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Contos do Bié - Sendo amada, vale a pena continuar a viver.

Categoria(s): Contos e Poemas, Sociologia


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro

.

avó

Meu Deus, minhas almas, ajudem-me, preciso me encontrar com ele, faz quanto tempo não o vejo! Cinqüenta anos? Não. Mais. Como me lembro…
Ela vive me observando, e percebe as mínimas mudanças do meu humor. Tem sido minha fiel confidente… Dia a dia quer ir mais fundo dentro de mim, logo eu, que sempre fui tão reservada…
Hoje, quase lhe revelei o meu grande segredo, o telefonema do Alfredo. Ah, o Alfredo… Se eu pudesse voltar no tempo e no espaço, e me fosse dado escolher outra estrada, na certa não me afligiria tal e tamanho cansaço… Meus sonhos foram em fiapos transformados, e voam por aí… Sonhos que dormindo ou acordada eu sonhei, vislumbre apenas de uma felicidade que ainda não alcancei; e vai-se extinguindo toda a ingênua vaidade das sementes em mim plantadas desde os tempos de menina ainda. E do tempo em que me transformaram em adulta, de quando me fizeram esposa, e do momento em que me fizeram mãe, amante e serviçal. Agora, a solidão… Não sou parte de mim mesma. Sou o que os outros querem que eu seja: alma submissa à espera do eterno descansar…Tudo porque um dia neguei um beijo ao meu amado. Ou não? Havia o preconceito. Filha de Juiz de Direito, verdadeiro ultraje eu, cursando a Escola Normal, cair de amores pelo filho de um humilde marceneiro e a mãe uma lavadeira. Então, chegou à cidade o “Doutor” Átila, advogado recém formado, que logo caiu nas graças dos notáveis do lugar… Decidiram por mim – e ainda decidem, não vê? - apossando-se das minhas decisões e de meus sentimentos, tornando-me cativa de tudo e de todos.
Hoje o Alfredo tornou a ligar, e Natália ouviu toda a conversa pela extensão. Não por que queira bisbilhotar a minha vida, mas por um pedido que lhe fiz, que ficasse na extensão. Muito melhor ela, que na sua tenra idade se mostra solidária com o meu viver, do que os outros, os que me surrupiaram toda a liberdade, deslocando-me de um para outro lugar, como se eu fosse um baú de antiguidades imprestáveis. E minha neta ouviu a voz do Alfredo, percebeu os meus risos e os soluços intermitentes. Eu lhe disse que ela se achava na extensão, o que não o desencorajou de me dizer palavras que há muito guardava consigo. É sozinho na vida, porém se sente realizado na profissão que abraçou. Ficara noivo, mas desistiu, que ela não era a sua meia laranja.
Insistiu para o reencontro. Pedi para me ligar daqui uns dias, que eu ia pensar. Natália está radiante, e parece que a sua cumplicidade fez crescer ainda mais a sua admiração e respeito por mim. Sente-se importante por compartilhar do meu segredo, que guarda a sete chaves.
———–
“Deslumbrosa criatura!” Foi o que primeiro ouvi do Alfredo naquele nosso reencontro. Depois, brincou comigo, a dizer que aquela era a primeira sexta-feira, mas que o céu estava nublado, e Deus não veria o nosso pecado. Eu tinha os pensamentos confusos, e me debatia na vã tentativa de me libertar das preconceituosas amarras de toda uma vida casta e de conduta irrepreensível, produto da severa educação que recebi, calcada na retidão e em soberanas proibições ao longo de uma juventude reprimida e solitária. Mas chegou o momento em que a fúria do profano se manifestou em sua plenitude, e vieram abaixo as muralhas protetoras dos vastos e ocultos domínios onde me refugiei durante toda uma existência regida por princípios de austeridade moral inquestionáveis!!! A vida e a ânsia de amar e ser amada ainda palpitam em mim! Desnuda de tudo, a alma como que lavada, implorei ao Alfredo, como uma adolescente apaixonada, que não partisse logo, e me proporcionasse outros encontros como aquele.
—–
Natália está aqui, à beira do meu leito, segurando-me as mãos. Quer que eu lhe confidencie os sublimes momentos ao lado do Alfredo. Não fica bem, mas oxalá eu pudesse narrar em minúcias os instantes que me devolveram a alegria de viver. Carinhosamente, ela insiste. Ainda bem que acaba de tocar a campainha. Ela corre a atender e vem me entregar um envelope. É do Alfredo! Leio e releio, e vejo desfilar os momentos mais vibrantes e felizes da minha existência. Com o firme propósito de sugar da vida ainda alguns instantes da lembrança do Alfredo, respiro fundo e forte, e experimento a convicção de que valeu a pena ter chegado até aqui…
Natália é persistente, e matreira e manhosamente me inquire. Com dificuldade, passo-lhe a folha, onde encontrará as respostas para todas as suas indagações:
Para a Angelina, a quem sempre muito amei,
O Reencontro
Separados pelo tempo e a distância
Só me resta viver das lembranças
Daqueles tão mágicos instantes,
De quando a reencontrei,
Brava sobrevivente de longas tempestades,
A vida em tristeza mergulhada…
Todo o meu Eu se diluiu em prantos,
E reguei suas entranhas
Como a chuva ao penetrar
Da Terra o ventre ressequido…
E no Universo de nossas vidas
Reinaram momentos de intensa sofreguidão,
Os corpos em divino e sagrado rito,
Como que açoitados pelos fortes ventos
Anunciando o fim de uma longa e sofrida ausência…
Depois, a calmaria…
E mais depois, o seu sussurro:
-Ai, amor, meu amor, nunca, nunca me senti tão feliz…
E sobreveio um choro manso e improvisado,
Explosão serena do consentido desabafo…
Resta-me, agora, daqueles reencontros,
A imorredoura lembrança
Que me conforta na solidão…
Do sempre seu, Alfredo .
Vó! - exclama Natália ao final da leitura – que legal, eu não sabia que o amor era capaz de tanta coisa, e que é tão forte que vai curar a senhora dessa gripe que a acometeu!
Reanimada com as palavras da neta, ergo-me do leito, recostando-me no travesseiro. E Natália insiste para que eu me ponha de pé, e num gesto destabanado próprio da idade vai puxando os cobertores.
Ajuda-me na maquiagem, e na maleta, mais que o necessário para uma viagem está a compreensão e o seu carinho, além da minha certeza de que, sendo amada, vale a pena continuar a viver.

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1 Comentário »

  1. Eneida Tagliolatto Pires comenta:

    12 Setembro, 2007 @ 09:35

    Gabriel, que coisa linda!
    É uma mistura de coisas vividas por pessoas das quais nós conhecemos. Esse segundo trecho, que encerra o conto Cinderela do museo de cera, está muito parecido com a história que lhe contei ontem; a minha amiga que encontrou a felicidade depois de muitos anos separada de seu amado, e que hoje é realizada, e sente-se como uma adolescente, tal é a sua felicidade em poder se casar finalmente com ele. Que você possa sempre nos beneficiar com essas maravilhas. Um abraço fraternal, Eneida.

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