Arquivo de Outubro, 2007

27
Out

 Plantas medicinais - Princípios gerais

Categoria(s): Bioquímica, Nutrição, Plantas medicinais

Observando os efeitos das plantas os homens de todas as culturas descobriram quais eram alimentos, venenos ou remédios. Isso é conhecido como etnobotânica ou etnofarmacologia. Cada povo acumulou conhecimentos das plantas medicinais, passando estes de gerações para gerações. Registros da medicina romana, egípcia, persa e hebraica mostram que ervas eram utilizadas de forma extensiva para curar praticamente todas as doenças conhecidas pelo homem.

Dioscórides, médico, descreveu 600 espécies de plantas com finalidades terapêuticas, servindo de referência durante 18 anos. Galeno, começou a misturar plantas num único preparado, originando o termo “preparações galênicas“. A “Teoria das signaturas” , segundo a qual as plantas atuam terapeuticamente em órgãos morfologicamente similares, foi postulada por Paracelsus, no início do século XVI.

Inicialmente, a indústria farmacêutica baseava-se na sua capacidade de isolar esses ingredientes e torná-los disponível em uma forma mais pura. Contudo, os herbalistas alegam que a natureza colocou na mesma erva outros ingredientes que se equilibram com os ingredientes mais poderosos. Esses outros componentes, embora relativamente menos poderosos, podem ajudar a servir de intermediário, sinergista ou contrapeso quando trabalham de forma harmônica com o ingrediente mais poderoso. Portanto, ao usar essas ervas na sua forma completa, o processo de cura do corpo utiliza os ingredientes oferecidos pela natureza de uma forma mais equilibrada.

A primeira entidade profissional de fitoterapia data de 1864, na Inglaterra, com a criação do National Institute of Medical Herbalistis. Porém, a aceitação da fitomedicina, com extrato padronizado, conhecimento de princípio ativo, mecanismo de ação, controle de qualidade e pesquisa clínica, só ocorreu na Alemanha na década de 1980.

A descoberta dos antibióticos e aumento da síntese de medicamentos, especialmente no período pós segunda guerra mundial, relegou o emprego da fitoterapia a um segundo plano nas condutas médica. A grande biodiversidade do reino vegetal disponibiliza uma infinidade de possibilidades terapêuticas ainda pouco explorada, sobre tudo no Brasil. A resolução da Agência Nacional da Vigilância Sanitária do Brasil (ANVISA) de 17 de fevereiro de 2000, viabiliza registros de fitomedicamentos, com controle de excelência, permitindo aos médicos utilizar estes medicamentos com os preceitos básicos de qualidade, segurança e eficácia, e não pelo puro empirísmo.

Como age as plantas medicinais

As substâncias ativas das plantas medicinais são de dois tipos: os produtos do metabolismo primário (essencialmente sacarídeos), substâncias indispensáveis à vida da planta que se formam em todas as plantas verdes graças à fotossíntese; o segundo tipo de substâncias é composto pelos produtos do metabolismo secundário, ou seja, processos que resultam essencialmente da assimilação do azoto. Estes produtos parecem ser pouco inúteis à planta, mas os seus efeitos terapêuticos, em contrapartida, são notáveis. Trata-se de óleos essenciais (ou essências naturais), resinas, alcalóides como os da cravagem.

SabugueiroA fitoquímica (química dos vegetais), é a ciência que estuda as substâncias ativas, a sua estrutura, a sua distribuição na planta, as suas modificações e os processos de transformação que se produzem no decurso da vida da planta, durante a preparação do remédio vegetal e no período de armazenagem.

A fitoquímica está em estreita ligação com a farmacologia (estudos dos efeitos das substâncias medicinais sobre o organismo humano, do mecanismo e da velocidade da sua ação, do processo de absorção e eliminação, das suas indicações, isto é, do uso contra determinadas doenças).

Geralmente, estas substâncias não se encontram na planta em estado puro, mas sob a forma de complexos, cujos diferentes componentes se completam e reforçam na sua ação sobre o organismo. No entanto, mesmo quando a planta medicinal só contém uma substância ativa, esta tem sobre o organismo humano um efeito mais benéfico que o produzido pela mesma substância obtida por síntese química.

