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Contos do Bié - O Santo que eu queria e os sinos de meu desejo

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

São FranciscoAté que enfim se decidiu, após longas e extenuantes reuniões do vigário com os principais da cidade, entre eles o senhor prefeito, a demolição da velha igreja matriz.
Não levou muitos dias chegaram à cidade Dedê e Armelindo, pedreiros competentes, encarregados de construir o novo templo… Solteiros. Dedê, magro, alto, simpático, fala mansa. Armelindo, gordão, também muito amável e comunicativo.

Vi-os pela primeira vez do lado de fora da igreja, em companhia do vigário e de grande parte dos principais da cidade que decidiram levar a cabo a nova obra. Examinaram o velho templo a ser demolido e toda a área em volta, como a estudar onde seriam depositados os materiais básicos da futura construção.

A cidade estava eufórica e eu muito mais ainda. Afinal chegará a hora de ter um santo em minha casa. Seria uma oportunidade para eu rezar quase que dia e noite, a rogar ao santo que mantivesse a guerra lá fora e restabelecesse a saúde de meu pai. As inúmeras imagens e estampas dos santos da igreja seriam distribuídas a determinadas casas da cidade, que aí permaneceriam até a conclusão do novo templo. Ora, eu raciocinava, todos de nossa casa éramos assíduos freqüentadores das rezas e missas , e meu pai, em sendo membro do coro, onde tocava e cantava, e ainda prestava assistência técnica ao harmônico, preenchia todos os requisitos para abrigar um santo em casa. Pronto, eu matutava ,favas contadas, e, no meu íntimo e silenciosamente, alegrava-me, imaginando-me ajoelhado em algum canto da casa, diante do santo que ali iria estar, zelando por mim, por meu pai e meus irmãos, por toda a família.

Amiudaram-se minas idas à igreja, e quantas vezes, durante o dia, via-me a sós com meus medos, pavores e esperanças, postado diante das imagens, como a fazer uma via-sacra, detendo-me diante de cada um dos santos e santas, examinado-os em detalhes, reparando bem neles, no seu jeito de ser, na sua fisionomia, triste, alegra, decidida ou não. Lá num canto, à direita do altar principal, entre outras, via-se a imagem de Nossa Senhora das Dores, que parecia imensa, uma dona de toda altura, o manto a cobrir-lhe a cabeça e todo o corpo até as extremidades dos pés. Expressão de tristeza e dor, o olhar fixo, perdido no espaço, em direção à imagem do filho, o Senhor Morto, estendido no esquife, ali a seus pés. Nunca recebiam minha visita, e eu já descartara a ida dos dois para minha casa. São Sebastião, apesar de crivado de flechas, ensangüentado, não demonstrava expressão de dor e de derrota. A cabeça erguida e os olhos vivos pareciam traduzir sua indiferença ao martírio, o que me deixava seguro e confiante em tê-lo como hóspede e por isto já figura como um dos escolhidos, e, além dele, incluía-se uma santa linda, o olhar terno, as delicadas mãos a segurar um feixe de flores. Devia ser Santa Luzia. Havia outro santo, figura simpática de um velhinho, com uma criança ao lado, uma das mãos em sua cabeça, em gesto de afago. Era São Vicente de Paula. Mas com quem me simpatizei, de fato, e mais me demorava diante de sua imagem, foi São Francisco de Assis. Já escutava muita história a seu respeito, em especial de seu convívio com a natureza, a que chamava de irmã. Figurava entre os mais citados para ficar em minha casa, que, apesar de acanhada e muito simples, pobre até, dispunha, num dos cômodos dos fundos, de um viveiro com tuins, além de um bando enorme de pombas caseiras. Sua imagem poderia ser acomodada ao lado do viveiro, junto aos barulhentos passarinhos verdes.

Todos estes planos eu traçava silenciosamente em meu coração, e não via a hora em que o vigário fizesse o anuncio oficial das casas contempladas para acolher as imagens dos santos de devoção de todos nós, velhos, adultos e crianças. Por isto eu não perdia uma reza, um terço e muito menos missa, na expectativa da grande notícia. Esta frequencia à igreja animou muitas beatas minhas vizinhas e as professoras do grupo onde eu estudava, pois quem sabe haveria em mim uma santa vocação para padre, menino bom, rezador, de bom procedimento- “bem procedido?”

Todas as tardes, a partir das seis horas, logo após o momento do Ângelus na Radio Tamoio, em que Júlio Louzada levava às lágrimas, mormente as mulheres, os ouvintes de seu programa, tinha início a novela em que se abordava a vida dos santos, e estava sendo levada ao ar a vida de São Francisco de Assis.

Chegou, afinal, o dia do grande anúncio e também de minha decepção e tristeza, de vez que nossa casa não figurava entre as que iriam acolher as imagens dos santos e santas. Terminada a celebração daquela manhã fria e úmida do mês de junho, permaneci no interior da igreja, cujos trabalhos de demolição teriam início na semana seguinte, com a retirada das imagens e de todos os utensílios e componentes que pudessem ser aproveitados no novo prédio, e os sinos seriam um dos primeiros a serem retirados, junto com o velho e tradicional relógio e seu pesado pêndulo.

De início em nicho, orei a todos os santos e santas, dentendo-me mais um pouco diante daqueles de minha maior simpatia e devoção. Dei início aos meus passos pela parte reservada exclusivamente às mulheres, e, do último nicho fui para o outro lado, lugar de exclusivo assento dos homens. Passei rápido ao lado de Nossa Senhora das Dores e do esquife do Senhor Morto, postados ao lado da sacristia e do altar-mor.

À tardezinha voltei à igreja e dirigi meu adeus aos santos todos, cujas imagens, na tarde daquele domingo, foram levadas às sua novas e provisórias moradas, em procissão formada por diversos grupos dos fiéis devotos, que iam saindo a entoar hinos de louvores.
E fiquei ali, do lado de fora, tiritando de frio, e vi quando sumiu, no fim do largo do chafariz, o derradeiro grupo de fiéis que levaram o Senhor Morto e Nossa Senhora das Dores à casa de seu Lalade e Sinhazinha, onde foram acolhidos. E já de noite, no silêncio da rua erma e deserta, tomei o caminho de casa. Aqui e acolá escutavam-se os cantos dos pássaros noturnos, entre eles o curiango, que, piando agouros, dava-me a pressentir.

Uma noite de maus sonhos e pesadelos

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1 Comentário »

  1. Eneida Tagliolatto Pires comenta:

    24 Outubro, 2007 @ 07:38

    Gabriel, como você queria que o Santo fosse para sua casa, se você estava selecionando quase como um concurso de Miss. Esse não porque tem cara desse jeito, outro não porque não era bem o que você queria. Concordo que também não ia querer Nosso Senhor morto Mas você estava até de certo modo fazendo uma barganha; passou a não perder uma reza, etc…
    Gabriel, Santo não é como visita, que você trata bem se é de seu agrado, ou põe a vassoura atrás da porta se não for, Santo a gente não escolhe, Eles é que nos escolhem. Então eles te deram uma lição, deixaram que você tivesse uma noite de maus agouros e pesadelos. É brincadeira, viu?
    Eneida Tagliolatto

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