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27

Contos do Bié - Noêmia

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

                     NOÊMIA       

     O menino Bernardino, ou Dino, como todos o chamavam, não via a hora de terminar a missa daquela manhã de domingo.
     Entrara para dez anos de idade, era um menino ativo, respeitava a todos, em especial os mais velhos, e a muitos tomava a bênção, embora não houvesse nenhum parentesco entre eles, costume da época ali em Nossa Senhora dos Acordados, perdido lugarejo do interior das Gerais.
     Era o mês de julho, férias escolares, e ele queria tirar o máximo dos dias que ainda lhe restavam de folga e retornar à Fazenda do Emparedado, propriedade do  Tio Quincas, de onde regressara há uma semana, quando prometeu a Noêmia que logo estaria de volta.
     De fato, a liturgia daquele domingo era por demais comprida, e agora entoavam a ladainha de todos os santos, uma lerdeza de cantoria, aquilo se arrastando e parecia que não ia acabar nunca..
     Ele estava longe, os pensamentos lá na Fazenda Emparedado, melhor dizendo, na figura jovial e terna e alegre de Noêmia, morena nascida e criada ali na fazenda, órfã de pai e mãe aos quatro anos de idade, por conta do desmoronamento de uma lavra de malacacheta nos domínios da propriedade onde eram agregados.
     Agora com quinze para dezesseis anos, era disputada por todos os moços da redondeza, mas ninguém chegava perto, que o Tio Quincas, bravo que ele só, nunca ia deixar que ela fosse levada para outras bandas, e isso ele prometeu à D. Marcelina, avó paterna de Noêmia, quando se despedia deste mundo.
     Tida e havida como íntima das coisas secretas do sagrado, para não dizer feiticeira, sua fama passou a dar proteção à neta, e todos, em especial os da fazenda, guardavam o devido respeito por ela.
     Em casa, os familiares do menino Dino estranharam seu novo proceder, aquilo de ir sozinho e Deus para a fazenda.
     Voz geral que o menino Bernardino ficara corajoso de repente, que trem esquisito, logo ele, como os demais de sua idade, e até mesmo as pessoas adultas, tinham medo de um tudo, de onça, de vaca brava e assombração.
     Como se dizia, o caminho para a fazenda era espichado, e passava por lugares ermos e as árvores, de tão grandes e frondosas, as copas se entrelaçavam e sombreavam imenso percurso, com parecença de anoitecer.
     Havia ainda a passagem pela trilha do Corpo Seco, e conforme a hora ouviam-se rufares de tambores e cantigas de batuque, almas encantadas que saudavam o novo dia. 
     O certo é que Bernardino, o menino Dino, ficara de fato corajoso. E foi depois da derradeira noite que passou ali na fazenda…

