Fev
03

Contos do Bié - Nhá Tuca*

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro
                                                  Nhá Tuca. (+)

Tachos de doces

Num profundo suspirar,  miro à minha frente
um taquinho de nada do tudo que
me lembram os doces de goiaba,
as geléias de amora e de mocotó,
                                  quitutes de tempos idos;
e de quando eu saía à cata de gravetos
para formar as labaredas que lambiam
a bunda preta do  enorme
e familiar tacho de cobre.
E a laboriosa Nhá Tuca,
os cabelos nevoentos  e
em coque, cobertos por um fado,
as longas saias se arrastando;
                                  munida da surrada colher de pau,
mexia e remexia – santa lerdeza! 
a mistura  pegajosa e plena de sustança.
Bicas de suor lhe inundavam a face,
os óculos baços a lhe caírem nariz abaixo…
- Ajeita aqui, Bié – pedia-me  Nhá  Tuca.
                          De pronto, na certeza de um agrado,
lá ia eu a limpar-lhe as lentes
e ajeitar a peça no rosto encharcado.
E ficava a reparar no seu jeito de ser,
figura inesquecível que de amor
me encheu a vida.
Tão doce, tão doce o seu olhar…
Que hoje não consigo achar graça
nas modernas docerias,
tal a sentida ausência daquele rosto,
            saudosa,  terna e laboriosa Nhá Tuca…

                               * Homenagem a  Gertrudes do Amaral,
                                precursora dos doces caseiros Inhá Tuca,
                                de Espírito Santo do Pinhal – SP

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3 Comentários »

  1. Silvia Trevisani comenta:

    5 Fevereiro, 2008 @ 06:57

    Bié…

    Está homenagem tem a docura do mel…
    A textura do doce do algodão…
    A beleza do azul do céu…
    E a bondade do seu coração!

    Obrigada por fazer a nossa vida mais doce…
    Tão doce que até me esqueci de chorar…

    Bjs da Poetisa Silvia

  2. Eneida Tagliolatto Pires comenta:

    8 Fevereiro, 2008 @ 06:25

    Gabriel, só hoje pude ler o seu trabalho, é que eu estava no sítio e lá é lógico não tem computador.
    Nhá Tuca devia ser mesmo uma criatura tão ou mais doce do que os próprios doces que fazia, tal é a sua saudade dela. Uma saudade que impede até de você sentir graça nos doces desse tempo presente, e fica sentindo o sabor deixado pelo tempo passado. O passado é um tempo muito importante em nossa vida.
    O passado triste a gente faz força e esquece, mas o passado feliz, esse devemos fazer questão de sempre recordar, mesmo que lágrimas rolem em nossas faces.
    São lágrimas benditas, de um tempo que não volta mais.

    Eneida Tagliolatto

  3. Laérson Quaresma comenta:

    14 Setembro, 2008 @ 17:36

    - Meu caro Bié, boa-tarde!

    Depois de caminhar par-e-passo pelos “meandros da vida”, da sua e nossa, dessa gurizada ávida de saber e plena de sapiência, com os pés descalços e carregados de “pó”, bater um papo desses de “meninos e meninas” vindos através das faculdades da Dona parteira, chega a doer a saudade dessas infâncias que não mais voltarão. Que fique então, ao menos, o sonho gostoso do banho de bica da irmã Cecília, lavando almas e acalentando os sonhos afogueados daquele pobre e riquíssimo guri…!

    Aí, para terminar desta feita, nada melhor que surrupiar (sem maldade, mas louco de vontade) um naco de um desses doces da Nhá Tuca, mulher-doçura, para a longa viagem da recordação, do passado melado de sabores mil!
    Um beijo em su’alma, Poeta, que adoçica o nosso cotidiano atual/industrial sem quaisquer suores, mas com milhões de conservantes e uma doçura irreal e tristemente artificial!

    Fraternalmente,
    Laérson Quaresma.

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