só.
Bobo ele não era, e quase à mesma hora do sucedido, a notícia do inusitado já lhe chegara aos ouvidos.  Ele não buliu no assunto, pois queria ver até que ponto o doce ainda ia ficar no tacho, modo do povo dizer de alguém que está a levar a eito qualquer mal feito.
E o mal de Dorothea já vinha de longe, só que ao parceiro faltava tino para escolher o lugar apropriado para tão asquerosas intimidades.
Ela saíra de manhã no V8 preto e lustroso, e fora ao chalé da mais badalada cabeleireira da cidade. E como sempre, no banco ao lado ia o Átila, o cachorro de estimação.
Foi ela retornar do chalé e botar o pé para fora da porta, o bicho endoidou de vez, feliz pelo reencontro. Ela tentava por todos os modos livrar-se de suas investidas libidinosas.
A muitos dos passantes causava repulsa, mas a outros propiciava embalar-se em viagens de eróticas fantasias.
O danado do cão, enfiando-lhe o focinho por entre as pernas metidas naquele vestido justo, queria por que queria, e se via que já era viciado naquilo.
Salomão não via a hora de dar o troco.

-

Desde e sempre foi ela, Dorothea, criatura calorenta, mas tentava refrear seus instintos e desejos femininos, refugiando-se na religião. Puro fingimento.
Apaixonada pelo Dr. Aristides Bustamente, este nunca lhe deu trela; e não foi por amor que se casou com o rico minerador Salomão Viana, por demais religioso e temente a Deus, mas dizia-se que ele, tanto quanto Dorothea fazia denodado esforço para reprimir os instintos. Da fúria carnal dos dois se originaram nada menos meia dúzia de filhos, todos homens, tudo por modo da tentativa da parte dela de fazer vir ao mundo uma menina mulher.
Quando entrou na casa dos quarenta, foi-se arrefecendo o seu vigor, cansada que estava de tantas e repetidas parições no leito conjugal, sem nenhuma mudança de rotina no modo de trocarem carícias e fazer amor.
Numa tarde, quando repousava na rede da varanda da casa da fazenda, reparou no touro Moscou cobrindo a novilha Balalaika.
Sentiu vontade de fazer do mesmo modo, na posição de quatro. Tocou no assunto com o marido, que a taxou de louca, que aquilo era contra seus princípios, bestial heresia perante os mandamentos da lei de Deus e da Igreja.
O relacionamento dos dois foi ficando frio e distante, ela se recolhendo ao seu mundo místico religioso, depois de o vigário haver-lhe recomendado severa penitência.
Salomão não dava sinais de vontade, e ficava naquilo de contemplativo e rezador, e as suas visitas à capela da fazenda foram-se amiudando mais e mais.
Teve uma noite que ela deu de espionar por uma das frestas dos vitrais o que o levava a demorar-se tanto no recinto sagrado.
Quase endoidou de vez, mas se conteve, recolhendo-se aos aposentos como se nada tivesse percebido.
Naquela noite se banhou e perfumou-se toda, e foi deitar-se vestida com a mais insinuante e chamativa camisola de seus primeiros tempos de casada.
