08 - dez
  

Anorexia: Caquexia Neoplásica e Fator de necrose tumoral (TNF) alfa

Categoria(s): Biogeriatria, Bioquímica, Câncer - Oncogeriatria, Sociologia, Tanatologia




Revisão: Caquexia Neoplásica e Fator de necrose tumoral (TNF) alfa

Colaborador : Ruy Barbosa Oliveira Neto *

* Biólogo e pós-graduando do curso Saúde e Medicina Geriátrica da Metrocamp

Introdução

caquexiaCaquexia é uma palavra derivada do grego “kakos”, que significa “mau”, e “hexis”, que significa “estado”. Portanto, etimologicamente significa “mau estado”. A caquexia é uma síndrome complexa e multifatorial, que se caracteriza pela perda de peso, com predominante perda de massa corpórea e tecido adiposo. Quanto à caquexia neoplásica, o que a diferencia é o fato da perda da proteína muscular ser precoce, enquanto que nas demais causas de caquexia, há primeiramente uma grande alteração do tecido adiposo e posterior consumo da musculatura esquelética. Além disso, enquanto as caquexias de origem não neoplásicas são corrigíveis por terapia nutricional, a correção da caquexia neoplásica exige um controle sistêmico do câncer associado ao aporte nutricional, psicológico e social.

De Wys obteve resultados quanto à sobrevida do paciente com câncer acometido por caquexia neoplásica, concluindo que sua sobrevida é abreviada em relação à sobrevida de pacientes sem anorexia. Neste estudo, observamos que de 15% a 40% dos pacientes com câncer apresentam caquexia, a qual responde por 10% a 22% das mortes por câncer.

Na caquexia neoplásica, o metabolismo apresenta-se todo alterado, mas como em outros estados de estresse, ocorre uma regulação, visando à preservação de tecidos nobres como o sistema nervoso central e a musculatura cardíaca. Isto ocorre por meio da modelação orgânica, que prioriza o uso da glicose por tais tecidos, mantendo-os em metabolismo aeróbio, enquanto que os tecidos menos nobres passam a fazer o metabolismo anaeróbio para manter suas funções. Isto leva a um consumo das reservas dos tecidos em metabolismo anaeróbio e a um desvio do metabolismo ácido-básico para a esquerda.

Em princípio, há o consumo da glicose orgânica, de duração efêmera. Depois, ocorre a utilização do glicogênio hepático e muscular, convertido em glicose no tecido hepático, mantendo as funções energéticas por até 72 horas em inanição. O organismo começa, então, a usar outras fontes energia, o que se dá por meio da lipólise dos lipídios do tecido adiposo e da proteólise das proteínas musculares. O consumo desses tecidos leva à perda de peso, diminuição do tecido adiposo, diminuição da massa muscular, aparecimento de corpos cetônicos pelo metabolismo anaeróbio, aumento da excreção renal de íons H+ e, por fim, diminuição das proteínas plasmáticas, que serão consumidas quando as outras reservas energéticas estiverem por terminar.

O metabolismo da glicose é totalmente alterado, para preservação dos tecidos nobres, criando mecanismos que inibem sua utilização periférica, via aumento da resistência periférica à insulina, com diminuição de sua produção e aumento da produção de glucagon, já que os receptores apresentam-se em constante estado de hipoglicemia. Todo esse processo constitui-se em um círculo vicioso.

Fisiopatologia da Caquexia

Os mediadores químicos teriam o papel de iniciar ou perpetuar o processo na caquexia neoplásica. Os mediadores implicados nesta função seriam numerosas citocinas como: Fator de Necrose Tumoral Alfa, Interleucina 1 e 6, Interferon Gama e Fator Inibidor da Leucemia. Tais citocinas podem ser produzidas pelo tecido neoplásico e são caracterizadas pela indução da anorexia e uma diminuição da lipoproteína lipase. A habilidade de diminuir a lipoproteína lipase varia entre as citocinas. Assim, o Fator Inibidor de Leucemia é 10 vezes mais potente que o Fator de Necrose Tumoral e este é 100 vezes mais potente que a Interleucina 6. Porém, é improvável que apenas o decréscimo da lipoproteína lipase explique a perda de tecido adiposo observada na caquexia. Diante de grande dificuldade metodológica na dosagem de todos estes mediadores, sua adoção na prática clínica tem sido retardada.

