Set
25

Contos do Bié - Manhã de amor

Categoria(s): Contos e Poemas


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

Manhã monótona. Pela vidraça miro o tempo encoberto, aquela chuvinha que vai e vem, o gotejo lerdo e descompassado nas folhagens da begônias que abraçam as robustas e eretas palmeiras do jardim, harmoniosa e pacífica convivência, deleite para os olhos que as visualizam.

Vou ali, chego acolá, volto e sento-me na poltrona da sala, imaginando coisas, a conversar com as pessoas ausentes, umas distantes, outras mais próximas; algumas só conhecidas, e outras - inúmeras - parentes, amigas.

E entre tantas gentes, lembrei-me de uma, muito mais que amiga: companheira, confidente, parceira constante na lida desta vida… E sinto que não estou só… Que beleza!

Sensação agradável esta - mesmo não tendo ninguém por perto - de não experimentar o vazio da solidão. E quanta gente - que pena! - rodeada de multidões, se vê só, literalmente só…

Amada jovem

Aquela em que eu mais pensava saíra cedinho ainda, em companhia de outra grande amiga - dela e minha - nossa filha.

E agora, já tomando o café, ali sentado a reparar no tempo e assustando a vida na quietude do meu pensar, terna e meiga ela passou por minha lembrança… não precisei fechar os olhos, forçar a cabeça. Fui ajustando as partes: seu andar, seu sorriso, seus ais, seu ir e vir pela casa e a cidade afora; suas dúvidas, sua fé, sua esperança; sua disponibilidade, o seu doar…

Depois, sei não o que me deu, fui até o quarto e, engraçado, não suportei ver a cama desarruamada. E divisei sua figura indo e vindo, gestos há anos e anos adquiridos e incorporados ao seu dia-a-dia, a ajeitar os lençóis, dobrando os cobertores, recolhendo os travesseiros. E nos achegos finais, a cama bem arrumadinha!!! Tudo como num passe de mágica… sem queixumes, sem reclamos, com muito amor…

Quis também fazer o mesmo, imitar-lhe a rotina, a calma e a lindura de seus gestos no silêncio de um afã que não tem fim: de início, deixar em ordem a primeira forração. Em seguida, aquele pano grande, que não sei se colcha ou lençol, que traz a marca de seus bordados. Na extremidade, junto � cabeceira, dá-lhe uma dobra e em seguida prendem-se as abas por sob o pesado colchão ortopédico. Que ingente e hercúleo esforço!

Amada
Ao retirar-me, vi que não estava completa a arrumação. Ah! sim, a colcha mais pesada, só para enfeite.

Pronto! Não! Faltava ainda mais alguma coisa: ela, que cedinho - eu ainda dormindo - se ausentara com a nossa filha, em destino ao Grupo Primavera - entidade não governamental de orientação a meninas carentes - onde inúmeras outras camas a aguardavam, que o mundo aí fora precisa muito ser arrumado, como a nossa casa, todos os dias… sem reclamos, sem queixumes, com muito amor…

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5 Comentários »

  1. Gabriel Araújo dos Santos comenta:

    25 Setembro, 2007 @ 21:40

    Seria a coruja gabando o toco eu, o autor da crônica Manhã de Amor. Não posso deixar de cumprimentar o Dr. Armando pela iniciativa de incluir nessa página algo de fundo lírico ou ilárico, como foi o caso de O VISITANTE. Admiro nele, no Dr. Armando, o interesse pela literatura, e prova disso é a sua criatividade quanto às ilustrações, e tudo se dá as mãos, suas ilustrações e o conteúdo das narrativas.
    Fica aqui o meu muito obrigado pelo medicamento que está a admistrar-me, que é o incentivo às minhas criações literárias neste meu estertor da vida, eis que já me vejo na casa dos mais de 75 anos de vida bem vivida.

