09 - out
  

Contos do Bié – À Terra de Dante – Firenze – Itália

Categoria(s): Contos e Poemas




Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Inferno de Dante

Gustave Doré 1861

Esta noite fiquei encafifato, assuntando a vida, e dizia comigo, como esta vida é engraçada, gozada. Busquei no tempo e no espaço pedaços esparsos de minha existência, que giram longe, bem longe, por trás das montanhas, das montanhas das Gerais. Lá, na estreita, íngreme e pacata rua do Gambá, logo depois do largo do Rosário, na aconchegante e distante Peçanha, que tranqüila dormita no regaço dos montes e vales verdejantes, em casa de sa Mariana, exímia quitandeira, temente a Deus e aos Santos e almas do purgatório, iniciei-me nas rezas para a preparação da primeira comunhão. Falava-me de Deus, dos santos todos, das almas e dos capetas. Mostrou-me figuras do céu, do paraíso, d purgatório e do inferno. Assustado, amedrontado, queria não fosse verdade tudo aquilo que me era apresentado. Mas dizia-me sa Mariana: olhe aqui os retratos que um tal de Dante tirou das hostes infernais. Então era um santo este homem, pois como poderia ter ido e voltado das mansões dos mortos a são e salvo? Mas depois vim a saber, santo não era, pois na igreja imagem dele não havia. Retratista, isto sim. Santo, nunca, confirmou o vigário à pergunta que lhe fiz.

Mesmo em não sendo santo, cresceu em mim a admiração pelo retratista Dante, que, em minhas horas de angústia e medo, com ele me apegava, pois se ao inferno chegou e de lá saiu ileso com retratos dos capetas e das almas sofredoras, quem sabe até mais que santo fosse, talvez igual ao próprio Deus? E este tal de Dante, por mim evocado em silêncio e secretamente, muitas vezes me valeu, e o elegi meu santo companheiro, sem contudo desprezar todos os outros, com Santo Antão, São Francisco, São Bento, São Genaro e Bartolomeu.

Cresci, saí do sagrado casulo de minha doce e irrequieta infância, cujas lembranças, em retalhos, tratos e fagulhas, escoaçaram ao vento, perdidas no espaço de uma existência efêmera e passageira.

Mas eis que hoje, nesta noite sem lua e de estrelas repleta, vem-me à mente a figura de Dante, que acolhe em sua terra e no seu idioma – que surpresa! – um despretencioso texto meu, e empresta-lhe doçura e graça, tornando-o harmônico e melodioso, que tão somente o graciosa idioma italiano tem o dom de assim fazer. E não contente com esta empreitada, vai além, quando recebe, feliz e rindo, minha filha bem amada, que, acordada, realiza seus sonhos e que foram sonhos que também sonhei: conhecer a terra de Dante, que um dia foi amigo meu.

Tenho razão quando digo: não é gozada e engraçada esta vida?

E “piu” bela, porque não?




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2 Comentários »

  1. Eneida Tagliolatto Pires comenta:

    10 outubro, 2007 @ 5:33 AM

    Gabriel, isso não é um conto; é um poema, tamanha é a doçura que você colocou nas entrelinhas. Na Comédia que Dante colocou como Divina, mostra toda a essência de uma mente fabulosa. Com uma grande capacidade de nos amedrontar, Dante nos mostra detalhes incríveis de sonhos ou pesadelos. Mas você não! Você coloca açucar, e nos delicia com uma leitura que mais parece uma das quitandas feita pela Sa Mariana. Abraços, Eneida

  2. Gabriel Araújo dos Santos comenta:

    10 outubro, 2007 @ 1:47 PM

    Sinto-me envaidecido com as palavras dessa mulher poesia. Issso vale muito e muito mais que doses e mais doses dos comprimidos que vivem tomando por aí.
    Muito obrigado, Gabriel. Biké.

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