A substância ativa não é unicamente um composto químico, mas apresenta também um equilíbrio fisiológico, é mais bem assimilada pelo organismo e não provoca efeitos nocivos. É nisso que reside a grande vantagem da medicina natural.

Industria Fitoquímica

Toda uma série de métodos modernos permitem por em evidência a presença nos vegetais de determinadas substâncias. Em primeiro lugar, o estudo microscópico, relativo à estrutura anatômica e morfológica do corpo vegetal (atlas microscópicos das drogas vegetais), depois os métodos físicos, como a microsublimação, que consiste em aquecer uma pequena quantidade de droga e fixar sobre um vidro as emanações, que são em seguida analisadas através de métodos químicos. Certas substâncias podem ser detectadas pela sua fluorescência quando iluminadas por uma lâmpada de mercúrio.

As técnicas especiais da química qualitativa e quantitativa permitem também despistar a presença de determinada substância. Estes métodos são descritos em artigos especializados, obedecem a normas estabelecidas a nível nacional e às exigências relativas a qualidade das plantas medicinais.

A natureza química da droga é determinada pelo seu teor em substâncias pertencentes aos seguintes grupos principais: alcalóides, glucosídeos, saponinas, princípios amargos, taninos, substâncias aromáticas, óleos essenciais e terpenos, óleos gordos, glucoquininas, mucilagens vegetais, hormonas e anti-sépticos vegetais.

Princípios gerais

Como regra, a maioria das ervas de gosto amarga é medicinal e potente. As ervas de sabor agradável são potencialmente menos tóxicas e podem ser usadas mais freqüentemente. Todas as raízes e cascas são fungicidas e bactericidas; do contrário, os organismos patogênicos as destruiriam no solo. Raízes, cascas e outras ervas, quando totalmente secas e mantidas nesse estado, retêm seu valor medicinal durante anos.

Veja Também:
Plantas medicinais - Fitoterápicos
Iatrogenia - Perigo dos anticoagulantes orais
Acônito - Aconitum napellus
Cannabis sativa - Canhamo
Medicina Ayurvédica
Calêndula ou Malmequer - Calendula officinalis

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26
Out

 Urticária e Angioedema

Categoria(s): Dermatogeriatria

 Resenha

A urticária e o angioedema são enfermidades comuns que acometem 20% das pessoas em alguma fase da vida, sendo facilmente reconhecidas pelos pacientes e pelos médicos. Entretanto é altamente complexa quanto as manifestações clínicas e a terapia empregada.

urticáriaA urticária consiste em lesões eritemato-papulosas, isoladas ou agrupadas, fugazes, geralmente circulares, podendo variar em forma e tamanho. As lesões são conseqüentes à vasodilatação e ao edema (inchaço) da derme, estando geralmente associadas com prurido intenso (figura ao lado).

O angioedema, inicialmente chamado de urticária gigante ou edema angioneurótico, resulta de edema na derme profunda, tecidos subcutâneos e submucoso, acometendo freqüentemente as pálpebras e os lábios (figura abaixo).

Angioedema

A urticária e o angioedema geralmente coexistem, não apresentando diferença quanto a etiologia, patogenia e tratamento.

Na forma aguda, os episódios duram de poucos dias até seis semanas, sendo o fator causal identificado nas maiorias das vezes. Pode ocorre outros sintomas como falta de ar (dispnéia), chiado no peito (sibilância), edema de laringe ou hipotensão arterial. Na forma crônica, as lesões estão presentes diariamente ou quase diariamente, permanecem menos de 24 horas, durando mais de 6 semanas. O agente causal não é encontrado.

Baseado no aspecto da lesão, surgem alguns diagnósticos diferenciais, como as lesões causadas por picadas de insetos, a urticária-vasculite*, os eczemas (dermatites espongióticas) e sobre tudo a forma aguda da dermatite de contato.

* urticária-vasculite é uma condição associada a colagenose, cuja diferenciação clínica com as urticárias se faz pela persistência das lesões e aspecto hipercrômico quando crônica.

Patogênese

A urticária é uma condição heterogênea, cuja patogênese envolve uma grande variedade de mediadores bioquímicos, que são liberados a partir da ativação de diferentes células e vias enzimáticas.

mastócitosOs pacientes com urticária apresentam um grande aumento de mastócitos na pele, sugerindo um papel de destaque na fisiopatogênese da doença. Diversos mecanísmos imunológicos e não imunológicos podem provomer a ativação dos mastócitos, causando a degranulação e o aumento da histamina sangüinea, observado nos vários tipos de urticária.

