Arquivo de Janeiro, 2008

25
Jan

 Contos da Silvia Trevisani - Sonho de papel

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoção

Colaboradora: Silvia Cristina Martins Trevisani *

* Poetisa Paulista

SONHO DE PAPEL
Aquele era mais um ano que Alice ficava sem sair da fazenda. Mas com um sabor diferente. Estava de férias.
A menina só conhecia o mundo pelas fotos que via na escola. Havia completado sete anos no começo do ano. Era uma criança muito feliz. Quando não estava na escola onde freqüentava a primeira série, passava muitas horas do dia embaixo do abacateiro, debruçada em sua cartilha, onde havia aprendido o bê-á-bá.
Folheava página por página, encantada com as ilustrações que identificavam cada letra do alfabeto. A letra “a†de abelha, depois a “b†de barriga, a “c†de casa e assim por diante. Foi descobrindo a arte de ler e escrever.
Como toda garota da sua idade, sonhava em ter uma boneca de verdade. Com cabelos, olhos, e roupas coloridas, dessas que se viam nos livros e nas gravuras que a professora levava para a classe.
Alice brincava com as bonecas de milho que seu avô plantava. Escolhia as loiras, as morenas as ruivas, mas se entristecia porque elas não tinham rosto. Como as bonecas poderiam conversar se não tinham bocas? Essa era uma situação que incomodava demais a menina.
No Natal, a tia que morava na cidade, lhe prometeu uma boneca de verdade, mas como não foi mais passear na fazenda, o presente havia caído no esquecimento. E Alice se contentava em correr pelas pradarias atrás das borboletas coloridas que pousavam nas flores campesinas e a brincar com as bonecas que colhia no milharal.
Não tinha muitas amiguinhas e por isso conversava com a Lucrécia, a cabritinha que havia nascido na fazenda e se tornado sua companheira inseparável. Até para estudar a menina mantinha o animalzinho por perto.
Muito cativante, era a alegria dos trabalhadores da fazenda. Sempre que possível, ela improvisava um banquinho onde subia para cantar e recitar versinhos para eles:
“Batatinha quando nasce, espalha as ramas pelo chão, menininha quando dorme põe a mão no coração…â€, e outros… “Eu venho lá do sertão, para as coisas que vou contar…†e mais outros.
Num dia inesperado a boneca prometida lhe chega às mãos.
Tão linda e loira de cabelos cacheados, tinha lindos olhos azuis, rosto corado, boca vermelha e roupas coloridas. E um detalhe que a pobre desconhecia. Era feita de papelão.
Sorriu de alegria abraçada à boneca e a batizou de Belinha. Aquela tarde foi de festa. Brincou com Belinha em cima da cama, na sala, na cozinha e debaixo do abacateiro. E foi lá mesmo, que ela esqueceu a boneca antes de dormir.
À noite, os trovões, os relâmpagos e a chuva, foram destruindo pouco a pouco o sonho de Alice.
Na manhã seguinte a menina levantou-se e foi correndo buscar Belinha. Quando se aproximou não pode mais ver o rosto da sua boneca. As roupas cobriam um monte de papel encharcado no chão.
Ela pegou o que sobrou em suas mãos e as lágrimas brotaram em seus olhos. Em soluços tentava reanimá-la:
- Belinha… Minha amiguinha querida… Acorde por favor… Nunca mais te deixarei sozinha… Deve ter sentido muito medo da escuridão…
E por mais que Alice chorasse e esperneasse, a pobre Belinha permaneceu desfigurada.
Ela chegou a acreditar que os sonhos não chegavam ao fim.
Para sua tristeza, aquela foi a única boneca de verdade que teve na vida, mas durou o tempo exato de um sonho. Um sonho de papel.

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24
Jan

 Estudo de caso - Acidente vascular cerebral

Categoria(s): Cardiogeriatria, DNT, Emergências, Neurogeriatria

Interpretação clínica

Mulher de 58 anos, trazida ao pronto socorro com história de ter sido encontrada caída na sala da casa. A filha relata que a mãe é diabética e hipertensa, em tratamento há 10 anos. Exame físico geral obesidade. No exame cardiológico, pressão arterial normal, pulsos normais, freqüência cardíaca de 80 batimentos por minuto. No exame neurológico apresentava-se lúcida, com diminuição dos movimentos e da sensibilidade tátil, térmica e dolorosa no lado direito do corpo; diminuição dos movimentos do rosto, da fala e perda da visão na metade dos campos visuais. Qual o possível diagnóstico e que exame ajuda no diagnóstico?

