Out
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Contos do Bié - O Muro de Berlim em Peçanha

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Muro de Berlim

Corria o ano de 1944, devia ser mês de junho, tempo frio, e de muita poeira. Mas ali no Peçanha a coisa estava quente, só se falava em guerra. De fato, era americano por toda parte, aqueles caminhões e jipes sem capota indo e vindo, transportando minério. Aviões subindo, aviões descendo, movimentação nunca vista. Um novo ingrediente se misturou no que já tinha complicado a vida do povo d0 lugar: o tal Comunismo, PC do B e PCB, siglas proibitivas de pronunciar, ainda mais de escrever, exorcizadas em todas as liturgias pelo vigário. Pois bem, certo dia a coisa tomou rumos incertos e não recomendados, eis que no muro branco e alvo da D. Lota Perpétuo, que ficava logo ali no final da Rua do Quenta-sol e início da Rua da Fontinha, bem na curva que demandava a rua onde antigamente havia o negócio do Seu Carlos Amantino, naquele virgem muro caiado de branco apareceu escrito com letras pretas e em tamanho gigante: “Despeito vê prestígio onde há traição - PCB”. Aquilo foi uma bomba! “A peste por fim chegara à cidade!!!” - bradou o Padre Amaral.

Convocaram-se as pessoas gradas e de bem do lugar, e, diante do dito cujo muro, as feições carregadas, se interrogavam no íntimo, a querer saber quem teria sido o autor daquela heresia política. Seu Ostinho, óculos de aro de metal, lentes grossas, chegou mais perto, e sem ter o que dizer, tal a ousadia do autor ou autores, remexeu no bolso interno do paletó e tirou do maço um cigarro - Consul - de imediato aceso pelo solícito Jeremias, solidário no repúdio ao pestilento Comunismo. E em todas as rodas que se formavam o assunto era um só e somente aquele: quem teria violado o muro branco de D. Lota??? “Não é gente daqui! - dizia um. “Só pode ser um doido!” - ajuntava outro. “Isto é gente que não tem o que fazer!” E assim ia indo, o trêm tomando forma de um grande e complicado caso político, carregado de mistério.

Sol morrente, retornava eu de meu trabalho no campo de aviação, quando mais uma vez passei por ali, que era meu caminho. Os grupos de curiosos se revesavam, e já se comentava que o prefeito Dr. Antônio da Cunha determinara ao Zé Bão proceder à limpeza do muro, ou melhor, fazer sumir aquela porcaria que ali estava escrito. Ao chegar a casa, meu pai, postado na janela, olhava afoito para a descida da Rua da Fontinha. Aguardava a chegada do compadre Antônio Vitor, que todos os dias ia para o Retiro Córrego das Almas. logo que o compadre desceu do Pampa, meu pai o chamou até à sala, e enquanto o Dete desarreava o animal, meu pai contou toda a história do muro. O padrinho, surpreso e abismado ante o sucedido, foi logo perguntando: “Quem foi, João?”.

Terminado o papo, eu e meu pai fomos cuidar da rega da horta. Teve uma hora que meu pai se achegou a mim e quis saber o que se passava comigo, que achava muito estranho meu proceder. No fim da conversa, afoito, me chamou para dentro de casa, e a sós e trancados no quarto, me recomendou: “Não conte isto a ninguém, nem ao padre, na hora da confissão”. Menino obediente, não abri o bico, e só faço hoje, a dizer que, quando cedinho ainda, eu a conversar com a minha estrela guia, vi, isto afirmo e juro, que Lúcio de seu Ostinho estava ali estreando o alvo e branco e virgem muro de D. Lota, predecessor do Muro de Berlim. Que Deus o tenha em sua Glória, que muro no Céu nunca houve, não há, nem haverá.

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1 Comentário »

  1. Eneida Tagliolatto Pires comenta:

    16 Outubro, 2007 @ 05:35

    Olha eu outra vez a comentar aquilo que não precisa de nada para que se torne uma viagem para o leitor. Gabriel, eu juro que também vi o Lúcio pichando o muro de dona Lota. Também vi o seu pai na janela esperando o compadre para que ambos comentarem o sucedido; e o burburinho das comadres postadas nas janelas, apoiadas nas almofadinhas que já ficavam à espera dos braços de suas donas. Mas não me chame de bisbilhoteira, somente peguei carona na rabeira do seu conto. Eneida.

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