Este fenômeno bioquímico ocasiona vasodilatação local, com aumento da permeabilidade capilar e aparecimento de eritema e edema. O edema acomete a derme superior, havendo dilatação vascular e linfática, com infiltrado celular, predominantemente perivascular, na derme.

Soter identificou cinco possíveis mecanismos patogênicos da urticária: 1. mediada por IgE, 2. por ativação do sistema de complemento, 3. por degranulação inespecífica dos mastócitos, 4. por formação de metabólitos do ácido araquidônico e 5. as denominadas idiopáticas.

Tratamento:

O tratamento envolve: 1. afastar os agentes lesivos encontrados; 2. uso de anti-histamínicos, que são eficazes por impedirem a liberação de histamina, bloquearem seus receptores ou mesmo agirem em outras vias na mesma célula-alvo; 3. uso de glicocorticóides. Em casos crônicos, rebelde aos tratamentos acima, pode se utilizar ciclosporina-A, metotrexato, hidroxicloroquina, nifedipina, dapsona, sulfasalazina, cinetidina e moduladores de leucotrienos.

Referências:

Soter NA - Acute and chronic urticaira and angioedema. J Am Acad Dermatol 1991;25:146-154.

França AT - Urticária e Angioedema: Diagnóstico e Tratamento; Rio de Janeiro,Editora Revinter 2000.p.117

Azulay RD, Azulay DR - Dermatologia; Rio de Janeiro: Editora Guanabara Koogan SA 2 ed. 1999.

Sabroe RA, Greaves MW - The pathogenesis of chronic idiopatic urticaria. Arch Dermatol, 1997;133:1003-1008.

Veja Também:
Estudo de caso - Angioedema adquirido
Saúde bucal dos idosos

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25
Out

 Estudo de caso - Trombocitemia essencial

Categoria(s): Caso clínico, Emergências, Oncogeriatria

Interpretação clínica

Senhor de 58 anos, engenheiro civil, com queixa de episódios rápidos de tonturas e perda da consciência nos últimos 15 dias. Tem apresentado-se febril nos finais do dia. Pratica exercícios regularmente, e os exames médicos, inclusive os cardiológicos, realizados há 3 meses foram normais.

Clinicamente, apresenta-se em excelente estado geral, sem déficit motor, lúcido, conciente e com todos exames laboratoriais normais, exceto o elevado número (650.000/mm3) de plaquetas no hemograma.

O diagnóstico provável do caso é de trombocitemia primária ou essencial.

A trombocitemia essencial é uma doença mieloproliferativa crônica *, caracterizada por hiperplasia da série megacariocítica da medula óssea e que cursa com plaquetose em níveis superiores a 600.000 mm3, esplenomegalia e eventos trombóticos e/ou hemorrágicos durante a evolução da doença. A incidência da doença é desconhecida apesar dos vários estudos epidemiológicos. A idade média no diagnóstico está entre 50 e 60 anos.

Linhagem eritrocitária

Manifestações clínicas

Aproximadamente 85% dos casos são assintomáticos, sendo o diagnóstico feito acidentalmente. O quadro clínico é muito variável, podendo ocorrer perda de peso, cefaléia, febre, sudorese, prurido, ataques isquêmicos transitórios, amaurose (cegeira) fugaz, angina, priapismo (ereção persistente).

As principais seqüelas dessa entidade estão relacionadas aos eventos hemorrágicos e trombóticos, sendo estes mais comuns em indivíduos idosos. Após o diagnóstico, 22% a 84% dos pacientes apresentam complicações trombóticas, sendo a microcirculação primariamente envolvida. Apesar disso, 51% dos pacientes apresentam sintomas relacionados a trombose de grandes vasos, estando as artérias coronárias acometidas em torno de 18% a 20%.

Descreve-se ainda, lesões de válvula aórtica e mitral em pacientes com síndrome mieloproliferativa. Essas lesões valvulares, previamente descritas como endocardite trombótica não-bacteriana, podem ter origem em êmbolos de artérias periféricas, que podem surgir nesses pacientes.

