Arquivo de 7/mai/2007





07 - mai

Fabricando doenças

Categoria(s): Gerontologia, Notícia, Sociologia

Fabricando doenças

Revendo o brilhante texto do Marcelo Leite, colunista do Jornal Folha de São Paulo a respeito do uso e abuso da medicina pelas indústrias farmacêuticas e os meios de comunicação mundiais. Gostaria de transcrever trechos, que nos fazem pensar, quanto disto envolve nossos idosos, criando falsas esperanças de rejuvenescimento, e não do envelhecimento saudável.

____O ser humano, de uma forma geral, sempre buscou por soluções simples para problemas complexos, em especial os de saúde, este é o segredo explorado há milênios pelos vendedores de ungüentos, garrafadas e emplastros milagrosos. Porém, bem mais lucrativo que inventar remédios, é fabricar doenças novas, com critérios de diagnóstico amplos e algum recém-desenvolvido medicamento de uso contínuo. Dá para ganhar bilhões.
____A receptividade e o entusiasmo dos consumidores contemporâneos para com as novas moléstias, exploradas pela mídea, parecem inesgotáveis. Nem as escolas médicas escaparam do marketing que mantém as empresas farmacêuticas como um dos ramos mais rentáveis da indústria, ainda que sua capacidade de inovação -medida pelo número de novos princípios ativos aprovados para comercialização- esteja em queda contínua.

____Essa tendência do mercado farmacológico para a massificação de moléstias preocupa um número cada vez maior de médicos e até de jornalistas, em geral coadjuvantes empenhados desse processo. Ele já foi chamado de medicalização da vida, mas hoje é conhecido de maneira mais pejorativa como “disease-mongering” (algo como “apregoar doenças”, aqui traduzido por “fabricação de doenças”).

____Uma coleção de ensaios publicada no periódico científico de acesso aberto “PloS Medicine” (medicine.plosjournals.org), três dezenas de páginas de ataque frontal às táticas de vendas das empresas farmacêuticas e aos médicos e jornalistas que se prestam a implementá-las.

____O termo “disease-monger” foi criado em 1992 por Lynn Payer, relembra Leonore Tiefer, da Universidade de Nova York, em seu artigo para o dossiê da “PloS Medicine”. Payer também listou os dez mandamentos para a fabricação bem-sucedida de uma nova doença:
1. Tomar uma função normal e insinuar que há algo de errado com ela e que precisa ser tratada;
2. Encontrar sofrimento onde ele não necessariamente existe;
3. Definir uma parcela tão grande quanto possível da população afetada pela “doença”;
4. Definir a condição como uma moléstia de deficiência ou como um desequilíbrio hormonal;
5. Encontrar os médicos certos;
6. Enquadrar as questões de maneira muito particular;
7. Ser seletivo no uso de estatísticas para exagerar os benefícios do tratamento disponibilizado;
8. Eleger os objetivos errados;
9. Promover a tecnologia como magia sem riscos;
10. Tomar um sintoma comum, que possa significar qualquer coisa, e fazê-lo parecer um sinal de alguma doença séria.

____O ponto forte do dossiê da “PloS Medicine”, editado pelos australianos Ray Moynihan (jornalista, autor do livro “Selling Sickness”, ou “Vendendo Doença”) e David Henry (farmacologista clínico, fundador da página de internet Media Doctor, www.mediadoctor.org.au), é não poupar a imprensa como co-autora dessa obra de falsificação em massa. O ponto fraco é algum excesso na demonização da indústria farmacêutica, que não exerce um papel tão proeminente assim na exageração de outras panacéias biomédicas, como a genômica e a pesquisa com células-tronco.

____A “big pharma”, afinal, só vende o que nos dispomos a comprar, como lembrou Ben Goldacre, médico e autor do popular blog britânico Bad Science (má ciência): “Somos todos participantes desse jogo. Fingir que a medicalização é algo imposto a nós -por malvadas e poderosas influências externas- só enaltece um sentimento perigoso de passividade”, ressaltou Goldacre.

Referências:

LEITE M. – HIPOCONDRIA DE RESULTADOS: Revista médica acusa indústria farmacêutica de fabricar moléstias para vender remédio. Folha de São Paulo, São Paulo, domingo, 23 de abril de 2006

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