Salomão, como sempre fazia, recostado balbuciou inúmeras rezas, persignou-se e ajeitou o travesseiro para mais uma noite de solidão. Só que daí a pouco começou a ser tentado por Dorothea, que lhe beliscava as pontas das orelhas, o lado do pescoço e depois o peito peludo, ao mesmo tempo que lhe percorria as coxas e as nádegas, cravando-lhe de leve as compridas e afiadas unhas. Ele soltava grunhidos e gemidos quando de modo suave ela lhe envolvia o escroto à procura dos testículos. Balbuciando, aquilo de sensual, ela dizia: “Vou te capar, seu danado, vou te capar…”. “Pode me capar, que mesmo castrado não acaba meu amor por você, que é inesgotável…” E parecendo demonstrar fúria, desfilava os dedos ágeis por entre as partes íntimas, fazendo menção de extirpá-las como se de uma faca estivesse possuída.
Ao insistir na posição de quatro, ele não lhe deu ouvidos.
Esbravejando, e se lembrando da cena da capela, ela experimentou a felicidade de prolongado orgasmo. Não de amor por ele, mas do ódio que lhe queimava. Satisfeita, caiu de lado e fingiu que dormia, enquanto ele, ainda em fogo ardente, se consumia em desejos bestiais.
E assim foram-se sucedendo os dias, ela aflita para retornar à fresta dos vitrais da capela e recagarregar-se de forças diabólicas.
Até que presenciou nova cena, jurando vingança…
De retorno ao confessionário, narrou tudo ao vigário, até mesmo os detalhes da vingança que já tinha em mente. Estranhou a atitude do confessor, que pareceu contente e imprimiu variada inflexão à voz e uma expressão particular à fisionomia.
Concedeu-lhe a absolvição e dias depois ele estava na fazenda em visita à capela.
Ali, quis saber de maiores detalhes, até o ponto em que, trêmulo e suando frio, apertou Dorothea contra si, na ânsia incontida de sentir-lhe os seios empinados e agressivos. Refreou-se e pediu desculpas e perdão, indo ajoelhar-se diante de uma das inúmeras imagens que a tudo assistiram em silêncio.
Dorothea aproximou-se devagar, ajoelhou-se rente a ele e manhosamente lhe segredou: “Fica aborrecido não, bobo; ele faz com Esmeralda, eu faço com você…” A custo, quem sabe a experimentar um repentino orgasmo, ergueu-se e saiu sem rumo, procurando por um mictório.
Tornaram-se freqüentes as consultas de Dorothea ao Dr. Sidônio, amigo de longa data, desde os tempos de meninos. Os dois prestaram vestibular no mesmo ano. Ele passou em medicina e ela, reprovada, optou por cursar farmácia. Ele não escondia seu amor por ela, que bem o sabia, mas por força do destino ambos tomaram caminhos diferentes, mas ele sempre na esperança de um dia tê-la ainda que por instantes.
Então chegou a hora, tal a carência de um afeto de que ela estava a necessitar. E ninguém melhor e mais indicado que ele, aliado e cúmplice confiável na execução do plano macabro.
- É fácil – diz ele.
- E depois? – ela indagou, afoita pela resposta.
- Leve-o imediatamente para o hospital. Do resto – olhando-a com malícia, acrescentou: - cuido eu.