Tratamento:

Pacientes acima de 60 anos com TE associada a fatores de risco cardiovasculares e com história prévia de trombose devem receber terapêutica com a finalidade de diminuir o número de plaquetas, como hidroxiuréia, a-interferon, anagrelide e plaquetaférese. A aspirina é também droga de escolha para as complicações cerebrovasculares e isquêmicas da TE.

Os principais efeitos colaterais da terapia com hidroxiuréia (Hydrea) incluem leucopenia, macrocitose, alterações cutâneas (hiperpigmentação, rash maculopapular, atrofia de pele, úlceras e pápulas violáceas), náuseas e vômitos. O anagrelide e o a-interferon são drogas de segunda linha no tratamento da TE.

Referências:

Genderen P. J. J., Michiels J. J. Erithromelalgic, thrombotic and haemorrhagic manifestations of thrombocythaemia. Presse Med 1994; 23:73-7.

Hoffbrand AV, Pettit JV. Essential Haematology. Blackwell Scientific, 1994;272-85.

Hoffman R, Benz Jr EJ, Shettil SJ et al. Hematology. New York: McGraw-Hill, 1995.

Lugassy G. Essential thrombocythemia – Update on pathogenesis and therapy. Review. Cancer J 1998; 11:57–9.

Pearson T. C. Primary thrombocythaemia: diagnosis and management. Br J Haematol 1991; 78:145–8.

* As síndromes mieloproliferativas constituem um grupo de doenças hematológicas, caracterizadas por proliferação clonal de um ou mais setores hematopoéticos da medula óssea e, em alguns casos, do baço e/ou fígado. Essas doenças estão inter-relacionadas, de modo que uma entidade pode evoluir para outra durante o processo.

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Veja Também:
Plaquetopenia
Arnica - Arnica montana
Íon Cobalto - Papel no organismo humano
Poemas da Dalva Saudo - Girassol
Estudo de caso - Vasculite
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24
Out

 Uso da creatina, L-carnitina e aminoácidos de cadeia ramificada nos idosos

Categoria(s): Bioquímica, Endocrinogeriatria, Nutrição

Resenha

Um dos grandes vilões da invalidez é a perda da massa muscular (sarcopenia) que acomete todas as pessoas idosas. Em algumas mais rapidamente que em outras. Apesar do considerado o impacto que a reduzida massa muscular parece exercer sobre a morbidade e a mortalidade, relativamente poucos estudos controlados e randomizados foram realizados com intervenções que promovam a recuperação da massa muscular perdida (atuações ergogênicas). Veja sarcopenia

Em indivíduos saudáveis, a suplementação de substâncias ergogênicas é utilizada para aumentar a tolerância ao exercício, postergar a fadiga, ou estimular a síntese protéica muscular, visando assim à melhora do desempenho físico.

A revisão da literatura mostra que, entre os suplementos ergogênicos avaliados, os esteróides anabolizantes, desde que utilizados em doses adequadas e por tempo limitado, parecem ser os mais promissores. Evidências preliminares também apontam bons resultados com o uso da creatina e da L-carnitina e, em menor grau, com os aminoácidos de cadeia ramificada. O emprego do rhGH parece limitado em nosso meio devido ao custo elevado e à administração parenteral.

O uso de suplementações hormonais e protéicas visa a seus benefícios ergogênicos, especialmente aqueles relacionados com o aumento da síntese e/ou diminuição do catabolismo protéicos.

Esteróides anabolizantes - Os esteróides anabolizantes são hormônios sintéticos semelhantes à testosterona, o mais importante hormônio secretado pelas células intersticiais do testículo. Atuam no desenvolvimento dos caracteres sexuais masculinos, promovendo hipertrofia muscular e redução da gordura corporal. O importante efeito anabolizante dos esteróides estimulou diversos pesquisadores a investigar um possível efeito terapêutico dessas substâncias.

O uso prolongado de altas doses em humanos pode levar à deterioração da função endócrina normal da testosterona e ao aumento da concentração de estradiol, hormônio feminino que promove o desenvolvimento de características femininas. Outros efeitos colaterais podem ocorrer, como: aumento do colesterol com diminuição do HDL-colesterola (high density lipoprotein), lesões hepáticas, hiperplasia prostática, impotência e esterilidade.

