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Jan
06
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Contos do Bié - Chico Voador
Categoria(s): Contos e Poemas |
Sabedoria
Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *
* Poeta Mineiro
CHICO VOADOR.
O suíço Daniel Maytre, um dos três estrangeiros do lugar,
com cento e dez anos, era a figura que iluminava a cidade, daí a
consideração para com ele, que não tinha apelido. Foi quem instalou
num dos córregos da região a artesanal usina hidroelétrica, a que dava
manutenção.
Adjutorado pelo Sr. Agenor Polidoro, mais ou menos de
sua idade, idealizaram uma roda enorme, instalada num dos picos da
redondeza, a que deram o nome de motu continuo, que tinha por ação
mover um imenso ventilador, também idealizado e fabricado por eles,
cuja finalidade era desviar parte da neve que acumulava sobre a
igreja.
Tanta a neve, que punha em risco todo o templo, torre de
altura de perder de vista. Foram eles também que, com o inestimável
apoio do vigário, que também era prefeito, dito nomeado, isso há muito
tempo, instalaram um enorme - para a época - e moderno telescópio. Só
que o telescópio, que está lá até hoje, é voltado não para o céu, mas
para a imensidão do vale e montanhas além. É um distraimento para as
pessoas do lugar, pois que ali, de tão alto, tão alto, dá até para
avistar o mar, mas só o cais, onde aportam os grandes navios. Já as
praias ficam de fora do foco do telescópio, que aquilo não é coisa de
se ver, tais os trajes pecaminosos das banhistas.
Foi também com o auxílio deles que Chico Voador
construiu seu aparelho de voar. A princípio foi uma dificuldade danada
lidar com aquele trambolho, e o Chico chegou a levar inúmeros tombos e
ficar com braços e pernas na tipóia.
Mas foram estudando o trem, dando um jeito aqui, outro
ali até simplificarem a coisa, e aí foi aquela alegria. Com ele
acoplado às costas, Chico saiu voando e ganhando distâncias, uma
diversão para todo mundo, menos para o vigário, que dizia estar o
Chico contrariando a natureza da criação.
Tamanha a repercussão do feito, e apesar do isolamento
do lugar um jornal da Capital estampou a manchete na primeira página:
Em Nossa Senhora dos Acordados, a ignota Suíça Mineira, cai neve e o
homem voa como um pássaro!

Silvia Trevisani comenta:
6 Janeiro, 2008 @ 06:51
Mestre Gabriel!
” … cai neve e o homem voa como um pássaro! “… imaginação sonhadora, livre, tal qual sonho de criança…
Vestir uma fantasia de super-men e alcançar as alturas… de lá ver o mar encrespado pelo vento… as ondas baterem firmes nas rochas… respingando aqui e alí um gosto de quero mais.
Poeta é assim mesmo! Sonhador… nunca se escuta falar em dor…
Poeta só tem dor de paixão… e esta, é a dor mais saudável do ser-humano. Pobre de quem nunca sofreu por um grande amor.
Adorei o Chico voador… que ele voe com você, muito além desta vida…
Bjs da poetisa Silvia
Eneida Tagliolatto Pires comenta:
6 Janeiro, 2008 @ 07:27
Gabriel, Minas Gerais não tem mar, e no Brasil não cai neve, mas a desconhecida cidade mineira de Nossa Senhora dos Acordados, que fica tão escondidinha, mas tão escondidinha que só através de um conto seu é revelado essa natureza esplendorosa.
Mas não deixe que a Marta Suplicy, então MInistra de Turismo, descubra isso, pois será um prato cheio para ela, já que a mesma parece que está querendo se candidatar ao governo de São Paulo.
Ah, Gabriel, no instante que ela descobrir que nos confins de Minas Gerais tem mar e neve, ela divulgará à quatros cantos e turistas vão por em polvorosa a Nossa Senhora dos Acordados, e os mineiros residentes aqui em São Paulo, na certa farão campanha contra a sua candidatura, pois mineiro nenhum quer divulgar esse fato e estragar a cidade Nossa Senhora dos Acordados.
A Shangrilá mineira.
Eneida Tagliolatto