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Contos do Bié - O lugar, suas gentes e seus costumes

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro
Nossa Senhora dos Acordados, no auge da febre do ouro e
do diamante nos confins das Gerais, foi erguida entre as alterosas num
dos pontos mais altos daquele oco de mundo. De tão alta, e tantos os
acidentes topográficos, que estradas nunca existiram, mas estreitas e
íngremes trilhas por onde até hoje as conduções trafegam com
dificuldade de toda ordem.
Teve um tempo que para ali chegarem, as pessoas
deixavam o carro ou a jardineira no sopé da grande montanha, onde
ficavam a pastar inúmeros e bons animais de carga e sela que faziam o
resto do trajeto até o lugarejo.
As autoridades, pelo menos o prefeito nomeado, não
tinham lá muito entusiasmo pelo progresso, e se justificavam que era
para não despertar a curiosidade de visitantes inoportunos e turistas
indesejáveis. Quanto mais desconhecido e de difícil acesso o lugar,
tanto melhor, que temiam por mudanças radicais em seu cotidiano.
Era este também o pensamento entre os de meia
idade, assim considerados os da faixa de 50 a 70 anos, como igualmente
entre os mais vividos, dos de 100 para mais.
Existiu época em que havia pouquíssimos jovens, assim vistos os de 40
a 60 anos. Mais e mais crescia a leva dos de meia idade, considerados
os de 70 anos para cima.
Tudo pelo fato de a vida ali se prolongar além da
conta. E havia os que se mudavam e retornavam depois de atingirem
certa idade, e era baixo o índice de óbitos.
Ainda é comum casas e mais casas fechadas e sobradões
centenários esperando pelo retorno de seus antigos moradores.
Uma figura muito conhecida na cidade era o Zé Tira
Jejum, além do Dirceu Péla Égua. Aquele, pedreiro; e este um famoso
embuçador de telhados, profissão herdada do pai, que por sua vez
aprendeu com o avô. Na faixa dos 92 anos, não enjeitavam nenhum
serviço.
Havia também o Zé Minhoca, de profissão lá chamada bombeiro, a
que em outras regiões do Brasil denominam encanador. Só descansou da
lida e se foi em definitivo aos 104 anos, quando o burrico Gabinete
lhe deu uma patada nas virilhas.
Tinha como ajudante um de seus catorze filhos,
Minhoquinha, que aos oitenta e dois anos não largava de sua caixa de
ferramentas pela cidade afora.
Os treze restantes caíram no mundo. Quim Traíra, Zé do
Beco e João Mandi retornaram, e estão lá…

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1 Comentário »

  1. Eneida Tagliolatto Pires comenta:

    13 Janeiro, 2008 @ 13:29

    Gabriel, hoje tentei entrar várias vezes para ler o seu conto, mas o site estava com problemas, então só agora é que consegui, mas eu fiquei meia confusa porque eu tinha certeza que já havia feito o comentário sobre esse conto e procurando descobri que ele já foi publicado em 18 de dezembro. Então meu amigo o meu comentário lá está.
    Continue firme, forte e inspirado como até agora.
    Abraços da amiga dos Encontros Líteros-Musicais (SESC), e do Nosso Sarau -Poetas Campineiros-

    Eneida Tagliolatto

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