Creatina - A creatina é um nutriente encontrado em alimentos, como peixes e carnes, podendo ser sintetizado endogenamente no fígado, rins e pâncreas a partir de outros aminoácidos (glicina, arginina e metionina). A maior parte da creatina está no músculo esquelético, sob a forma de fosfocreatina. A fosfocreatina é a primeira reserva energética degradada durante atividades de alta demanda energética, que variam de dez segundos a cerca de um minuto, porém seus estoques são ressintetizados em poucos minutos, o que a torna importante em exercícios intermitentes.

A suplementação de creatina tem sido muito utilizada por atletas. Contudo, evidências recentes indicam que a creatina pode ser útil no tratamento de doenças, principalmente naquelas que resultam em atrofia e fadiga muscular. Outro aspecto relevante, que justificaria o uso da creatina em pacientes com doenças pulmonares crônicas, é que esta população apresenta redistribuição dos tipos de fibras musculares, com predomínio de fibras do tipo II, que se caracterizam por contrações rápidas e apresentam maior capacidade anaeróbia que as do tipo I. Estudos apontam que as fibras do tipo II apresentam maior utilização de fosfocreatina durante o exercício. Desta forma, a suplementação de creatina pode ser uma alternativa válida, juntamente com o treinamento físico, no intuito de diminuir a intolerância ao exercício.

L-carnitina - A L-carnitina é um metabólito essencial envolvido no transporte dos ácidos graxos de cadeia longa, do citosol para a matriz mitocondrial, onde ocorre a ß-oxidação, ou seja, a oxidação dos ácidos graxos, com produção de energia.

Vários trabalhos foram publicados na literatura esportiva abordando o efeito ergogênico da L-carnitina, visando à melhora do desempenho, já que a mesma pode aumentar a oxidação de ácidos graxos, diminuir as taxas de depleção do glicogênio muscular, e aumentar a resistência à fadiga muscular. Porém, a utilização de L-carnitina por longos períodos em indivíduos saudáveis não treinados não mostrou melhora do desempenho físico.

Parece lógico supor que a suplementação de L-carnitina deva ser utilizada preferencialmente em indivíduos com composição corporal adequada, especialmente no que se refere à reserva adiposa, já que a substância estimula a utilização de gorduras como substrato.

Aminoácidos de cadeia ramificada (ACR) - Os aminoácidos de cadeia ramificada (ACR), leucina, isoleucina e valina, são primariamente metabolizados no músculo esquelético como substratos energéticos, ou utilizados como precursores para a síntese de outros aminoácidos e proteínas. Eles exercem uma influência significativa sobre o metabolismo da glutamina e servem como importante substrato energético para o cérebro, rins, fígado e coração. O aumento da concentração de ACR no músculo esquelético reduz a atividade da glutamato desidrogenase, reduzindo a degradação da glutamina. O glutamato intracelular tem papel central na preservação dos fosfatos de alta energia no músculo e seus baixos níveis intramusculares estão associados à acidose lática precoce durante o exercício. A infusão de ACR estimula a síntese e diminui a degradação protéica, regulando a renovação muscular. Durante exercícios prolongados, os ACR podem servir como substrato oxidativo para os músculos esqueléticos. Em condições de relativa falta de energia, como sepse, trauma e hipóxia, o metabolismo dos ACR encontra-se acelerado no músculo esquelético.

Hormônio do crescimento - O hormônio do crescimento é um polipeptídeo composto de 191 aminoácidos, liberado pela hipófise a partir de certos estímulos fisiológicos específicos. Através de técnicas de engenharia genética, pode-se obter sua forma sintética, o hormônio de crescimento recombinante (rhGH). Esta substância pode acelerar a oxidação dos ácidos graxos e aumentar a captação de aminoácidos, além de exercer um efeito diabetogênico, secundário à diminuição do transporte de glicose através da membrana celular. Outros efeitos colaterais relacionados ao rhGH são: edema periférico, hipotiroidismo e ginecomastia.

O hormônio do crescimento estimula o fígado a produzir o fator de crescimento insulina-símile 1, uma molécula que se liga a proteínas carreadoras plasmáticas. Este fator de crescimento constitui o mais importante mediador anabólico do hormônio de crescimento, tendo função central na regulação do metabolismo e na proliferação e diferenciação celulares. Portanto, o emprego do hormônio do crescimento pode ser potencialmente benéfico na sarcopenia.

