Set
04

Contos do Bié - Cinderela do Museu de Cera

Categoria(s): Contos e Poemas, Sociologia


Sabedoria

Colaborador: Gabriel Araújo dos Santos *

* Poeta Mineiro


womanMeu Deus, minhas almas, ajudem-me, preciso me encontrar com ele, faz quanto tempo não o vejo! Cinqüenta anos? Não. Mais. Como me lembro…

Era o anoitecer da primeira sexta-feira, eu vinha vindo da igreja, e o encontro foi em frente aos Correios, onde ele ia pegar a jardineira rumo à Capital.

Foi tudo tão rápido! Viera se despedir, e insistia por um beijo, somente um beijo…

Beijar-me? Logo ali? O que diriam as pessoas? E Deus? Eu acabara de me confessar, coisa que ele não entendia. “O tempo está nublado”, brincou ele, “e Deus não verá o nosso pecado”.

E a jardineira partiu… Não lhe dei o beijo que ele tanto queria. Isso mesmo, era a primeira sexta-feira, e o beijo era um pecado, e eu tinha medo de Deus…

E agora, que faço?

Depois do seu telefonema, preciso ir ao seu encontro, dar-lhe o beijo que um dia lhe neguei. Só isso. Mas o que diriam meus familiares? Invento uma história. Mentir? Não, logo eu que sempre fui tão casta! Mentir? Viúva e nesta idade? Parece que todos me escutam, e olhos inúmeros estão sobre mim…

Nesta que não é mais a minha casa, não vê o que aconteceu com o meu genro?

Despedido do milionário emprego, não tinha mais como pagar aluguel e arcar com tantas outras despesas. Eu vivia sozinha. Bem, sozinha, não. Faziam-me companhia dois lindos angorás e o Joly, cachorro preto e peludo. A turma insistia que eu era muito só, que mais cedo ou mais tarde morreria de solidão. Mas não foi por isso que concordei com eles virem para minha casa. Tive pena da neta temporona, a Natália.

Hoje, vejo quanto ingênua eu fui. Para eles, a gente, nesta minha idade, vive com o mínimo, e este mínimo diz respeito a tudo. Daí, minha nula participação nos mais comezinhos assuntos; daí, acharem que não mais havia razão para manter em casa os meus angorás e o velho Joly. Sorrateiramente, de tempos em tempos foram dando fim neles. Até o telefone se foi. Primeiro, disseram que iriam usar a linha só por uns dias. Já faz mais de ano e está lá, por causa da Internet. Não tenho mais a liberdade de falar com as minhas amigas.

Vejam o que sucedeu com o carro, deixado pelo falecido.

Como não dirijo, inventaram que os gastos eram elevados, e que bastava o carro do meu genro. E que quando eu precisasse era só falar. Deus está vendo. Foi-se o carro e também o produto da venda. E acabaram-se os meus passeios e as idas às casas de minhas amigas. O Tonho, exímio chofer, me prestava bons serviços, e cobrava quase nada.

Tanto insistiram, que me convenceram a ceder meu quarto para o tal escritório virtual. Enfiaram-me num cubículo na parte superior da casa. Logo eu, que detesto escadas. No meu quarto eu tinha tudo nos lugares: o telefone, o rádio e a televisão e a pequena estante com os livros preferidos. E o velho oratório. Havia também o banheiro, tudo bem cuidado. Até hoje não providenciaram a instalação da tv. Banheiro, uso o do corredor próximo do meu cubículo, que está sempre com aquele cheiro forte de cigarro, mania dos dois netos que se levantam com o cigarro já aceso, e ficam um tempo enorme, pelas altas horas da noite, com o chuveiro ligado. Já pedi para abreviarem o banho, que me atrapalha o sono. Não dão a mínima!

Agora, sim, vejo o que é solidão. É muito mais que estar sozinha. É ver-me cercada de tantas pessoas que a todo instante me ignoram e fingem que não existo. A essas alturas da vida, transformaram-me numa espécie de fantasma, mas que tem nome e rosto. Entretanto, não me chamam pelo nome. Não me olham no rosto. O usual é referir-se a mim em termos jocosos e depreciativos. São comuns os murmúrios, os cochichos pelos cantos da casa. “Já vem ela, a Cinderela do Museu de Cera”. Ou “A Madalena Arrependida até que lambiscou bem hoje”. Implicam até com o perfume que uso, que dizem ter cheiro de velho. Não respeitam meus valores morais e religiosos, tampouco a minha individualidade. Aos olhos deles, e na ótica de seus amigos e vizinhos eu me vejo no céu, rodeada de cândidas criaturas…São os enganos, os desencontros que só levam ao que eu chamaria de desperdício de felicidade e afeto. Parece haver um pacto entre eles, tanto o desprezo visível em suas faces…

Natália, oito anos, a neta temporona, é quem preenche os meus dias. Ainda não se contaminou da empáfia dos que nos rodeiam. Sua ternura e simplicidade me encantam. Procuro descer à sua inocente pequenez, e me nivelo a ela, tentando tornar-me uma criança… Os outros vêem uma cafonice neste meu proceder, e insinuam até que estou a chantagear a menina, que quer saber como foi minha meninice, quais minhas brincadeiras preferidas e os paqueras que eu tive. Já sabe quase tudo de minha vida. Ou quase tudo… Ela vive me observando, e percebe as mínimas mudanças do meu humor. Tem sido minha fiel confidente… Dia a dia quer ir mais fundo dentro de mim, logo eu, que sempre fui tão reservada…

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3 Comentários »

  1. Eneida Tagliolatto Pires comenta:

    4 Setembro, 2007 @ 19:30

    Gabriel, mais uma vez você me emociona.Se continuar assim, vou ter de ter sempre mão uma caixa de lenço de papel. Sua amiga literal, Eneida Tagliolatto

  2. claudia Claumann da Silva comenta:

    1 Novembro, 2007 @ 04:12

    Parabéns. Realmente emocionante.

  3. Silvia Trevisani comenta:

    2 Novembro, 2007 @ 17:36

    Parabéns! Meu amigo Bié o prosador, já nasceu poeta … tem o dom de escrever e encantar as pessoas com um jeito irreverente de ser. As letras correm em suas veias desafiando as leis da natureza. Dono de um coração enorme.

    Minha eterna admiração!

    Silvia Trevisani

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