  2. Eneida Tagliolatto Pires comenta:

    26 Setembro, 2007 @ 13:38

    Boa tarde, meu confrade do Encontro das Letras.
    Agora neste momento aqui não chove, mas está uma tarde melancólica, com ares de que precisa e pede uma chuva; então me lembro que ainda não li aquilo que já tenho certeza está publicado no espaço a ti reservado pelo seu amigo Dr Armando. Abro a página e leio uma declaração de amor tão plena, tão emocionante, tão cheia de companheirismo e fidelidade. Fidelidade não só no caso de que ela é a única, mas fidelidade até em tentar imitar os gestos da pessoa amada. Essa declaração não fica só nessa manhã de amor; fica no cochilo depois do almoço, fica no café da tarde serena, etc… Enfim é a eterna declaração de quem ama e também é amado. É a cumplicidade perene. Eneida

  3. Helena Borges comenta:

    28 Setembro, 2007 @ 16:07

    Sinto-me enlevada ao ler os contos de meu amigo Bié, tão comovente vê-lo transformar os fatos corriqueiros do dia a dia em pura poesia.
    Parabéns e espero que por muito tempo possa ter o privilégio de sua presença em minha vida

  4. HÉLIO GROTT FILHO comenta:

    8 Novembro, 2007 @ 10:59

    Como diz minha mulher (catarinense de Blumenau) a mim, (paranaense de Curitiba): Hélio, nós ainda precisamos morar em Minas! Aquela terra tem algo de especial!
    Lendo as preciosidades de um “Tal” Gabriel, poeta mineiro, que por acaso encontrei na Internet, sou obrigado, cada vez mais, a concordar com Dona Rose.

  5. Dr. Armando Miguel Jr comenta:

    7 Dezembro, 2007 @ 10:06

    Resposta do Bié

    Prezado Senhor, boa noite, que estendo à sua Dona.
    Desculpe-me, mas no seu e-mail enviado ao prestimoso e competente Dr.
    Armando, aqui de Campinas, o caro cidadão se diz de Curitiba - não sei
    se reside lá - e aquilo ficou na minha cabeça, eis que eu tinha
    naquela cidade duas pessoas que eu muito admirei e ainda admiro
    poste-mortem. Uma delas é o Dr. Francisco da Cunha Pereira, com quem
    mantinha contato telefônico. Quando eu ligava na sua casa era ele
    mesmo quem atendia, apesar da avançada idade. Havia também naquela
    cidade o Lincoln da Cunha Pereira, sobrinho do Dr. Francisco. Estou
    para fazer 76 anos, e me lembro do Lincoln rapazinho lá no meu
    lugarejo de Peçanha, onde ele nasceu e onde eu fui criado. Eramos
    vizinhos, e a divisa de nossos quintais era uma cerca de acha de
    braúna. Seu pai, seu Lalade, era Diretor do Grupo Escolar. E a mãe,
    Dona Sinhazinha, agente da Loteria Mineira. O Lincoln era filho único.
    Tinham duas empregadas, a Corina, uma preta retinta e brava, e a
    Djanira, clara e baixinha. O Lincoln entrou para a o Exército na
    Escola de Agulhas Negras. Lembro-me, quando eu já era mais crescido e
    contínuo do Banco da Lavoura, das ordens de pagamento de duzentos
    cruzeiros mensais que a mãe lhe mandava. A família Cunha Pereira era
    numerosa e importantíssima lá naquelas bandas dos Gerais, que tinham
    raízes de mando e comando desde o tempo do Império, quando o avô do
    Dr. Francisco foi senador. O irmão dele, Dr. Antônio da Cunha Pereira,
    foi intendente durante o Estado Novo.O Dr. Simão, também irmão do Dr.
    Francisco, político - foi senador - e médico de renome, operou-me de
    apendicite supurado em junho de 1950, quando quase bati as botas. Um
    filho dele, o Dr. Simão Filho, foi meu professor de História na Escola
    Normal (entrei para o ginásio aos 22 anos, de barba e bigode) de
    l954 a l957.
    Estive em Curitiba em l982, e tive a grande satisfação de um
    reencontro com o Lincoln, que ainda estava na ativa. Levou-me à casa
    dele e me mostrou os pios de nambus e capoeira e bolas de bilhar que
    meu pai, exíminio marceneiro, fizera para ele. Vim embora com o
    coração amarrado, tanto gostei de Curitiba…
    Tenho aqui guardado um telegrama que o Dr. Francisco me
    mandou em função de um evento literário, espécie de relíquia para o
    conjunto das lembranças sentimentais que guardo de tempos idos e bem
    vividos.
    Viu só o que o seu e-mail produziu em mim?
    Muito obrigado por ativar tão ternas e doces lembranças.
    Saudações, Gabriel.

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