A princípio, apenas uma coceirinha que até lhe parecia agradável e aumentava o fogo carnal, mas de repente passou a lhe penetrar fundo como se um ferro em brasa com inúmeras pontas estivessem a lhe fincar as genitais. Aquilo foi crescendo em questão de segundos, e quanto mais se coçava o quentume se alastrava, agora tudo empelotado e dando mostra de que sangrava.
Nem as ceroulas Salomão conseguiu vestir, e envolto num lençol foi levado direto para o hospital.
- Nunca vi um caso como este – circunspeto e demonstrando preocupação falou o Dr. Sidônio.
- Então é grave? – era Dorothea, fingindo-se preocupada.
- Aparentemente é. Antes, preciso coletar algum material e examiná-lo ao microscópio.
- Mas doutor, não há medicação alguma para aliviar esse sofrimento? – era Salomão, quase em prantos.
- Vou aplicar-lhe um analgésico, mas sem promessa de alívio rápido.
Dorothea acompanhou o Dr. Sidônio até à sala onde seria feito o suposto exame. Caíram na risada, seguindo-se momentos de beijos e carícias.
- Meu bem – disse ele – você exagerou na dose. Coitado, não precisava tanto! Uma folha apenas de urtiga teria sido  o bastante.
- Fiz a minha parte e espero que faça a sua.
- Um testículo?
- Não! Como combinamos! Os dois! E guarde-os para mim.
Sonolento e menos agitado, Salomão esperava impaciente pelo resultado dos exames.
- Sr. Salomão, seu caso é grave e raro. Trata-se do desenvolvimento de uma bactéria só comum aos caninos, vistos como imunes aos desastrados efeitos por elas provocados.  No organismo humano causa danos quase irreparáveis. Na tentativa de evitar o pior, tenho que operá-lo já, para uma raspagem nos testículos.
- E depois, e depois???
- Cumprirei a minha parte. O resto – fez uma pausa proposital – o resto vai depender de muita sorte!
Foi como uma relíquia que o frasco com os testículos de Salomão se viu trancafiado no cofre da Pharmácia Vesúvio – de propriedade de Dorothea -, ao lado de colares em ouro cravejado de pedras preciosas. Agora, a preciosidade de um se confundia com a preciosidade do outro.
O restabelecimento de Salomão foi demorado, e as ferroadas ou fincadas foram-se espaçando e a vermelhidão desapareceu, sinal, assuntava consigo, de que tudo correra bem, o que deixou o casal deveras contente.
Grande, porém, a expectativa para o teste fatal.
Vez por outra se apalpava, e no íntimo imaginava que estivesse lhe faltando algo. Mas se conformava, a imaginar que fazia parte do processo e que com o passar do tempo os testículos voltariam ao seu lugar.
Decorreram dois, três meses, e nada!
Até que um dia chamou o Dr. Sidônio e lhe confidenciou a preocupação. Compenetrado, o doutor procedeu a minucioso exame e deu a entender que os testículos atacados pelas bactérias foram-se dissolvendo, mas que teriam restado pelo menos alguns vestígios deles, que não sumiram de tudo.
Menos jururu, passou a se dar novo tempo, e até que um dia, para proceder ao teste, procurou por Esmeralda, levando-a para a capela, como se ali fosse a alcova mágica que lhe pudesse restituir as forças da outrora virilidade.
Desesperado, sentiu-se o mais desgraçado dos desgraçados dos homens… Mas ainda tomado de um fio de esperança, preparou-se para uma noite com Dorothea, que imbuída de falso entusiasmo pôs a camisola das derradeiras e memoráveis noites.
Ela fazia de tudo, e tudo dava em nada.
Por fim, ele mesmo sugeriu o coito de quatro.
O que se viu foi um Salomão se afastando do leito conjugal, tal um rei vencido e despojado da coroa.
—–
Num gesto de torpe hipocrisia, Dorothea chorou sentidas lágrimas pela morte de Esmeralda - a pastora alemã sacrificada com uma bala certeira - um acontecido de contornos nebulosos.
E mais.
Para não apagar da memória de Salomão seus momentos de idílio animalesco, mandou fundir em bronze uma estátua da cadela em tamanho natural, na medida exata da ponta do focinho à extremidade da cauda.
Fixada em posição de coito na lápide do túmulo erguido no pátio da fazenda, levou a cidade inteira a copiar a idéia, e daí por diante viam-se nos jardins das casas e até mesmo em praças públicas estátuas de cadelas de estimação invariavelmente na mesma postura da tão comentada pastora alemã, a pobre e cortejada Esmeralda…

Na festa de batizado da criança bastarda, quando o casarão regurgitava de gente em torno das mesas enfeitadas e repletas de doces e bebidas, Salomão convenceu o Dr. Sidônio a iniciar o brinde. O doutor, já meio alto e no entusiasmo do momento em função do que considerava um privilégio, sacando a rolha da garrafa que lhe foi oferecida, também por insistência do anfitrião ingeriu parte do líquido num só gole, pelo bico da garrafa.
Em meio ao torpor dos que o rodeavam, com a boca que era só espuma estatelou-se no chão, os olhos arregalados a encarar o corno matreiro.
O frasco espatifou-se, e em instantes tornou-se irrespirável o ar já carregado de fumaça de cachimbo, charutos e cigarro, quando o odor insuportável de formicida tomou conta de todas as dependências, penetrando as casas em volta; em seguida o quarteirão e finalmente a cidade inteira, que respirava a morte, impregnando em tudo e em todos…

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