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Jan
29
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Contos da Eneida - Meditação
Categoria(s): Contos e Poemas |
Sabedoria
Colaboradora: Eneida Tagliolatto *
* Poetisa Paulista
Silêncio! Estou tentando meditar, vocês não perceberam ainda? Digo isso em voz alta, para que todos da família, que agora está reunida e se encontram na sala, se calem.
O silêncio é total e percebo que todos estão olhando para mim, com olhos assustados, como a indagar:
- O que tem? Tá louca?
Agora sou eu que fico estarrecida. Puxa, que direito tenho eu de exigir que todos à minha volta fiquem mudos. Só porque quero meditar?
Peço desculpas. Todos parecem aceitar e trocam olhares entre si.
Acho que devo ir à pracinha, mas como vou meditar se lá tem playground, mesinhas de cimento com bancos ao redor, para os aposentados jogarem dominó, damas, xadrez, truco, etc e tal. Devo ir viajar para as montanhas, lá pelo menos com a natureza ao meu redor, poderei meditar mais tranquila, ou quem sabe para uma praia deserta.
Outra vez me pego em críticas. Lá também não posso; hoje com a moda de esportes radicais, decerto terá gente praticando montanhismo, rapel, trekking, etc. Na praia que bobagem a minha, não existe mais praia deserta, elas foram invadidas pelos adeptos do nudismo, surfistas, jet-ski, e tantos outros mais esportes.
Realmente está difícil meditar. Até nas igrejas que antes era puro silêncio; fora é lógico, dos horários de missa ou de culto, hoje tem sempre alguém ensaiando – não órgão – que é coisa do passado, mas flauta, violino, piano; sem contar que tem beatas que se reúnem para aproveitar o momento com a desculpa que vão rezar, e assim colocarem as fofocas em dia.
É! Está mesmo difícil meditar. Mas espera aí, meditar vem de meditação e isso é coisa para monge que consegue se desligar do mundo ao seu redor. Eu não. Tenho certeza que até um simples pardal me tirará da meditação.
Reflito e chego a seguinte conclusão. Vou fazer o que fazia antes; vou conversar com meus botões. Abaixo os olhos e procuro em minha roupa algum botão. Nenhum, o vestido que estou usando é de enfiar pela cabeça, coisa muito comum hoje em dia.
Ai, hoje não é mesmo para eu ter um momento só meu.
Chego até à sala, peço para minha neta se afastar um pouco no assento do sofá, sento-me e percebo o olhar de todos sobre mim. Olho para todos e digo:
- E aí, qual é o papo do dia?

Silvia Trevisani comenta:
29 Janeiro, 2008 @ 11:14
Olá Eneida…
Está abusando da sua criatividade. Cada dia mais audaciosa e inteligente.
Seu texto está maravilhoso, lirico e ao mesmo tempo muito engraçado.
Silêncio: Agora sou eu que vou falar:
- Está de Parabéns amiga Eneida!
Bjs
Silvia Trevisani
Gabriel Araújo dos Santos comenta:
30 Janeiro, 2008 @ 04:43
Não é só a Eneida que está a implorar silêncio. Todos nós. O mundo está barulhento demais no íntimo das pessoas, que embora no seu mutismo, trazem em si o seu grito interior. Olha eu aqui, em meio a tantas desilusões, escutem-me! E ninguém o escuta. A começar pelos que estão plugados ao poder corruptor.
Maria das Dores Silva Bento comenta:
22 Fevereiro, 2008 @ 12:38
A gente ainda teima em andar pelos cantos dentro de nós mesmos para simplesmente descobrir que o barato desta vida é estatarmos juntos e misturados dentro de nós……ninguém é FELIZ sozinho….