“Permancera, como era hábito, até tarde – nove horas já era noite profunda -, a escutar os causos que os agregados contavam ao redor da fogueira, que costumeiramente acendiam lá num dos cantos da curralama, para espantar o frio.
    Com a chegada de mais gente à fazenda, cama não havia.  
    Ele, menino ainda, natural que cedesse a acomodação aos mais velhos, e se ajeitasse no quarto de Noêmia, onde havia mais um catre.
    A horas tantas, vindo-lhe à lembrança os causos que escutara ao redor da fogueira, perdeu o sono, e mexia e se remexia,  o barulho das palhas do colchão deixando-o mais nervoso ainda.
    - Noêmia, tô cum medo.
    - Mê de quê, minino?
    - Da mão cabiluda.
    - A mão cabiluda tá longe daqui.
    - Má tô cum medo.
    - Reza, reza pras alma.
    - Noêmia, pur quê os cachorro tão latino?
    - Tão cunversando com a Lua. Num vê qui  é  Lua cheia?
    - Tão falano o quê?
    - Uma purção de coisa, uai!
    - Noêmia, pur quê os gatos num mia?
    - É pro mode que tão caçando rato e preá. Eles drorme de dia e caça de noite.
    - Noêmia, pur quê os bizerro tão berrano?
    - Tão sintino falta da mãe deles.
    - Pur quê o Jofre não deixa eles ficá junto com a mãe deles?
    - Sinão manhã as vaca num tem leite não, qui o bizerrinho mamou tudo.
    - Noêmia, ocê tamém tem medo?
    - Tenho medo não. Só tenho medo de Deus.
    - Noêmia, inda tô cum medo, posso i pro seu catre?
    - Pode, vem logo, qui eu quero durmi.
    - Vô ribuçá a cabeça. Ocê tamém gosta de ribuçá?
    - Pára de falá e drorme.
    - Noêmia, as pessoas grande tamém têm medo?
    - Algumas têm, outras, não.
    - Pur quê o Nesmim, qui já é grande, é tão medroso, e parece bobo?
    - Coitado, fala mal dele não. Ninguém sabe se ele é home ou muié.
    - Quando é qui vou perdê o medo e ganhá corage?
    - Dispois cocê fizé bobage.
    - Bobage cum as mininas?
    - Não, cumigo.
    - Cocê?
    - Sim. Cê num qué?
    - Num é pecado não?
    - Fazê cocê num é não. É pecado fazê cum o Jofre. Ocê é um anjo, muito puro.
    - O Jofre é mau?
    - É mau não, é pirigoso, qui já é home feito.
    - Já fez bogage cum ele?
    - Quê isso, minino! Tá doido!
    - Noêmia, e cumé qui faz bobage?
    - É assim, toma, ocê é meu fiinho.
    - Noêmia… – a voz em sussurro e quase inaudível – cê tem leite?
    - Não…. Tá gostano?
    - Qui trem bão eu vim praqui.
    - Tá passano o medo?
    - Medo? Isquici tudo! – a voz sumida e trêmula.
    - Cê nunca fez isso?
    - Não. Tá bom dimais! Só que meu pó tá dueno. Oia procevê, tá duro.
    - Tá dueno? Deixa eu vê.
    - Só qui é uma dor gostosa.
    - Vou sará ele procê.
    - Cê tem uma língua macia e quente. A minha tamém é assim?
    - É mais gostosa que a minha, toma, pó fazê mais. Nos dois…
    - Noêmia, eu vou ficá corajudo hoje ainda?
    - Já tá.
    - Ai, Noêmia, cê tá pertano muito minhas perna! Cê tá moiada de mijo?
    - Não, bobinho, meu tixé tá chorano de gozo.
    - Noêmia, eu num sabia qui o tixé chorava.
    - É um choro gostoso. Seu pó tamém tá chorano.
    - Eu quero qui ele chore bastante pra eu ficá bem corajudo.
    -  Noêmia, pur quê ocê tá tremeno, parece qui tá morreno?
    - Tô morreno, não, bobo – a voz sumida e entrecortada.
    - Eu tamém tô morreno dessa morte, qui morte boa…Quiria morrê sempre assim…
    - Noêmia, já pirdi o medo. Tô cum sono…
    - Toma, fica mais um pouco e drorme”.
                          -
    Era sol morrente quando o menino Bernardino passou pela última das inúmeras porteiras da imensa curralama.
    Não havia quem não comentasse sua coragem.
    Mais prestígio ganhou Noêmia, cuja fama, com os feitícios herdados da avó, não encontrava rival naqueles ocos das Gerais.

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2 Comentários »

  1. Eneida Tagliolatto Pires comenta:

    27 Janeiro, 2008 @ 07:11

    Gabriel, não sabia que fazer determinadas coisas intituladas de sem-vergonhice, proibidas, feia, etc… deixavam a pessoa corajosa. Isso é novidade para mim, mas dito por você acredito e não retruco.
    Agora que Noêmia era esperta, isso sim, ninguém pode negar. Eta morena cheia de truques para satisfazer seus desejos carnais. Com a fama de feiticeira e ainda por cima, um dos seus trabalhos de feitiço era tirar o medo dos moleques que ainda urinavam na cama tanto era o terror que sentiam. Essa fama deve ter corrido léguas.
    E para finalizar, digo que:
    Tinha noite que fazia fila de moleques que se queixavam de recaída.
    Eneida Tagliolatto

  2. Silvia Trevisani comenta:

    27 Janeiro, 2008 @ 08:04

    Gabriel, esta sua cidade Nossa Senhora dos Acordados, me lembra a novela de Roque Santeiro, onde tudo que era inusitado acontecia por aquelas bandas. Vc é muito genioso…consegue tirar gargalhadas de muitas situações que nos fazem questionar… será que isso aconteceu de fato ou é imaginação do Bié? Mas se vc falou tá falado, como disse a Eneida, não retrucamos!

    Parabéns por tanta criatividade…

    Silvia Trevisani

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