Referências:

Casey A, Greenhaff PL. Does dietary creatine supplementation play a role a role in skeletal muscle metabolism and performance? Am J Clin Nutr. 2000;72(2 Suppl):607S-17S.

Freund H, Hoover HC Jr, Atamian S, Fisher JE. Infusion of branched chain amino acids in postoperative patients. Anticatabolic properties. Ann Surg. 1979;190(1):18-23.

Gosker HR, van Mameren H, van Dijk PJ, Engelen MP, van der Vusse GJ, Wouters EF, et al. Skeletal muscle fiber-type shifting and metabolic profile in patients with chronic obstructive pulmonary disease. Eur Respir J. 2002;19(4):617-25.

Neder JA, Nery LE. Fisiologia do exercício: teoria e prática. São Paulo: Artes Médicas; 2003.

Persky AM, Brazeau GA. Clinical pharmacology of the dietary supplement creatine monohydrate. Pharmacol Rev. 2001;53(2):161-76.

Platell C, Kong SE, McCauley R, Hall JC. Branched-chain aminoacids. J Gastroenterol Hepatol. 2000;15(7):706-17.

Rodrigues LP, Padovan GJ, Marchini JS. Uso de carnitina em terapia nutricional. Nutrire. 2003;25:113-34.

Schols A. Nutritional modulation as part of the integrated management of chronic obstructive pulmonary disease. Proc Nutr Soc. 2003;62(4):783-91.

Villaça DS, Lerario MC, Dal Corso S, Neder JA - Novas terapias ergogênicas no tratamento da doença obstrutiva crônica. J Bras Pneumol 2006;32(1):

Veja Também:
Doença Pulmonar e a perda da força muscular
Carnitina
Infarto no miocárdio - marcadores bioquímicos
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Estudo de caso - Cirrose hepática
DNA mitocondrial - Cadeia respiratória

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23
Out

 Contos do Bié - O Santo que eu queria e os sinos de meu desejo

Categoria(s): Contos e Poemas

Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

São FranciscoAté que enfim se decidiu, após longas e extenuantes reuniões do vigário com os principais da cidade, entre eles o senhor prefeito, a demolição da velha igreja matriz.
Não levou muitos dias chegaram à cidade Dedê e Armelindo, pedreiros competentes, encarregados de construir o novo templo… Solteiros. Dedê, magro, alto, simpático, fala mansa. Armelindo, gordão, também muito amável e comunicativo.

Vi-os pela primeira vez do lado de fora da igreja, em companhia do vigário e de grande parte dos principais da cidade que decidiram levar a cabo a nova obra. Examinaram o velho templo a ser demolido e toda a área em volta, como a estudar onde seriam depositados os materiais básicos da futura construção.

A cidade estava eufórica e eu muito mais ainda. Afinal chegará a hora de ter um santo em minha casa. Seria uma oportunidade para eu rezar quase que dia e noite, a rogar ao santo que mantivesse a guerra lá fora e restabelecesse a saúde de meu pai. As inúmeras imagens e estampas dos santos da igreja seriam distribuídas a determinadas casas da cidade, que aí permaneceriam até a conclusão do novo templo. Ora, eu raciocinava, todos de nossa casa éramos assíduos freqüentadores das rezas e missas , e meu pai, em sendo membro do coro, onde tocava e cantava, e ainda prestava assistência técnica ao harmônico, preenchia todos os requisitos para abrigar um santo em casa. Pronto, eu matutava ,favas contadas, e, no meu íntimo e silenciosamente, alegrava-me, imaginando-me ajoelhado em algum canto da casa, diante do santo que ali iria estar, zelando por mim, por meu pai e meus irmãos, por toda a família.

