Jul
16

Hipocondria no idoso

Categoria(s): Gerontologia, Psicogeriatria, Sociologia


Editorial

Colaborador: Antonio Cesar Antoniazzi *

* Médico e pós-graduando do curso Saúde e Medicina Geriátrica da Metrocamp

hipocondria
Antigamente, quando se pensava em saúde, significava que o indivíduo estava livre de doenças. A medicina na época, sem tantos recursos, ficava intrigada em conhecer os motivos da pessoa adoecer. Uma luz parecia ter surgido com a descoberta dos micróbios, que atacavam o organismo para nele viverem e tirar seus nutrientes. Com isto, a descoberta dos antibióticos parecia resolver este problema, mas o que se observava era que as pessoas continuavam adoecendo. Mais algumas décadas e viu-se que saúde não se traduzia em ausência de doença, e sim um conceito mais amplo, que leva em consideração o bem estar físico, psíquico e social da pessoa.

Hoje se encara a saúde como fruto de um bom funcionamento bio-psico-social, que produz a maior riqueza da vida: o bem estar.

Hipocondria

A hipocondria é um distúrbio psiquiátrico no qual o indivíduo refere sintomas físicos e mostra-se particularmente preocupado por acreditar firmemente que eles representam uma doença grave. Este sentimento não tem características de delírio. É persistente, tem um período mínimo de duração de 6 meses, e se mantém apesar da investigação médica clínica e laboratorial nada apontar como distúrbio ou desvio da normalidade. Estes sintomas muitas vezes causam significantes distúrbios clínicos e implicações na vida social e ocupacional.

Os hipocondríacos normalmente sentem-se injustiçados e incompreendidos pelos médicos e parentes que não acreditam em suas queixas: eles levam seus argumentos a sério e irritam-se com o descaso. Por outro lado resistem em ir ao psiquiatra sentindo-se até ofendidos com tal sugestão, quando não há suficiente diálogo com o clínico. Os hipocondríacos podem ser enfadonhos por repetirem constantemente suas queixas, além de serem prolixos nas suas explicações. Períodos remissivos e de crises, muito variáveis, permitem concluir que o médico não deve usar a palavra “cura”, substituindo-a por “alívio”.

Há alguns anos, modelos de explicação do cognitivo, tem sugerido a conceituação de que a Hipocondria seja uma manifestação da alteração do nível cognitivo. De acordo com Barsky (1992), o indivíduo hipocondríaco percebe de modo aumentado sintomas somáticos e viscerais fisiológicamente e anatomicamente normais, como a hipotensão postural ou alterações no rítimo cardíaco, doenças corriqueiras como gripe, ou distúrbios somáticos ou viscerias associados ao estado emocional (ansiedade, depressão).

Outro modelo de explicação, proposto por Salkovskis (1989), Warwick (19889), Warwick & Salkovskis (1989,1990) and Salkovskis & Clark (1993), diz que a mais importante característica da hipocondria é a interpretação incorreta de sintomas físicos não patológicos como sendo uma doença grave.

As diferentes situações de oposição da vida comum constituem autêntico estado de conflito, provocando tensões progressivas. O limiar de suportação dessas tensões é específico para cada pessoa. Quando essa capacidade defensiva se esgota, por deficiência de elaboração do processo mental, as cargas psíquicas transbordam desaguando no corpo.

O homem necessita enfrentar, operar e resolver fenômenos sucessivos em diferentes períodos. Ele só pode se desenvolver, estando em equilíbrio com suas estruturas psíquicas e somáticas, através do comando da mente.

Se o indivíduo ao ser frustrado é capaz de suportar a dor mental, seu afeto se conserva íntegro. Ao contrário, não suportando a dor mental com sofrimento imenso atingindo todo o seu ser, não circunscrito, sem ter manobras de alívio, opta pela dor física, controlável pela sua localização e susceptível de melhora por recursos os mais variados.

Hipocondria no idoso

O relacionamento do idoso com o mundo se caracteriza pelas dificuldades adaptativas, tanto emocionais quanto fisiológicas; sua performance ocupacional e social, o pragmatismo, a dificuldade de aceitação do novo, as alterações na escala de valores e a disposição geral para o relacionamento objectual. No relacionamento com sua história o idoso pode atribuir novos significados a fatos antigos, e os tons mais maduros de sua afetividade passam a colorir a existência com mais matizes; alegres ou tristes, culposas ou mentirosas, frustrantes ou gratificantes, satisfatórias ou sofríveis.

Ajuriaguerra, ao afirmar que “envelhece-se como se viveu”, certamente estava pensando nos traços pessoais de nossa constituição que acabam ficando mais marcantes com o envelhecimento.

Se os acontecimentos existenciais eram sentidos com alguma dificuldade ou sofrimento na idade adulta ou jovem, quando a própria fisiologia era mais favorável e as condições de vida mais satisfatórias e atraentes, no envelhecimento, então, quando as circunstâncias concorrem naturalmente para um decréscimo na qualidade geral de vida, a adaptação será muito mais problemática. Portanto, podemos dizer que quanto melhor tenha sido a adaptação da pessoa vida em idades pregressas, melhor será sua adaptação no envelhecimento. Por ser velho, não deve ser obrigatoriamente doente.

O idoso, considerado um peso social, frustra-se com a subtração de seu espaço existencial, anteriormente vivido com plenitude e sucesso. Experimenta então, uma profunda reação de perda sem nada a substituir o objeto perdido: seu valor como pessoa. Desta maneira, mesmos indivíduos relativamente equilibrados emocionalmente durante a vida pregressa, com a velhice tendem a descompensar.

Tratamento

O tratamento é difícil, pois o hipocondríaco está convencido de que algo em seu organismo encontra- se gravemente alterado. A tranqüilização não reduz essas preocupações. Entretanto, uma relação de confiança com um médico atencioso é benéfica, sobretudo se as visitas regulares ao seu consultório forem acompanhadas por uma atitude tranqüilizadora. Igualmente, o relacionamento do idoso com seus familiares e cuidadores é de suma importância no atendimento global do problema. Se os sintomas não forem adequadamente aliviados, o indivíduo pode ser beneficiado pelo encaminhamento a um psiquiatra para uma nova avaliação e tratamento, concomitantemente com o atendimento médico primário.

Referências:

Ballone,G.J. – Alterações Emocionais no Envelhecimento, in. PsiqWeb, Internet, disponível em WWW.psiqweb.med.br, revisto em 2004.

Lima, J.P.C. – Saúde e Doença, in. Psicossomática, Internet, disponível em WWW.psicossomatica-sp.org.br/artigos

Capisano,H.F. – Somatização crônica, in. Psicossomática, Internet, disponível em WWW.psicossomatica-sp.org.br/artigos

Hipochondriasis – in. EITA, Internet, disponível em WWW.eita.es

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