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Nov
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Estudo de caso - Falência estrogênica e a memória
Categoria(s): Bioquímica, Caso clínico, DNT, Endocrinogeriatria, Ginecogeriatria, Neurogeriatria |
Interpretação clínica
Senhora de 52 anos, casada, mãe de 3 filhos e avó de 4 netos, vem ao consultório médico queixando-se de irritabilidade, insônia, com sonhos vívidos, ansiedade e principalmente esquecimento fácil. Os sintomas iniciaram-se há 2 anos com a parada da menstruação, e tem se agravado nos últimos 6 meses. “Últimamente, tem sido muito “cobrada” pelos filhos que a acham muito distraída e “briguenta”. Não sabe o que está acontecendo, sempre foi uma pessoa alegre, disposta, brincalhona. Seus exames clínicos têm sido normais, a ponto de nunca usar medicamentos. Tem engordado e os exames ginecológicos estão normais. Nos últimos 2 anos as taxas hormonais têm apresentado uma discreta elevação dos hormônio luteinizante (LH) e progesterona, e queda dos estrogênios. Não tem feito terapia de reposição hormonal (TRH). Não tem antecedente de Câncer de Mama ou ginecológico, porém existem vários casos de infarto na familia, inclusive sua mãe.
Este caso nos incita a estudar as funções dos hormônios femininos nas funções cerebrais, tanto de memória, como de sociabilidade.
A hipófise; hipotálamo; sistema límbico; locus coeruleus e córtex cerebral são áreas do cérebro envolvidas tanto na memória como nas atividades emocionais. Nesta áreas foram encontrados grande quantidades de receptores celulares de esteróides sexuais, e evidentemente, a natureza não distribuiria estes receptores se eles não exercessem ações específicas nestas áreas.
Estudos têm demonstrado que a adição de estrogênio a culturas in vitro de neurônios diferenciados da amígdala e do hipotálamo prolongam as suas sobrevidas. Assim, os estrogênios podem atuar diretamente no neurônio, promovendo a sua sobrevida ou estimulando a produção neuronal de um fator neurotrófico. Um destes fatores é o fator de crescimento neuronal (NGF), produzido por neurônios colinérgicos que originam-se nos núcleos do prosencéfalo basal. Estes núcleos são as principais fontes de inervação colinérgica do hipotálamo, hipocampo, sistema límbico e córtex cerebral. Este sistema colinérgico está envolvido na maioria das funções da memória.
As áreas grísea periaquedutal e a tegmentar ventral estão relacionada com as manifestações comportamentais. A amigdala (também chamada de complexo amigdalóide é o “botão de disparo” das reações emocionais. O hipotálamo e o troncoencefálico respondem pelas manifestações fisiológicas.
Diante das ações estrogênicas sobre o SNC, podemos imaginar que o climatério, caracterizado pela falência progressiva da função ovariana, acarretará várias e, às vezes, profundas alterações, num espectro que vai desde depressão e diminuição da capacidade cognitiva até quadros que envolvemos reflexos sensomotores, o equilíbrio, o parkinsonismo e a demência senil do tipo Alzheimer.
Os neurônios deste sistema colinérgico são os que sofrem as primeiras e mais pronunciadas alterações degenerativas vistas no desenvolvimento da doença de Alzheimer.
Um forte argumento em favor do papel dos estrogênios na expressão desta patologia pode ser inferido examinando-se a sua epidemiologia. A incidência da doença é maior em mulheres do que em homens (1,5 a 3 vezes maior) e atinge preferentemente mulheres acima de 65 anos.
A chance de uma mulher que teve enfarte do miocárdio desenvolver a doença de Alzheimer é cinco vezes maior do que as que não tiveram enfarte. Como a doença cardiovascular na mulher é considerada uma expressão da deficiência estrogênica, a demência associada pode também ser uma expressão deste déficit estrogênico.
As pacientes obesas são menos propensas a desenvolver a doença de Alzheimer, e este fato pode estar relacionado com a maior produção extra-ovariana de estrogênios que ocorre no tecido adiposo.
Estes estudos demonstram que esta paciente tem necessidade de fazer a TRH para controlar os seus infortúnios.
Veja - Memória: Aspectos anatômicos e fisiológicos
Referências:
Fernandes CE, Pereira Filho AS - Climatério: Manual de Orientação Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasco).
Kaster S, Ungerleider LG - Mechanisms of visual attention in the human cortex. Annual Reviews of Neuroscience 2000,23:315-341.
Lent R - Cem Bilhões de Neurônios: Conceitos Fundamentais de Neurociência. São Paulo, Editora Atheneu 2001
Purves D, Augustine GJ, Fitzpatrick D, Katz LC, et al Cap 24. Cognition. In LaMantia AS & McNamara JO - Neuroscience Sinauer Associates, Sunderland, EUA 1997,p.465-482.
Tags: memória, neuroestrogênio, TRH
