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Dez
04
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Contos do Bié - O Francês
Categoria(s): Contos e Poemas |
Sabedoria
Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *
* Poeta Mineiro
Apesar da fama de homem seco e de pouca conversa, tive boa convivência com ele na minha lida de engraxate.
Refiro-me ao Sr. Alexandre Ceolin, um dos três estrangeiros do lugarejo.
Sentia-me um privilegiado em ser recebido na sua casa, e me encantava com seu modo de falar, pois que ainda não perdera o sotaque da gente de sua Terra.
Muitos invejavam aquela minha intimidade com o Sr. Ceolin, e me orgulhava disso. Por isso mesmo, eu me esmerava no engraxar-lhe os sapatos.
Sua morada ficava em frente a um chafariz do largo onde havia o jardim, o repuxo e o coreto, e tinha como vizinho um outro estrangeiro, este suíço, o Sr. Daniel Maytre.
Tanto eles, como o Seu Nagib, - apesar de estrangeiros, já se achavam totalmente integrados naquele nosso meio, e eram considerados e respeitados por todos, gente nossa.
Quando eu batia palmas, quem sempre atendia era uma senhora de cor e já de idade, de fado (lenço) na cabeça, bem robusta, uns seios que chamavam a atenção, tal o volume que faziam.
E o velho Ceolin surgia lá de dentro, e quando me via com o caixote de engraxate, retornava ao interior da casa e vinha com um par de sapatos para eu engraxar.
Descalçava-se dos chinelos felpudos com que andava dentro de casa e punha os tais sapatos. Fazia questão que eu os engraxasse com eles nos seus pés, mania que eu não entendia.
Sentava-se numa cadeira de palhinha, punha o pé no engraxate e eu começava o serviço, sempre dando sinal a dizer que eu não precisava ter pressa.
Daí a pouco a tal senhora vinha com uma garrafa de bebida e uma espécie de cálice. Ele pegava o cálice e ela ia servindo, e a um leve gesto, quase imperceptível, ela parava. Dava outro sinal e ela se retirava.
De soslaio, ficava a reparar no seu modo calmo e demorado na degustação da bebida, que ele sorvia aos pequenos goles, e até fechava os olhos.
Achava engraçado que todas as vezes que eu ia lá ele fazia sempre as mesmas perguntas: quem era meu pai, o que ele fazia, quem era minha mãe e quantos irmãos eu tinha. Aí, se lembrava de meu pai, e dizia que meu pai tinha feito uns móveis para ele. Em outras
ocasiões, indagava se eu sabia jogar baralho, e se eu quisesse, ele me ensinava.
Então eu dizia que meu pai não gostava de baralho.
Era quinhentos Réis a engraxada, mas sempre me dava o dobro, apesar de muita gente dizer que era sovina.
Depois de alguns dias, voltava lá.
Sempre a mesma coisa, uma espécie de ritual.
Batia palmas, vinha a tal senhora. Daí a pouco apontava lá, do mesmo modo, com o mesmo chinelo, o mesmo sapato que não dava mostra de ter sido usado, pois quando o via lá na venda de Seu Paulo Renan, estava sempre de botinas de pelica.
E vinha a senhora com a garrafa e o cálice sempre servido na medida exata.
Parecia já sabia da quantidade certa para chegar ao termo do meu serviço.
Depois, as perguntas, as mesmas respostas.
Mas nunca tive coragem de dizer a meu pai que se oferecera para me ensinar jogo de baralho, tal o receio de que me proibisse de ir lá engraxar os sapatos, e minha mina secar.
Certa feita, traído no meu jeito de reparar nele - devo ter deixado transparecer minha vontade inconsciente de provar da tal bebida - deu um estalo com os dedos, e logo apareceu a tal senhora.
Cochichou-lhe aos ouvidos e ela foi lá dentro e retornou com um minúsculo cálice pelo meio, que ele pegou e passou a mim.
Encafifado, fiquei na dúvida se tomava ou não. Fez sinal de riso e falou, misturando os idiomas:
- Pode tomar, mas aos pouquinhos, que é licor francês.
Nunca, em toda minha vida, lembro-me de ter experimentado bebida tão deliciosa.
Em casa, narrei o acontecido aos meus familiares. Mas a cidade inteira já sabia da minha proeza, ainda que não chegasse a duas colheres das de sopa a quantidade que me fora servida.


Eneida Tagliolatto Pires comenta:
4 Dezembro, 2007 @ 05:09
Gabriel, o licor é das bebidas consideradas alcoólicas, a minha preferida. Mas que pena, devido eu tomar certas medicações, não posso nem me dar ao luxo de um meio cálice, como você degustou na sua infância.
Mas que é bom, isso é!
Sei que o licor era francês, porque assim você narra, mas gostaria de saber do que era feito. Quem sabe seu paladar conseguiu guardar o sabor, tente, faça uma forcinha e depois me conte, hoje lá no Encontro das Letras.
Sua amiga de letras, Eneida