Dez
04

Olho seco - Filme lacrimal, blefarite, síndrome de Sjögren

Categoria(s): Dermatogeriatria, Oftalmologia


Resenha

A síndrome do olho seco é uma das mais importantes causas de desconforto ocular no idoso. O termo “olho seco” é usado para descrever uma variedade de condições, que afetam a quantidade ou a qualidade o filme lacrimal pré-corneano.

O filme lacrimal** é importante para assegurar a saúde da superfície córneo-conjuntival. Assim, “olho seco” representa alteração do filme lacrimal devido à deficiência de produção ou excessiva evaporação associado com sintomas de desconforto ocular.

As queixas mais freqüentes são: o ardor, queimação, irritação e sensação de corpo estranho, lacrimejamento, fotofobia, gradual intolerância ao uso de lentes de contato ou visão borrada. Eventualmente, ocorrem queixas inespecíficas como cefaléia e sensação de pálpebras pesadas.

Causas de olho seco

A maioria dos pacientes, que se queixam de “olho seco”, não apresentam doenças sistêmicas que possam ser responsáveis pelo quadro ocular. Existem algumas situações cotidianas capazes de desencadear os sintomas do olho seco. Atividades que exijam maior concentração, como leituras, uso do computador ou dirigir à noite, podem estar associada à diminuição do ritmo de piscar. Assistir a um aparelho de televisão localizado acima da altura dos olhos, leva à maior abertura palpebral, aumentando a superfície ocular exposta. Ambientes secos (ar condicionado, calefação) propiciam à maior evaporação lacrimal.

Mulheres na menopausa são mais frequentemente afetadas (referida como secura, intolerância a luz e ao frio e aumento na produção de muco), assim como os idosos, pela diminuição da produção de lágrima, que ocorre com o avançar da idade.

As doenças sistêmicas capaz de causar o olho seco são sobretudo as reumáticas entre elas: artrite reumatóide (síndrome de Sjögren *), lúpus eritematoso sistêmico, escleroderma, policondrite, poliarterite nodosa, Aids, sarcoidose etc.

Anormalidades palpebrais e epiteliopatias também podem causar o aparecimento de áreas mal lubrificadas na superfície ocular, resultando num quadro clínico de olho seco, sem que haja defeito da secreção lacrimal.

Processos irritativos

Os processos irritativos faz com que as glândulas produtoras da lágrima aumentem a secreção e, segundo o mecanismo da inflamação, haverá predomínio de uma delas: aquosa (lágrima), serosa (exudação), mucosa (mucina), purulenta (macrófagos), pseudomembranosa (fibrina).

A inflamação produzirá alterações morfológicas no tecido:
· Papilas - pequenas elevações em cujo centro há uma ramificação vascular;
· Folículos - acúmulo de linfócitos que se agrupam sob o epitélio, formando pequenos nódulos opalescentes, cujo centro é avascular;
· Flictênula - nódulo amarelado próximo ao limbo, constituído por linfócitos, eosinófilos e restos celulares - reação de hipersensibilidade tardia.
· Blefarite é um termo descritivo que se refere a um grupo de alterações que produzem inflamação da margem palpebral, que pode estar associada com inflamação também das estruturas anexas.

A alteração ocular mais freqüente é a ceratoconjuntivite seca, acometendo de 10% a 35% dos pacientes.

Tratamento do olho seco - O tratamento inclui: limpeza diária do local com água morna e shampoo neutro. Em certos casos é necessário o uso de colírio e/ou pomada de corticóide leve. Caso tenha infecção por bactéria o uso de antibiótico tópico é necessário.

* A síndrome de Sjögren é uma doença auto-imune sistêmica caracterizada pelo comprometimento de glândulas lacrimais e salivares (síndrome sicca). Pode ser classificada em secundária, quando a síndrome sicca estiver associada a uma doença auto-imune bem definida como artrite reumatóide, lúpus eritematoso sistêmico ou esclerose sistêmica, ou primária, quando o paciente com síndrome sicca não apresentar esta associação.

olho seco** Filme lacrimal - O filme lacrimal é composto por três camadas: a mais anterior é a camada de lipídios, seguida pela camada intermediária que é a aquosa e pela camada de mucina, a qual está intimamente ligada ao epitélio corneano e conjuntival.

