Nov
06

Contos do Bié - Alma penada em casa de Zé Badalo

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Alma penadaCerta feita correu a notícia do aparecimento de uma alma penada em casa de Zé Badalo, vizinha de onde morávamos.

Íntimo do vigário, o casal tanto insistiu que o padre concordou em responsar a dita cuja.

Naquela noite quente e abafada, nenhuma aragem no ar, os gemidos desapareceram. Agradecido, Zé Badalo foi depositar umas moedas de mil Réis no cofre das almas, na igreja da cidade.

Duas ou três noites depois, ocasião de muito vento e prenúncio de chuva, os gemidos recomeçaram. O jeito era apelar para Zé do Trago, que chegou acompanhado de Sa Maria do Gole. Vela acesa, saíram em direção de onde partiam os gemidos, um estreito corredor de acesso aos fundos do enorme quintal.

Passaram pela cancela de madeira e se meteram quintal adentro por entre o bananal. Instantes depois voltaram eufóricos, dando por cumprida a sagrada tarefa de acalmar e afugentar os mortos.

Levaram debaixo do braço uma garrafa de pinga, a “Teimosa”, pela paga dos bons serviços prestados.

Naqueles dias chuvosos os gemidos cessaram por completo.

Mas numa tarde, na boca da noite, meu pai, a querer saber de onde vinham umas formigas cabeçudas, pediu licença para procurar a panela de origem no quintal de Zé Badalo.

Ao forçar a cancela, abrindo-a com jeito, eis que soou o gemido!

Apesar de medroso e supersticioso, viu não ser nada mais do que a completa ausência de óleo de mamona junto às dobradiças da pesada cancela de madeira.

Do alpendre, onde tranqüilo enrolava seu cigarro de palha, Zé Badalo levou um susto e, sem querer, exclamou a chamar por D. Carola, sua mulher:
- Um dia são os mil Réis! No outro é garrafa de pinga! E hoje?
- Quando viu o semblante aliviado de meu pai, indagou confuso:
- Uai, João, achou as formigas?
- Achei! E a alma penada também!

Embora medroso, meu pai exorcizou a alma penada, ao receitar a Zé Badalo uma pequena porção de óleo de mamona, do que as dobradiças realmente precisavam.

E Zé Badalo ficou contente, e com o canivete “corneta” principiou a cortar o fumim cheiroso para as baforadas de sempre.

Noite feita, tragava o inseparável cigarro de palha ali na penumbra do alpendre, a fagulha do pito lembrando olho de onça a brilhar no escuro.
Lá fora na rua alguém resmungou assustado:
- Cruz credo, é os zóios da alma penada! Te esconjuro!

E Zé Badalo soltou gostosas baforadas, agora livre da alma penada, exorcizada com óleo de mamona!!!

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1 Comentário »

  1. Eneida Tagliolatto Pires comenta:

    6 Novembro, 2007 @ 03:16

    Desta vez você conseguiu me transportar para uma lembrança já guardada há tempo na minha memória: “Meu tio Zuza”.
    Tio Zuza tinha o hábito de fumar cigarro de palha, e também cada vez que isso fazia, parecia que estava à vagar; talvez quem sabe com saudades de Minas Gerais. Eneida

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