Amiudaram-se minas idas à igreja, e quantas vezes, durante o dia, via-me a sós com meus medos, pavores e esperanças, postado diante das imagens, como a fazer uma via-sacra, detendo-me diante de cada um dos santos e santas, examinado-os em detalhes, reparando bem neles, no seu jeito de ser, na sua fisionomia, triste, alegra, decidida ou não. Lá num canto, à direita do altar principal, entre outras, via-se a imagem de Nossa Senhora das Dores, que parecia imensa, uma dona de toda altura, o manto a cobrir-lhe a cabeça e todo o corpo até as extremidades dos pés. Expressão de tristeza e dor, o olhar fixo, perdido no espaço, em direção à imagem do filho, o Senhor Morto, estendido no esquife, ali a seus pés. Nunca recebiam minha visita, e eu já descartara a ida dos dois para minha casa. São Sebastião, apesar de crivado de flechas, ensangüentado, não demonstrava expressão de dor e de derrota. A cabeça erguida e os olhos vivos pareciam traduzir sua indiferença ao martírio, o que me deixava seguro e confiante em tê-lo como hóspede e por isto já figura como um dos escolhidos, e, além dele, incluía-se uma santa linda, o olhar terno, as delicadas mãos a segurar um feixe de flores. Devia ser Santa Luzia. Havia outro santo, figura simpática de um velhinho, com uma criança ao lado, uma das mãos em sua cabeça, em gesto de afago. Era São Vicente de Paula. Mas com quem me simpatizei, de fato, e mais me demorava diante de sua imagem, foi São Francisco de Assis. Já escutava muita história a seu respeito, em especial de seu convívio com a natureza, a que chamava de irmã. Figurava entre os mais citados para ficar em minha casa, que, apesar de acanhada e muito simples, pobre até, dispunha, num dos cômodos dos fundos, de um viveiro com tuins, além de um bando enorme de pombas caseiras. Sua imagem poderia ser acomodada ao lado do viveiro, junto aos barulhentos passarinhos verdes.

Todos estes planos eu traçava silenciosamente em meu coração, e não via a hora em que o vigário fizesse o anuncio oficial das casas contempladas para acolher as imagens dos santos de devoção de todos nós, velhos, adultos e crianças. Por isto eu não perdia uma reza, um terço e muito menos missa, na expectativa da grande notícia. Esta frequencia à igreja animou muitas beatas minhas vizinhas e as professoras do grupo onde eu estudava, pois quem sabe haveria em mim uma santa vocação para padre, menino bom, rezador, de bom procedimento- “bem procedido?”

Todas as tardes, a partir das seis horas, logo após o momento do Ângelus na Radio Tamoio, em que Júlio Louzada levava às lágrimas, mormente as mulheres, os ouvintes de seu programa, tinha início a novela em que se abordava a vida dos santos, e estava sendo levada ao ar a vida de São Francisco de Assis.

Chegou, afinal, o dia do grande anúncio e também de minha decepção e tristeza, de vez que nossa casa não figurava entre as que iriam acolher as imagens dos santos e santas. Terminada a celebração daquela manhã fria e úmida do mês de junho, permaneci no interior da igreja, cujos trabalhos de demolição teriam início na semana seguinte, com a retirada das imagens e de todos os utensílios e componentes que pudessem ser aproveitados no novo prédio, e os sinos seriam um dos primeiros a serem retirados, junto com o velho e tradicional relógio e seu pesado pêndulo.

De início em nicho, orei a todos os santos e santas, dentendo-me mais um pouco diante daqueles de minha maior simpatia e devoção. Dei início aos meus passos pela parte reservada exclusivamente às mulheres, e, do último nicho fui para o outro lado, lugar de exclusivo assento dos homens. Passei rápido ao lado de Nossa Senhora das Dores e do esquife do Senhor Morto, postados ao lado da sacristia e do altar-mor.

À tardezinha voltei à igreja e dirigi meu adeus aos santos todos, cujas imagens, na tarde daquele domingo, foram levadas às sua novas e provisórias moradas, em procissão formada por diversos grupos dos fiéis devotos, que iam saindo a entoar hinos de louvores.
E fiquei ali, do lado de fora, tiritando de frio, e vi quando sumiu, no fim do largo do chafariz, o derradeiro grupo de fiéis que levaram o Senhor Morto e Nossa Senhora das Dores à casa de seu Lalade e Sinhazinha, onde foram acolhidos. E já de noite, no silêncio da rua erma e deserta, tomei o caminho de casa. Aqui e acolá escutavam-se os cantos dos pássaros noturnos, entre eles o curiango, que, piando agouros, dava-me a pressentir.

Uma noite de maus sonhos e pesadelos

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