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Set
18
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Contos do Bié - O Visitante
Categoria(s): Contos e Poemas |
Sabedoria
Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *
* Poeta Mineiro
Eu residia em Barbacena, isso há muitos anos, quando um amigo de infância, na época já formado médico, e de renome, bateu lá em casa.
Uma visita inesperada, e há tempos não nos víamos.
Fazia parte de um grupo de médicos de sua especialidade na pesquisa do comportamento de doentes mentais, como se dizia naquela época.
Como não podia perder tempo, e queria muito conversar comigo, convenceu-me a acompanhá-lo ao internato foco de suas pesquisas.
Prometeu jantar comigo, e deixei recomendado o prato de sua predileção: angu, frango caipira ao molho pardo e taioba refogada.
Ficou por sua conta o vinho. Tinto, francês, naturalmente.
Confesso que não foi com bom grado que aceitei o convite. Mas negá-lo não podia, ainda mais em se tratando de quem.
Em lá chegando, meio impaciente – no tempo de ginásio seu apelido era Ligeirinho - deixou-me na sala de visitas, e enquanto o diretor do manicômio não vinha, saiu a andar pelos inúmeros corredores, aquela coisa imensa.
Quando vi, estava a correr de um indivíduo que o perseguia.
Com uma faca de regular tamanho, pontiaguda, velha e enferrujada, aquela figura esguia e desajeitada parecia um cavalo galopando corredor afora.
Saí em disparada a procurar socorro, perdendo-me naqueles inúmeros labirintos.
Viu-se encurralado no final de um corredor comprido, quando o paciente foi-se aproximando dele.
Os olhos fechados, não teve outra alternativa senão esperar pelo pior.
A custo, abriu os olhos.
Nunca me passara pela mente que ele, com quem tive tão sadia e feliz convivência, um idealista e vencedor, iria passar por tudo aquilo.
Nisso, passos apressados foram-se aproximando, e quando os médicos e o pessoal da segurança ali chegaram, aquela figura encurvada e de nariz adunco, queixo saliente e cabeça raspada; os olhos vivos e inquietos como a querer saltar das órbitas; a boca totalmente banguela, sorrindo que sorrindo, a gaguejar:
- Toma, agora corre atrás de mim.

Eneida Tagliolatto Pires comenta:
20 Setembro, 2007 @ 13:24
Êta Gabriel! Vai ter imaginação assim prá lá de boa. E, não é que eu já me via correndo também pelos corredores, e pensando comigo mesma, que se por acaso o Ligeirinho caisse, eu é que ia me ver numa enrascada daquelas, pois nunca fui boa em corridas, apesar de ter pernas compridas, então já viu que quem ia fechar os olhos seria “euzinha aqui”. Você tão assustado não deve ter reparado que quando tudo serenou, eu estava bem escondida atrás da cortina da última janela do corredor. Abraços, Eneida.