O diagnóstico mais provável é de um acidente vascular cerebral, possivelmente isquêmico na região irrigada pela artéria cerebral média. Os AVCs devem ser diferenciados da maioria dos processos expansivos cerebrais (neoplasias, abscessos, granulomas, hematomas subdurais) por estes terem uma instalação mais lenta e gradual no decorrer de semanas, geralmente sem regressão do quadro, a não ser que recebem tratamentos específicos.

Veja as clínicas dos AVCs de acordo com a artéria obstruída - Aspectos clínicos dos AVCs

Acidente vascular cerebral

Os acidentes vasculares cerebrais (AVCs) são doenças que acarretam alta mortalidade e morbidade, além de consumir enormes recursos da sociedade. Os AVCs incidem predominantemente em indivíduos acima da meia-idade (sua incidência se duplica a cada década acima dos 55 anos), sendo raros em adultos jovens e crianças.

O fator de risco mais importante é a hipertensão arterial sistêmica, seguida do diabetes mellitus, ambos levando a aterosclerose. No caso dos AVCs embólicos, o principal fator de risco é a doença cardíaca (infarto do miocárdio, valvopatias, insuficiência cardíaca congestiva, disritmias).

Diagnóstico

O elemento essencial do diagnóstico é a história e o exame fisiconeurológico. Devendo-se buscar informações sobre o início e evolução dos sintomas e sinais.
Os AVCs se caracterizam por:
1. Seu perfil evolutivo, com início abrupto dos sintomas, instalando-se o máximo da lesão em horas, com posterior regressão.
2. Evidência de lesão focal no sistema nervoso central.
3. Quadro clínico correspondente a disfunção do território de irrigação de determinada artéria ou ramo arterial cerebral

Tratamento

O tromboembolismo de origem cardíaca contribui significativamente para a morbidade e mortalidade nos AVCi. O dilema no tratamento é o uso de terapia anticoagulante, que poderia transformar áreas isquêmicas em hemorrágicas, com a subseqüente deterioração neurológica. De outro lado, a sua não utilização poderia facilitar a recorrência de fenômenos tromboembólicos.

A avaliação clínica criteriosa e a tomografia cerebral são fatores fundamentais na decisão relativa ao uso ou não da terapia anticoagulante.

Critérios para uso de anticoagulantes

Nas primeiras 48 horas não é indicado o uso de anticoagulante, devendo-se neste período fazer os exames de avaliação hemodinâmica e homestática, pois neste período pode ocorrer transformação de isquêmico em hemorrágico em 20% dos casos.

Quando a tomografia revelar comprometimento isquêmico pequeno ou médio, sem hemorragia, em pacientes normotensos, inicia-se a anticoagulação com heparina e concomitantemente anticoagulante oral.

Nos casos de grandes áreas isquêmicas, ou hipertensão arterial grave a anticoagulação deve ser iniciada após 7 a 10 dias, e nas hemorragias cerebrais anticoagulação está contra-indicada.

Referência

Whisnant JP - Epidemiology of stroke: emphasis on transient cerebral ischaêmic attacks and hypertension. Stroke. 1974;68.

Damasceno BP, Borges G - Acidentes vasculares cerebrais. Rev Bras Med.1991;48(3):72-85.

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24
Jan

 Poemas de Arita - Precisa-se

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaboradora: Arita Damasceno Pettená *

* Poetisa Paulista

PRECISA-SE

Precisa-se de uma senhora
Sem hora…
Sem… ora - digamos…
Plena de vida,
Cheia de vida,
Para ocupar
Um espaço a dois.
Paga-se bem!
- Bem pra lá…
Bem pra cá.
E que ame tão bem.
E seja também tão amada!
Que um dia,
Ainda que longe,
Possamos dizer
Cheios de saudade:
Nunca estivemos sós!
Precisa-se de uma senhora
Sem hora…
Sem… ora - digamos…
Plena de vida
Pra encher de vida
Alguém sedento de amor!

