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Fev
12
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Contos da Eneida - Dona Mariquinha, mulher…
Categoria(s): Contos e Poemas |
Sabedoria
Colaboradora: Eneida Tagliolatto *
* Poetisa Paulista
Dona Mariquinha vai até o portão do jardim, olha para o céu que está nublado; começa a assobiar baixinho, virando a cabeça para um lado e para o outro, para assim confirmar se vai chover ou não. Entra, mas volta na mesma hora com o guarda-chuva em punho e sobe a rua. Só que agora já parou de assobiar.
Juquinha, Maneco e Orestes, três colegas inseparáveis, estão sentados na sarjeta da calçada do outro lado da rua, bem em frente à casa de dona Mariquinha, e assim que ela está numa distância que não dá para ouvi-los, os três caem na gargalhada. Juquinha o mais danado, vira para os amigos e diz: - “Porquê será que dona Mariquinha assobia toda vez que o tempo está mostrando sinais de chuva, acho que ela pensa que assobiando ela consegue espantar a chuva, que boba!“
- Que nada, isso é desculpa, você não percebeu ainda que toda dia ela sai de casa, faça sol ou faça chuva. Às vezes é depois do almoço, como hoje, outras vezes chega a ficar o dia inteiro fora de casa; argumenta Orestes.
- E como você sabe isso, se você como nós tem aula à tarde; hoje estamos de folga porque está tendo reunião dos professores. Puxa cara, como você é falador, parece até um maricas. Gosta de fofoca como umas e outras aqui da rua, que vivem falando mal dos outros.
- Olha como você fala Juquinha, que já te dou um safanão e você é que vai parecer um maricas correndo para o colo da mãe. Isso já aconteceu mais de uma vez, então muda o jeito de falar comigo, tá bom cara?
- Pára já com isso, vocês dois, que eu estou mais interessado em saber como é essa história das saídas de dona Mariquinha, diz Maneco, e complementa; conta aí Orestes.
- Bem! É que ouvi minha mãe falando para o meu pai, que dona Mariquinha não pára em casa, sai todo santo dia. E meu pai disse, que já ouviu falarem mal dela lá na barbearia do seo João. “Sabe como é… Onde tem fumaça, tem fogo, isso é que corre por aí à boca solta”; disse meu pai.
- É, aí tem coisa! Mulher que não pára em casa na certa tem caso com algum lobisomem; diz Juquinha rindo alto, e ao mesmo tempo dá tchau para os amigos. Orestes e Maneco olham um para o outro, dão de ombros e também cada um vai para sua casa.
Juquinha no instante em que entra porta adentro já vai chamando pela mãe.
- Manhê…! Ô mãe, cadê a senhora?
-Tô aqui moleque! Pra quê toda essa gritaria? Parece que vai tirar o pai da forca!
- É que eu queria que a senhora ouvisse o que eu tenho pra contar. Sabe, tão falando mal da dona Mariquinha lá na barbearia. É por causa dessa história dela sair todo dia de casa, faça sol ou faça chuva, e que ninguém sabe pra onde ela vai. Quando é dia de sol, ela fala que vai levar sombrinha, quando é dia de chuva, ela fala que vai levar guarda-chuva. E agora mesmo ela saiu com um guarda-chuva, mas antes ficou olhando para o céu assobiando. Para disfarçar na certa!
- Filho! Que coisa feia ficar falando sem saber direito das coisas; isso não está certo, cada um sabe onde aperta o seu calo.
- O quê isso quer dizer, mãe? Aperta o calo?
- É modo de se expressar; quer dizer que cada um sabe da sua vida, dos seus problemas. Mas deixa eu te falar uma coisa, eu sou amiga de dona Mariquinha e se ela não fosse direita, você acha que eu teria tanta amizade assim com ela? Ela é uma coitada, tem muita tristeza com a vida que leva. O marido como ela mesma diz: “Vive”, e pronto. A casa está precisando de uma reforma, mas cadê dinheiro. O marido diz que não tem dinheiro, que não dá para fazer nada, e novamente dona Mariquinha diz: “Também pudera, deixou chegar num estado que não tem mesmo jeito. Está como boca de gente que nunca vai ao dentista, quando resolve ir não tem mais o que fazer a não ser arrancar os tocos e por dentadura”. Então Juquinha, ela sai de casa para não ficar vendo a casa desmoronar, para não ficar no quarto chorando baixinho, e esse povo falador que não tem o que fazer a não ser bisbilhotar a vida dos outros.
- Será que é de tanto chorar baixinho que ela tem aquele papo, mãe?
- Que é isso, menino! Isso é doença.
- Mas que é engraçado, ah isso é! É do tamanho da nossa bola de meia. Essa que a senhora fez pra gente jogar pelada na rua. Sem contar o assobio, o guarda-chuva que às vezes vira sombrinha. Ah! Tem dó mãe; tudo bem que é feio inventar coisas a respeito dela, mas continuo achando engraçado.
- Sabe mãe, nós até fizemos uma musiquinha a respeito do papo; é assim:
- Dona Mariquinha, mulher do caroço,
pegou na faca pra cortar o meu pescoço!
Gente que bicho é esse? É barata.
Pega no chinelo e mata.
- Chinelo é o que você vai ver, moleque safado.
Juquinha dá um pulo para se desvencilhar do chinelo que sua mãe jogou na direção dele, e sai dando risada.
Assim que chega à calçada, pára um pouco pensando na surra que vai levar quando voltar, mas na mesma hora começa a cantar: “Dona Mariquinha, mulher…”

Gabriel Araújo dos Santos comenta:
13 Fevereiro, 2008 @ 09:57
Singeleza de narrativa, que flui numa leveza de dá gosto. É como diz um escritor, “A vida como ela é”.
Parabéns, D. Eneida.