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20

Contos do Bié - O Trem

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Trem

Todo sábado à tarde havia aulas de catecismo, e era um
martírio ter que aturar a Irmã Catarina - da congregação das
Vicentinas - a falar dos pecadores e de como eram jogados de cabeça
para baixo nas labaredas do inferno, onde os capetas aguardavam as
almas com espetos pontiagudos e incandescentes.
Para me livrar daquele sacrifício, engendrei um
plano que eu rezava para não dar errado.
Minha irmã já lavara meu terninho de algodão
riscado e o estendera para enxugar sobre um frondoso pé de pimenta
malagueta.
Quando me vi a sós, e quase à hora da que eu
considerava a torturante aula, jorrei ali todo o líquido (xixi) que
vinha armazenando em minha bexiga para aquele fim.
Certa de que a roupa já estivesse no ponto, foi a
minha irmã pegá-la para me trocar.
Não deu para eu ir ao catecismo, mas nunca me lembro
de ter levado tantas e doídas chineladas como naquela tarde de sábado!
Chegara uma nova Irmã de Caridade - Celina - que
viera substituir a Irmã Catarina.
Era paulista - mas o povo dizia polista.
Linguajar diferente do nosso, foi logo motivo da curiosidade de todos,
em especial da meninada.
As aulas passaram a ser dadas no domingo após a
missa das sete horas, e a freqüência era maciça, meninos de todo tipo,
idade e condições sociais.
Havia uns pretinhos, chorões, nariz sempre a
escorrer; de calças curtas - como eu - mas só que de suspensórios de
fitas, sobras do pano da calça ou da camisa.
Havia também umas meninas magrelas e de olhos
tortos - as caolhas - de vestidos compridos e desajeitados, panos
ralos que deixavam ver as calcinhas rotas e folgadas, constantemente
puxadas para cima, num gesto que a Irmã não gostava.
Na verdade, a grande freqüência devia-se mais à
curiosidade de conhecer a paulista e seu modo de falar, do que
propriamente se inteirar a das coisas de Deus.
Era deveras simpática, mas saía do sério
quando vínhamos com a palavra “trem”.
Às vezes fazíamos de propósito, só para sermos
corrigidos e a Irmã discorrer sobre os trens de verdade.
Às escondidas, eu cutucava o Carlos
Washington, menino bem vestido, calça de casimira, blusa de seda, um
pano escorregadio - aquela lindura de encher os olhos -; sapatos de
duas cores, lustrosos. Cinta preta, de fivela dourada, suspensórios de
vaqueta da mesma cor da cinta. Cabelos bem penteados, partidos de
lado, um cheiro gostoso de brilhantina.
A Irmã ia passando as gravuras dos santos,
dando explicações, e eu a cutucar o Carlos Washington. Quando chegava
na gravura do inferno, para desviar o assunto o Carlos Washington
intervinha.
- Irmã ! - e levantando o braço - posso perguntar?
Toda sorrisos: - Sim, Carlos Washington.
Gaguejando, sem saber mesmo o que perguntar, o
Carlos Washington se descontrolou todo.Com o dedo indicador em direção
da gravura, procurando apontar para algo que não lhe era muito
familiar e a que pudesse chamar de “trem”, soltou o palavrão.
Bum! Vem o trem novamente!
A palavra soou como uma bomba, ou melhor dizendo, como uma
heresia, pois era aula de catecismo!
A Irmã corou, cerrou os lábios, e um pesado
silêncio reinou por alguns segundos, todos os olhares ora fitos na
gravura, ora cravados no Carlos Washington, o menino bem arrumadinho e
comportado, filho do Dr. Carlos Wahington Vieira, médico do
lugarejo..
Contendo-se, a Irmã explicou, “pela penúltima
vez” , o que vinha a ser um “trem”.
- Mas domingo que vem - falou firme -
estejam aqui às oito horas em ponto, porque pela última vez vou
ensinar-lhes que trem é trem, e trarei uma porção de fotografias para
conhecerem um trem de verdade!
Nunca esperei tanto por uma aula de
catecismo, e todos lá em casa ficavam admirados do meu interesse pelas
coisas de Deus…

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2 Comentários »

  1. Eneida Tagliolatto Pires comenta:

    20 Novembro, 2007 @ 05:04

    Gabriel, apesar de ser paulista de nascimento, eu estou tão acostumada com a palavra “trem” sem o sentido de veículo ferroviário, que para mim é normal. É que uma boa parte de primos são mineiros. Uns já moram aqui em Campinas, mas tem muitos ainda na cidade de Araguari e Uberlândia. Mas quem não tem conhecimento estranha mesmo, como é o caso da Irmã Celina. Coitada! Coitada não, pois foi salva só por ter dado as aulas de catecismo a vocês. O que ela deve ter sofrido tentando ensinar o significado da palavra em questão, não foi brincadeira. Mas deixa para lá, porque ela conseguiu salvar as almas dos travessos catecúmenos. Eneida

  2. Gabriel Araújo dos Santos comenta:

    21 Novembro, 2007 @ 06:25

    Impressiona-me a criatividade desse grande humanista que a tantas almas tem levado o refrigério de sua sabedoria médica. Por isso mesmo e muito a razão de seu consultório estar sempre transbordando de criaturas muitas vezes desesperançadas. E a esposa, sua amiga e colega de profissão, Dra. Carolina, não fica atrás. Esse homem, o Dr. Miguel, extrapola na sua sensisibilidade e criatividade na ilusstração dos meus arcaicos escritos.

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