Fator de Necrose Tumoral alfa
– Este fator pode ser apontado como coadjuvante na síndrome caquética. Diversas pesquisas experimentais mostram que a administração do Fator de Necrose Tumoral Alfa leva à anorexia e à depleção de tecido adiposo e muscular em animais de laboratório. Entretanto, observa-se o desenvolvimento de taquifilaxia rapidamente no animal que recebe o Fator de Necrose Tumoral Alfa exógeno. A inabilidade em associar os níveis séricos de Fator de Necrose Tumoral Alfa com o desenvolvimento de caquexia pode ser explicada pela rápida depuração das citocinas no soro e pela sua ligação a proteínas carreadoras. Concentrações elevadas de Fator de Necrose Tumoral Alfa ocorrem em pacientes com malária e leishmaniose visceral e têm sido associadas à caquexia e morte. Em animais de laboratório, pode ser mostrado que o Fator de Necrose Tumoral Alfa é um potente inibidor da lipase. No paciente com caquexia neoplásica há, além da diminuição da lipase, o aumento de RNAm de lipase lipoproteína, restando a questão sobre em qual local agiria esta citocina.

Tratamento da Caquexia

O tratamento da caquexia neoplásica no paciente com neoplasia avançada é ainda um desafio para os profissionais envolvidos com tais patologias. Cada vez mais em voga, o tratamento deve ser multidisciplinar. Um efetivo apoio psicológico é importante, visto que o paciente com câncer geralmente se encontra ansioso com o futuro e o sentimento de culpa pode transparecer no sentido de atribuir o desenvolvimento da doença a algum hábito que julga não condizente com uma vida saudável. Um efetivo apoio social voltado à obtenção de suporte econômico ao paciente durante o período de tratamento também deve ser destacado, para que sua família possa ajudá-lo e acompanhá-lo no decurso desse tratamento. Uma equipe de nutrição presente pode orientar o paciente quanto às suas necessidades nutricionais específicas, especialmente em relação à ingestão calórica e aos alimentos que porventura ele tenha vontade de ingerir, para que se equacione um padrão alimentar desejável com a sua disponibilidade financeira. Por fim, a equipe médica deve ser atenciosa às queixas do paciente e apta para a terapêutica de paciente caquético, para proporcionar-lhe uma melhora na qualidade de vida, dando-lhe dignidade no seu curto período de sobrevida .

Uma visão muito simplista poderia sugerir a reversão do processo de caquexia com a suplementação calórica na dieta ao paciente. Porém, este processo é um círculo vicioso e deve ser revertido ou estacionado através de intervenção antitumoral, tal como cirurgia para ressecção do tumor, radioterapia para o controle da doença ou quimioterapia, dependendo do caso, sendo estas as principais formas de tratamento no câncer e na caquexia. Em algumas circunstâncias, a anorexia ocorre associada a efeitos da terapia antitumoral, como o prejuízo da via digestiva em algumas cirurgias para exérese do tumor e os efeitos adversos da radioterapia e quimioterapia. Dispõe-se hoje de diversas drogas com resultados preliminares animadores quanto à melhora da qualidade de vida, ganho de peso, aumento do apetite, mas sem alteração da sobrevida global.

Não se deve esquecer do aporte calórico oferecido ao paciente, pois é a única fonte de energia de que ele dispõe como uma via de alimentação segura e um tratamento complementar anti caquético. De preferência, esta via de alimentação deve ser a digestiva, uma vez que, em metanálise realizada, observou-se que a nutrição parenteral não reverte o estado de caquexia e, na maioria das vezes, diminui o tempo de sobrevida, em virtude de suas inúmeras complicações não tão raras.

A algumas drogas tem sido atribuída a melhora dos sintomas da caquexia e da qualidade de vida,tais como: Acetato de Medroxiprogesterona, Sulfato de Hidrazina, Ibuprofeno e Ácido Eicosaminopentóico.

Conclusão

É evidente a necessidade de se obter formas para um melhor controle da caquexia neoplásica, já que esta síndrome é tão prevalente nos pacientes com câncer com diminuição da sobrevida e da qualidade de vida. O tratamento farmacológico ainda busca aprovação através de trabalhos randomizados e com maior casuística, se possível multi institucional pois, a escassez destes estudos, principalmente em cabeça e pescoço, não nos encoraja ao tratamento farmacológico. A tendência observada na literatura sugere o uso do acetato de medroxiprogesterona, com ressalvas pela dificuldade da dose ideal, pelos efeitos colaterais, o alto custo e, principalmente, pelos resultados que não são tão satisfatórios no que tange à qualidade de vida. Sem dúvida, em breve teremos uma maneira mais efetiva de diagnóstico laboratorial da síndrome caquética, bem como um maior aporte farmacológico na tentativa de minimizar os efeitos da caquexia, buscando uma melhora na qualidade de vida dos pacientes com neoplasia avançada.

Bibliografia

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2. DeWys WD. Anorexia as a general effect of cancer. CANCER 1972; 45:2013-19.

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12. Oliff A, Defeo-Jones D, Boyer M, Martinez D, Kiefer D, Vuocolo G. Tumors secreting human TNF/cachectin induce cachexia in mice. CELL 1987; 50:555-63.

