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Contos do Bié - Maroveu Pára-Raio, O Beato

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

MAROVEU PÁRA-RAIO, O BEATO.

As coisas andavam difíceis ali em Nossa Senhora dos Acordados, tal a seca que assolou o lugarejo após o  prolongado e rigoroso frio, coisa só vista naquelas bandas.
Foi quando apareceu por lá, vindo não se sabe de onde, um tipo magro e esguio, cabelos  pelos ombros  e barba a cair  peito afora. Descalço, trajes em frangalho, bramia com firmeza o cajado que de tanto uso rebrilhava nas partes por ele manuseadas.
A princípio, um desassossego a presença de tal figura, aqueles olhos vivos e inquietos que não se fixavam em lugar nenhum, o nariz adunco como a farejar os ares. Viu-se, depois, que nenhum perigo oferecia à segurança dos moradores, e com o tempo foi sendo aceito como era, criatura inofensiva, e muitos até passaram a botar fé no palavreado de suas pregações ditas proféticas.
Suas benzeduras principiaram a criar fama, e vez por outra era visto em meio aos grupos de rezadeiras e nas perigrinações ao Santo Cruzeiro, ele sempre na dianteira rezando o “in nomine domine”.
O inusitado se deu na Capelinha do Meio, uma igrejinha de dimensões tão diminutas que mal comportava umas trinta pessoas.
Estava um sol de estalar mamoma quando teve início a rezação, tendo ele – Maroveu  Pára-Raio -  como pregador principal e intermediário entre Deus e os fiéis. E ele dizia que o pedido daquele dia e daquela hora ia ser atendido, e que se preparassem para o sinal que viria do Alto.
Os fiéis não arredavam pé, ouvidos atentos às falas do Beato, que num repente, ajoelhado no chão duro de terra batida, e as mãos postas e elevadas aos Céus agradecia os pingos que gotejavam do forro de taquara da humilde casa de oração. Em peso, e deveras emocionados, os fiéis seguiram-lhe o exemplo e se ajoelharam em bloco. Só ficou de pé Mané do Bode, doido manso, cria do lugar,  que à maneira de cachorro sem dono era de presença cativa em todos os lugares, era só achar a porta aberta.  Alguns mais fervorosos e apressados insistiam com Mané que se ajoelhasse, mas ele, sem dar ouvidos, abaixando-se, molhou o dedo no líquido que persistia na pingação.
Provou daquilo, arregalou os olhos, fez cara feia, cuspiu fora e deu o veredicto:
- É chuva não, é mijo de gambá!

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1 Comentário »

  1. Eneida Tagliolatto Pires comenta:

    11 Fevereiro, 2008 @ 13:18

    Gabriel, o Mané do Bode acabou com a graça de Maroveu Pára-Raio, considerado beato por todos.
    Mané do Bode não era descrente de milagres, isso não; mas desconfiado como bom mineiro, quis ver para crer, ou melhor, lamber para crer. E deu nisso; o gambá saindo de bexiga vazia e o Mané mostrando a todos que era bem esperto, pois logo percebera que não podia ser chuva, pois onde já se viu chuva amarela.

    Eneida Tagliolatto

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