A camada lipídica é secretada pelas glândulas de Meibomian. Quando as pálpebras se fecham, durante o piscar, a camada lipídica é comprimida contra a aquosa e, quando as pálpebras se abrem, a camada lipídica espalha-se sobre a camada aquosa, impedindo sua exposição, diminuindo a evaporação da lágrima. A camada aquosa ocupa quase toda a espessura do filme lacrimal e contém, entre outras substâncias, oxigênio (maior fonte de oxigenação corneana), lizosima (papel bactericida) e imunoglobulinas (principalmente Ig A, que impede a aderência de bactérias à superfície corneana). A camada mucosa é produzida pelas células caliciformes da conjuntiva, é uma camada hidrofílica que adere à superfície ocular hidrofóbica, permitindo que a lágrima se distribua homogeneamente na superfície corneana até o próximo piscar; dissolve-se também na camada aquosa, diminuindo a tensão superficial com a camada lipídica (hidrofóbica), tornando o filme lacrimal mais estável e, por fim, mantém a superfície corneana úmida.

Entre duas piscadas, com o olho aberto, o componente aquoso se evapora lentamente, aproximando a camada de lipídios com a camada de mucina. Os lipídios se difundem, então, pelo que restou da camada aquosa e atingem a camada mucosa, formando uma área hidrofóbica, que repele a porção aquosa (mancha seca). Este período, desde o piscar até a formação da mancha seca, chama-se tempo de rotura do filme lacrimal.

A secreção lacrimal é dividida em basal e reflexa. A secreção basal provém das glândulas de Krause e Wolfring e a reflexa é produzida pela glândula lacrimal principal. Enquanto que a secreção basal é constantemente produzida, a reflexa só é secretada mediante estimulação (tátil ou química).

Avaliação da lágrima - A produção de lágrima pode ser avaliada pelo teste de Schirmer, fluoresceína ou tintura de Rosa Bengala.

Referências:

Juan Murube del Castillo - Ojo seco - Dry Eye - Olho seco [on line]

Klopfer J. Effects of environmental air pollution on the eye. J Am Optom Assoc (United States) 60: 773-8, 1989.

Dry Eye Syndrome: Preferred Practice Pattern. San Francisco, CA: American Academy of Ophthalmology, 1998.

Alves, M.R.: Estados de Olho Seco, in: Alves, M.R. & Kara-José, N.: Conjuntiva Cirúrgica. Editora Roca, São Paulo, 1999, p.7-17.

Mackie, I. A. and Seal, D. V.: The questionably dry eye: British Journal of Ophthalmology, 1981, 65, p.2-9.

Oliveira, P. R.; Lentes Terapêuticas. In: Coral-Ghanem, C. & Kara-José, N.: Lentes de Contato na Clínica Oftalmológica. Editora Cultura Médica. Rio de Janeiro, 1998, p.107-112.

Scarpi, M.J.: Olho Seco in: Belfort Jr, R. & Kara-José, N.: Córnea Clínica-Cirúrgica. Editora Roca Ltda., São Paulo, 1997, p.285-299.

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4 Comentários »

  1. Mauricio Carvalho comenta:

    7 Março, 2008 @ 15:29

    Estava procurando informações sobre S. Sjogren e encontrei este site.
    Tenho 28 anos e apresento quadro clinico variado que incluem: ressecamento dos olhos com sensação de areia principalmente quando acordo, dores no corpo e nas articulações, dormência no dedo do pé, diarréia constante diagnosticada como síndrome do intestino irritável, glicemia elevada em torno de 115 chegando até 125, sintomas de síndrome do pânico no passado e depressão!
    Meus exame não apresentaram alterações porém meu médico está tratando como S.Sjogren!
    Gostaria de saber se existe algum centro de referencia ou algum especialista nesta doença para poder fazer uma avaliação!
    Desde já agradeço,
    Mauricio Carvalho

  2. Dr. Armando Miguel Jr comenta:

    7 Março, 2008 @ 18:11

    Maurício,
    Os especialistas que cuidam das pessoas com S. Sjögren são os reumatologistas.
    Consulte o site da Sociedade Brasileira de Reumatologia para verificar qual o especialista da sua região.
    O médico para receber o título de especialista pela sociedade, necessita de apresentar certificado de residência médica na área e realizar uma avaliação escrita e oral. Portanto, um exame criterioso. Estes colegas estão aptos para tratar todas as doenças reumáticas.
    Boa sorte.

  3. Anonimo comenta:

    13 Agosto, 2008 @ 14:35

    to com medo

  4. waldete Cunha de Oliveira comenta:

    10 Novembro, 2008 @ 10:48

    Minha mãe, tem glaucoma e uns 3(tres) vem tendo irritação na borda dos olhos, crostas e vermelhidão ,escamas nas margens das pálpebras,coceira, queimação, olhando pela internet, descobrimos o site de voces e então estamos achando que o problema seja Blefarite, sua oftalmologista,descartou qualquer problema e uma especialista fez diversos testes com os colirios que ela usa, mas não descobriu nada, antes de procurar outro especialistas, resolvemos enviar esta mensagem, para ter uma melhor esplicação. Tania Lucia. Goiania/go

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