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23
Jan

 Estudo de caso - Síndrome do seio carotídeo

Categoria(s): Cardiogeriatria, Caso clínico

Interpretação clínica

Senhor de 64 anos, trazido ao pronto socorro com história de ter sido encontrado caído no quarto. O filho relata que encontrou o pai caído quando estava se vestindo para ir ao jantar de 40 anos de casamento com a mãe e filhos. No exame de entrada no pronto socorro está bem lúcido, consciente e sem déficit motor. Refere que deve ter ficado desmaiado por alguns segundos, que logo recobrou a consciência. Somente se lembra que estava vestindo a camisa e o colarinho estava muito apertado dificultando fechar o botão e colocar a gravata, e isso estava deixando-o nervoso. Havia feito um check up médico há 4 meses e todos os exames estavam normais. No exame cardiológico, pressão arterial normal, pulsos normais, freqüência cardíaca de 80 batimentos por minuto. No exame neurológico normal. Eletrocardiograma normal.

Qual o possível diagnóstico e que exame ajuda no diagnóstico?

A histório do paciente permite o diagnóstico de síncope de origem circulatória, ou por queda da pressão arterial, ou parada dos batimentos cardíacos (assistolia). Episódios de taquiarritmia (fibrilação atrial, taquicardia ventricular) seriam percebidas pelo paciente. Um dos motivos que explicariam a síncope seria a resposta vagal (disfunção vagal), que ocorre quando a pessoa muda súbitamente da posição supima (deitada) para ereta (em pé). Veja hipotensão ortostática

O relato do paciente, que está tendo dificuldades para fechar o botão do colarinho da camisa, que estava muito apertado, sugere compressão do seio carotídeo.

Denomina-se seio carotídeo hipersensível se existe resposta exagerada ou hiperativa a compressão mínima do seio carotídeo, com assistolia (por causa sinusal ou Bloqueio AV paroxístico) igual ou maior que 3 segundos (resposta cardioinibitória) e/ou da pressão sistólica igual ou maior que 50 mmHg (resposta vasodepressora). Fala-se em síndrome do seio carotídeo quando além da hipersensibilidade do seio carotídeo, existem sintomas que surgem em decorrência de movimentos rotineiros que estimulam o seio carotídeo (colarinho apertado, ato de barbear ou virar a cabeça, etc).

seio carotídeo

O diagnóstico é realizado com verificação deste fenômeno no setor de estudo hemodinâmico, com monitorização dos parâmetros cardiovasculares, e aplicando uma massagem no seio carotídeo (veja a figura).

Indica-se o implante de marca-passo nos pacientes com síncopes repetidas, claramente provocadas por estimulação do seio carotídeo, nos quais manobras provocativas míminas produzem assistolia superior a três segundos, na ausência de medicação que deprima a função sinusal ou condução AV.

O seio carotídeo localiza-se na bifurcação da artéria carótida comum nas carótida interna e externa. Essa estrutura nervosa transmite ao cérebro as informações pressóricas que passam na artéria carótida, regulando a pressão arterial e a freqüência cardíaca.

seio carotídeo

Discute-se a indicação para os pacientes com síncopes ou pré-síncopes repetidas, sem ocorrências provocadoras evidentes e com resposta cardioinibidora superior a três segundos.

Não esta indicado o implante de marcapasso aos pacientes assintomáticos ou com sintomas vagos, como tonturas ou vertigens, mesmo com resposta cardioinibidora a estimulação do seio carotídeo, ou cuja resposta seja exclusivamente vaso-depressora.

Referência:

Lorga AM, Paola AAV, Sosa EA, Maia IG, Pimenta J, Gizzi JC, Rassi SG - Diretrizes para implante de marcapasso cardíaco definitivo. Arq Bras Cardiol. 1988;50(3):209-212.

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22
Jan

 Poemas da Eneida - Solidão

Categoria(s): Contos e Poemas

Emoções

Colaboradora: Eneida Tagliolatto *

* Poetisa Paulista

Será que o que sinto é solidão?
Solidão, quem sabe!
Mas solidão? Como se tem gente em casa…
Solidão, porque não tenho alguém que preencha o vazio de minha alma.
Solidão!
Ai de mim se não tivesse versos para ler,
se não tivesse amigos de e-mails,
se não tivesse enfim minha poesia, para assim extravasar,
as mágoas, tristezas, lamúrias…
Mas minhas poesias não são somente lamentos,
tenho também bons momentos…
Momentos de satisfação, de alegria, de emoção.
Mas eis que bate logo em seguida, uma saudade dolorida,
e eis de volta a SOLIDÃO.

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