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02

Contos do Bié - À Flávia, para dos sonhos lembrar-se…

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Boneca de pano

Miro minha frente a boneca
Rosa, estendida inerte e largada sobre a velha cadeira que a muitos
já deu repouso.
O nome que lhe deram surgiu por acaso,
como por acaso muitas coisas acontecem em nossa vida.
Seria ela apenas uma boneca? Creio que
não!!! Se fosse apenas e tão somente uma boneca, porque nos atrai
tanto, a querer tocá-la e sentir-lhe a fofura, e apertá-la nos braços
e beijá-la sem conta?
É mais, muito mais que uma boneca,
porque encerra um monte de sonhos e recordações que ficaram pelos
caminhos de nossa infância florida, de fantasias coloridas, certezas
e dúvidas a assaltarem nosso espírito inquiridor, e nela divisamos
fiapos das lembranças idas e bem vividas.
Ah!!! Quantas bonecas curamos,
quantas bonecas alimentamos em nossos folguedos de fundo de quintal!!!
Estariam elas hoje abandonadas? Quem sabe!!! Porque outros
brinquedos nos surgiram do mundo pelas estradas, porém de vazios
significados, por não trazerem da infância a doçura e a singeleza,
momentos férteis e plenos de mágico diálogo com os panos enrolados e
pintados, que choravam e sorriam e cantavam ao embalo de nossos
braços, sem o poder da eletrônica que a modernidade trouxe, mas pela
sagrada intuição de que a inocência nos dotou.
Vai aí, Flávia, essa trouxinha de panos chamada Rosa, e mais
que um amontoado de sobra de retalhos é o retorno ao mundo maravilhoso
e encantado de sonhos e fantasias… Embale-se neles e desperte a
criança que ainda existe em você.

De seu pai

Gabriel

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2 Comentários »

  1. Eneida Tagliolatto Pires comenta:

    3 Outubro, 2007 @ 05:21

    Prezado Gabriel, acabo de ler a sua crônica, que fala da boneca Rosa, cuja proprietária é sua filha Flávia.
    Quando criança, tive minhas bonecas; a 1ª era feita de papelão com um vestido de papel crepon (essa eu cheguei a comentar com vocês no Encontro das Letras), essa eu ganhei quando completei 4 anos, e foi comprada no mercado velho. a 2ª foi comprada em S. Paulo, direto na fábrica de brinquedos Estrela, eu estava com 6 anos e apesar de estar junto com meus pais, não percebi a compra, pois a mesma só seria dada no natal, e naquela época as crianças eram muito ingenuas. No natal o papai-noel trouxe a boneca junto com um carrinho de vime e eu muito feliz passeava na calçada lá na rua Regente Feijó , detalhe: fiquei sabendo anos mais tarde que meus pais só puderam comprar a dita cuja, porque estava com defeito, e não tinha roupa, coisa que minha mãe de imediato providenciou, juntamente com uma moça vizinha, porque não poderia ser feito lá em casa, senão eu descobriria. Essa boneca era de louça, e o vestido era cor-de-rosa, com rendinhas branca. Durou pouco, porque sendo de louça, já viu,né? Mas enquanto durou foi motivo de muito orgulho para mim, pois era a única menina na rua a possuir esse brinquedo tão lindo e desejado (embora com defeito, coisa que eu nunca percebi). A 3ª, foi quando eu estava com 9 anos. Essa não veio com data marcarda, foi uma oportunidade que apareceu e minha mãe comprou; era de segunda mão. Decerto a proprietária devia ter ganho uma mais bonita, e a mãe resolveu vendê-la. O corpo era de pano (por sinal estava bem encardido), a cabeça e membros eram de louça, já também mostrando pela cor que a antiga proprietária manuseou bastante aquele brinquedo. Como não tinha cabelo, eu achei que era menino e coloquei o nome de Beto. Com essa boneca eu brinquei bastante. Acho que só foram essas, pois são as únicas que guardo na memória, mas foram tão importantes, que apesar de ser avó de adolescentes, ainda tenho bem na lembrança, lembrança essa que ao escrever contando, vai passando um filme na minha cabeça, e me vejo a embalar esses filhos da minha infância. Filhos que não falaram, não andaram, mas que amei tanto. Eneida

  2. Geiza Nazareth Aguilar de Aquino comenta:

    16 Outubro, 2007 @ 20:15

    Sôbre o texto do poeta Gabriel, para a filha Flávia, ao ler a frase “QUANTAS BONECAS CURAMOS..”, eu voltei para o período em que cuidei da mamãe com Alzheimer (fêz 14 meses que foi encontrar-se com Deus): com 81 anos quando ficou doente, era minha boneca, cuidei, mas não curei. Tenho lido quase todos os textos dele, fico encantada e emocionada. E este tocou forte, porque quando minha boneca partiu estava com quase 83 anos.Já não enxergava (degeneração macular), nem falava, não sabia quem eu era, mas eu sabia quem ela era. Quem muito sofre é o cuidador, mas valeu, Deus estava sempre presente.
    Geiza

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