Fev
17

Contos do Bié - A Máquina

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

A MÁQUINA                                       -
Gabriel Araújo dos Santos

Em Nossa Senhora dos Acordados tinha muita gente de boa serventia.  Aliás, era assim no geral. Por exemplo, o Zé Jardineiro – depois Zé Formigueiro.
Tipo atlético, alto e loiro, olhos azuis, moderado no sorrir e no falar.
Dizia-se que era um fugitivo das cadeias do Espírito Santo.
Naquela época, moço ainda, chegou à cidade sem eira nem beira. Os habitantes, hospitaleiros, deram-lhe acolhida. E o Zé, tal a habilidade em lidar com plantas, passou a trabalhar de jardineiro, e enfeitou a cidade com inúmeros e belos canteiros de flores.
Numa noite, ao término das missões, na hora da elevação do Santíssimo ali no Largo da Igreja, todo mundo ajoelhado, só ele ficou de pé.
Foi a conta de ser advertido pelo praça Pinto de Ouro, que logo o esbofeteou.
Formou-se aquela confusão, que culminou com a sua prisão, tudo porque não se ajoelhou.
Mas ninguém se lembrou de que ele tinha um problema na rótula, o que o impedia de dobrar o joelho.
E o Zé, coitado, foi ficando lá, engaiolado, foi ficando, ficando, e depois de muitos anos…
A cidade e a área rural viram-se infestadas de formigas –  espécie Ata Capiguara.
Um “doutor” vindo de fora, a mandado do governador, também dito nomeado, é que descobriu de qual espécie eram as tais formigas,  embora os roceiros já soubessem de velho que se tratava da conhecida formiga cabeçuda. Mas como era um “doutor”, ele tinha que nomeá-las daquela forma complicada para valorizar o seu serviço.
Depois de muitos dias de extensas reuniões e muita discussão, o tal “doutor” retornou à capital com um pedido do prefeito para que a cidade fosse aquinhoada com uma máquina de matar formigas.
A partir de então não se falava em outra coisa!
Como seria a tal máquina? De que maneira matar as formigas? Alguns arriscavam: “Ela deve ter uma rosca sem fim que gira forte e massaga as formigas”. Outros supunham que a máquina faria uma sucção, jogando os bichinhos num grande vasilhame, onde morreriam de fome.
E teve um dia que o povo viu o carro de boi cantando dolente na descida da Rua das Bananeiras, o Zé Prego à frente, guiada aos ombros, orgulhoso a tanger os bois da guia.
Era a máquina!
Houve foguetório, banda de música e Te Deum em ação de graças! Feriado local!
Foi descarregada no Pasto do Conselho, e ali ficou, ainda encaixotada, para visitação pública, até o dia em que, com a presença do prefeito vigário e do delegado; do juiz de paz e  outras autoridades, deu-se início à retirada do primeiro prego de uma das tábuas laterais, depois o segundo, o terceiro, o quarto e  o quinto…
Exclamação geral!
Uma decepção!
Lógico, veio toda desmontada.
E agora, o que fazer?
Examinada pelos ditos cientistas da cidade – Seu Daniel Maytre e Agenor Polidoro -  estes deram de ombro, também decepcionados.
Não tinham a mínima idéia de como aquilo funcionava, com a agravante de o manual estar redigido em alemão, idioma que ninguém conhecia.
À parte, em pequenos sacos de pano encorpado como de lona, via-se regular quantidade de produtos químicos, e um deles, pelo cheiro, lhes parecia enxofre.
Alguém teve a feliz idéia de lembrar ao prefeito que o Zé Jardineiro – a partir de agora Zé Formigueiro – devia ter algum conhecimento do assunto, eis que conviveu com uma colônia de estrangeiros no Espírito Santo, onde lidou na lavoura por muitos anos.
Além do mais, corria à boca pequena ser ele filho bastardo de um próspero cafeicultor e negociante de nacionalidade alemã, que Zé Jardineiro dizia tedesco, em cuja língua fora alfabetizado.
Um achado!
De imediato se despachou o soldado Pinto de Ouro para escoltar o injustiçado coitado – de agora em diante Zé Formigueiro.
Todo inchado (orgulhoso, cheio de si) passou a ser alvo de atenção e admiração da platéia, curiosa para ver a geringonça funcionar.
Eram dez da manhã.
Passou a hora do almoço, veio a merenda, e já se aproximava a hora do jantar – que ali era as cinco da tarde – e Zé Jardineiro – agora Zé Formigueiro –  como que de propósito não terminara de montar por completo a máquina. Ficou para o outro dia. E o prefeito discursou, seguido de outras autoridades, convidando os presentes para  estarem ali às oito em ponto da manhã seguinte.
Agora, Zé Formigueiro era todo autoridade!
A um seu pedido, logo o prefeito despachava o funcionário para providenciar a tal ferramenta. Ao mínimo gesto, a assistência abria mais a roda, que ele queria trabalhar sem nenhum atrapalho.
Afoito por demais, Seu Luiz Fogueteiro já se achava de plantão, aguardando as ordens do prefeito. E lá também se viam a postos os componentes da banda de música, aquilo de tocar baixinho, afinando os instrumentos.
A um sinal de Zé Formigueiro, Quim da Vaca saiu em disparada, e daí a pouco voltou com um panelão de ferro pelo meio de brasas ardentes.
Clarimundo Coveiro, de enxada em punho, capinava apressado ao redor dos buracos de formiga.
A máquina ia funcionar!
Transportada para onde havia inúmeros formigueiros, parecia um andor de santo seguido de espichada e enorme procissão.
Senhor da situação, calmamente Zé Formigueiro enfiou a mangueira formigueiro adentro. Com um pouco de barro vedou a entrada, aguardou secar a mistura e em seguida, tomando ares de importante, foi girando lenta e suavemente a manivela da dita cuja.
Não levou nada de tempo, rolos de fumaça iam brotando em diversos pontos do terreno em volta, aquele cheiro forte a inundar os ares!
A máquina funcionava!
Foguetes pipocaram e a banda disparou a tocar.
As autoridades discursaram e o povo aplaudia!
A cidade estava em festa!
Zé Jardineiro era um homem acreditado!

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