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9 Comentários »

  1. Dr. Armando Miguel Jr comenta:

    9 dezembro, 2007 @ 12:17 PM

    Necessidade energética do Tumor
    Ruy, Embora os tumores, especialmente os mais malígnos, comumente apresentem velocidades elevadas de glicolíse e liberação de lactato, a necessidade energética do tumor provavelmente não explica a perda de peso, porque perda de peso pode ocorrer mesmo com tumores pequenos. Além disso, a presença de outro crescimento que necessita de energia, o feto na mulher grávida, normalmente não leva à perda de peso.

    Nitenberg G & Raynard B – Nutritional support of the cancer patient: issues and dilemmas. Crit Rev Oncol Hemal 2000,34:137.

  2. santilha aparecida zevetech comenta:

    1 maio, 2008 @ 3:07 PM

    eu gostaria de ter uma explicao pois faz 20 dias que perdi minha mae faleceu com caquexia tumoral e cancer de colo utero faz 8 meses perdi minha irma com cancer de colo utero pois minha mae fez cirugia qui radioterapia ainda teno encontra uma explicao com esta doença pode me ajudar tirar as minhas duvidas obrigada

  3. Polliana Fernandes comenta:

    13 junho, 2008 @ 12:55 PM

    Olá

    Gostei muido desse assunto , só que vocês deveriam colar sobre os cuidados de enfermagem referente a doença caquexia , se poderem colar este assunto vai ser ótimo pois estou fazendo um trabalho e não encontro nada que tenha falando sobre cuidados de enfermagem , se vocês tiverem algo por favor me pande pelo meu e-mail.

    Obrigado
    Polliana

  4. marli eronice cardozo comenta:

    7 agosto, 2008 @ 3:59 PM

    Olá, gostei dos esclarecimentos apresentados e gostaria de sanar algumas dúvidas, tenho um tio que está com um tumor no rim, e não sei ao certo mas esse tumor desecadeou um processo dificultoso de circulação nas pernas, úlcera varicosa nas duas pernas. Assim, hoje ele encontra-se com um corte nas costas na altura dos rins que fora feita uma biópsia, e as duas pernas encontram-se bastante inchadas. Ele não consegue deitar para dormir, ultimamente tem cochilado de joelhos.

    Existe algum meio que possa acomodá-lo de forma a dar um pouco de conforto para que possa dormir???

    Desde já, agradeço a atenção dispensada. Marli

  5. GEIZA comenta:

    31 dezembro, 2008 @ 11:35 AM

    olá ,gostaria de saber se existir algum medicamento da natureza a base de aloe vera
    que possa ser feito em casa de modo seguro p/ulcera varicosa decorrente de má
    circulaçao p/minha tia q sofre ja por muitos anos ,ela usa direto fiaxas nas feridas
    e lhes sao muito doloridas ,ela mora no iterior do recife e me pediu p/pesquisar sobre
    alguma pomada ou soluçao ,e ja ouvi falar desse tipo de medicaçao.Agradeceia se
    pudessem me orientar ,desde ja agradeço sua atençao.

    geiza.

  6. Vera Nilza da Cunha comenta:

    28 janeiro, 2010 @ 11:21 AM

    Olá tenho uma irmã com serios problemas de saúde, decorrentes de uma cirurgia bariátrica, está caqueixa, mais todos os exames constam que não tem nenhum tipo de cancer, antes de operar tinha 114 kls , agora tem 36 kls e continua perdendo, não consigo atendimento adequado pelo seu convenio médico, alguém poderia me ajudar com informações de onde ela pode receber tratamento adequado gratuíto,já não consegue andar, está com as pernas afetadas.

    Grata

    Vera Cunha

  7. ivanete vieira comenta:

    9 junho, 2011 @ 6:42 PM

    olá
    gostaria de informação sobre essa doença caquexia,pois meu mano esta com isso e não to entendendo nada,se isso tem cura pois a seis meses ele foi operado um pulmão mas foi por ter caido de um cavalo que teve esse problema de pulmão por favor me ajude a esclarecer obrigada que o sr Jesus os abençõe

  8. Thiago Magalhães comenta:

    6 maio, 2012 @ 12:02 AM

    Olá meu meu tio esta perdendo peso muito rapido eu gostaria de saber qual tipode exame ele poderia fazer p0ara saber se ele tem essa doença e como eu faço para tratar dele e se tem algum hospitalk refferencia para q ele possa fazer um estudo mais profundo dessa doença…… Obrigado

  9. Mithel comenta:

    20 maio, 2013 @ 11:34 PM

    Sinto dores todos os dias com os dentes obturados. No frio está pior, até a cabeça doi muito. Tenho ate que tomar remédio se não, não durmo de tanta dor. Será algo na raiz dos dentes?

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